Obra transmídia de Zé Wellington e Rafael Dantas mistura literatura e quadrinhos em uma aventura cearense

O que aconteceria se um entregador de aplicativo encontrasse uma cópia exata de si mesmo durante o expediente? Em “Pavão Misterioso Delivery Express”, lançamento da Avoante Editora, a situação dá início a uma jornada com universos paralelos, entidades-pássaro e uma nave em formato de pavão.

Com texto de Zé Wellington e desenhos de Rafael Dantas, a obra reúne literatura e histórias em quadrinhos ambientadas em Fortaleza. O livro une ficção fantástica, crítica social, cultura nordestina e humor. A proposta nasceu da fusão de duas ideias distintas: uma história sobre universos paralelos e um projeto de HQ sobre um entregador.

A rotina de Jeferson e o desafio do aplicativo

No centro da narrativa está Jeferson, entregador que busca o topo do ranking do app EntregaFast. A recompensa é um bônus de 2% no faturamento, valor crucial para quem precisa pagar as contas e custear os cuidados da filha, Luana. A garota enfrenta uma gripe forte há mais de uma semana e precisa ver um médico.

No entanto, focado em migrar das filas da UPA para clínicas particulares, Jeferson acelera pelas ruas para cumprir as entregas dentro do prazo de uma hora. A rotina muda ao chegar a um condomínio antigo para uma entrega. Sentindo enjoo e dor de cabeça, Jeferson abre a porta de um apartamento e dá de cara com uma versão idêntica de si mesmo.

Universos paralelos e cultura nordestina

A explicação do fenômeno vem de Evan, integrante de uma organização responsável por conter anomalias dimensionais. Com duas versões de Jeferson no mesmo espaço, a estabilidade local fica comprometida. Assim, para contornar o problema, surge a nave Pavão Misterioso, capaz de cruzar realidades.

Desse modo, a obra recupera o clássico cordel “O romance do Pavão Misterioso” e a famosa canção de Ednardo, incorporando ficção científica ao linguajar regional cearense. A mistura de universos traz riscos, pois atrai a reação das entidades-pássaro Capote e Caburé. Desse modo, como Evan alerta, o choque entre realidades pode provocar consequências catastróficas.

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Crítica à meritocracia e a pressão do trabalho

Para além da ficção, a narrativa aborda a rotina e a precarização vivida pelos trabalhadores de aplicativos. A obra questiona a ilusão de meritocracia e produtividade que responsabiliza o próprio indivíduo pelo sucesso ou fracasso. Jeferson tenta ser multitask mesmo convivendo com o déficit de atenção, refletindo a pressão por metas, notificações e sobrecarga diária.

Além disso, o dilema se acentua quando a cópia de Jeferson revela que perdeu sua própria filha e o alerta para cuidar de Luana antes que seja tarde. Desse modo, o encontro leva o protagonista a refletir sobre o conflito entre a necessidade do trabalho e a urgência do cuidado. Portanto, mesmo dividido, o personagem precisa escolher suas prioridades diante das exigências do cotidiano.

Sobre os autores

Nascido em Sobral, Zé Wellington atua com literatura e quadrinhos há mais de 20 anos como escritor, roteirista, produtor cultural e consultor. Vencedor do Troféu HQMIX em 2016 por “Steampunk Ladies: Vingança a Vapor” e semifinalista do Prêmio Jabuti por “Cangaço Overdrive” e “Mata-mata: versão estendida”, ele também acumula premiações como o Prêmio ABERST.

Já Rafael Dantas nasceu em Fortaleza e trabalha no mercado de quadrinhos há mais de 15 anos. Co-fundador do estúdio Qomics e ilustrador com passagens por títulos internacionais como “Doctor Who” e “The Phantom”, Dantas é coautor de “Miss Hyde” e foi finalista do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica 2025 na categoria Quadrinhos Fantásticos por “Cangaço Overdrive: Além das Raízes”.

Imagem de capa: Divulgação

Estagiário sob a supervisão de Anna Flávia Lopes