“Esperança de André Portella” é uma obra que mostra que acreditar na bondade é a melhor saída, mesmo diante de uma doença grave. No livro, seguimos a história de “Esperança”, uma menina de 15 anos que, após anos morando no exterior, retorna à cidade natal do pai. Inicialmente, trata-se dos conflitos normais de uma menina de 15 anos que se sente deslocada em uma cidade e escola nova.
Ao ingressar na nova escola, Esperança tenta se integrar com otimismo e simpatia, mas é o comportamento introspectivo de Lucca que desperta sua atenção. O jovem, que ela conhece após ser hostilizado pelo antigo amigo Kaique, aos poucos passa a confiar em Esperança. Lucca revela que sofre um forte preconceito dos outros colegas por ser filho da cozinheira.
Alerta de Spoiler
Discussão sobre preconceito social na Escola
O início do namoro entre Lucca e Esperança marca uma fase de aceitação inesperada para o rapaz, que é calorosamente acolhido pela família da jovem. Embora os pais de Esperança temam que o altruísmo impulsivo da filha traga consequências graves, eles cedem diante de sua personalidade forte.
A relação do casal ganha novas camadas durante uma viagem à cidade onde Esperança vivia. Antes alvo de discriminação, Lucca torna-se o centro das atenções entre o círculo social de Esperança. Esse contraste é interessante, uma vez que, mesmo cercado de jovens de alto poder aquisitivo, Lucca consegue se sentir confortável. Isso sugere que o preconceito contra ele é concentrado no ambiente escolar.
Desse modo, abre-se uma discussão de por que a escola funciona como um cenário propício para o bullying. É a reunião de uma convivência compulsória (não é fácil mudar de escola) e um período de intensa busca por identidade e aceitação social. A supervisão insuficiente ou a normalização sob o pretexto de “brincadeira”, torna a escola um lugar de exclusão e violência simbólica.
O clube e as bolsas de estudo
O tópico do preconceito também é destaque quando Esperança decide criar um clube de educação para discutir o futuro dos jovens. Nesse contexto, Esperança decide abrir um fundo para financiar bolsas de estudos para pessoas carentes.
Uma iniciativa nobre e bem recebida pelos demais alunos, esbarra nos pais que não querem “que seus filhos estudem com bolsistas”. Além disso, o diretor demonstra incômodo com os funcionários estarem escrevendo seus filhos na escola, assim como revela que as bolsas oferecidas, na verdade, não são suficientes.
Isso traz o questionamento: onde está a fiscalização para essa oferta de bolsas? Realmente, os bolsistas são aceitos nesse ambiente elitista? Apesar da questão ser resolvida e todos conseguirem acesso às bolsas, tanto esse preconceito velado quanto o comportamento do diretor, são extremamente incômodos.
A doença
Na metade da obra, a narrativa chega ao ponto crítico. Tudo caminha bem na vida de Esperança, até que ela recebe o diagnóstico de leucemia. O autor dá os sinais de que há algo errado, uma vez que a mãe de Esperança, que é médica, demonstra preocupação com a saúde da filha.
Quando sai o diagnóstico, é como o leitor se vê em um dilema, assim como os personagens. Como uma jovem otimista, cheia de vida, que enxerga apenas a bondade e tem uma fé inabalável no futuro, vai encarar algo tão desafiador. A doença é um choque para todos que estão próximos à Esperança. Diante do diagnóstico, a jovem age com otimismo, mas também compreende a realidade e sabe que pode não se curar.
Diante do agravamento de sua enfermidade e da oportunidade de Lucca seguir sua carreira por meio de uma bolsa de estudos, Esperança toma uma medida drástica: para impedir que o rapaz sacrifique o futuro por sua causa, ela convence os pais a forjarem sua morte.
A revelação da farsa deixa Lucca magoado e instaura um dilema. Embora compreenda, ele afirma que Esperança não poderia tomar essa decisão por ele. Isso evidencia que a doença impacta tanto o paciente quanto seus familiares, amigos e pessoas próximas.
O conflito levanta questões controversas sobre limites. O doente tem o direito de impor o afastamento de quem ama? Onde termina a proteção e começa o egoísmo? Dessa forma, a obra convida o leitor a refletir sobre o peso emocional de quem assiste ao sofrimento ao ver a pessoa amada passando por algo difícil.
Depois da dor: os finais felizes
Felizmente, Esperança se recupera e a obra termina com ela e Lucca juntos, construindo um futuro. Os demais personagens também encontram seus finais felizes. O desfecho reafirma a essência da protagonista. Esperança supera o maior desafio de sua jornada da mesma forma que enfrentou todos os outros, com uma perseverança que relembra o significado do seu nome.
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Impressões sobre o livro
A obra destaca-se pelo grande potencial de seus personagens coadjuvantes e pelas tramas paralelas, que enriquecem o universo narrativo. A linguagem, marcada pela objetividade notável, aproxima-se com fidelidade da realidade. Uma possibilidade para elevar o ritmo da obra seria se o autor optasse por desenvolver mais as tramas paralelas, e do mesmo modo, encurtar a extensão dos capítulos, conferindo assim maior fluidez ao texto.
É impossível não se angustiar com o estado de saúde de Esperança, cujo diagnóstico serve como um lembrete de que a qualquer momento, tudo pode mudar. Após momentos de incerteza, sua recuperação traz alívio ao leitor. No entanto, o conflito moral gerado por sua mentira a Lucca é um problema.
Até que ponto o desejo de proteger alguém nos dá o direito de decidir por essa pessoa? A atitude de Esperança, embora nascida do altruísmo, atravessa a linha entre o cuidado e o controle. Portanto, a mensagem da obra é a importância do altruísmo e do otimismo, desde que estes caminhem lado a lado com o respeito aos limites individuais. Devemos nos inspirar na resiliência de Esperança, uma vez que a confiança de que o futuro reserva algo positivo é, muitas vezes, o único alicerce capaz de manter o equilíbrio em tempos de incerteza.
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