Uma viagem fantástica pelo folclore japonês e pela cultura amazônica


No livro “Flauta de Bambu” da Editora Rocco, a escritora paraense Giu Yukari Murakami narra uma aventura infantojuvenil que entrelaça o cenário amazônico ao folclore japonês. A partir da jornada de Aiko, uma jovem de 13 anos em missão que recebe da avó, a obra aborda temas como ancestralidade, identidade e o enfrentamento ao racismo e à xenofobia. 

Ao longo da trama, a protagonista não apenas desvenda as raízes de sua linhagem, mas fortalece seus vínculos familiares e o sentimento de pertencimento. A trama se passa em Belém, capital do Pará. Confira a resenha de “Flauta de Bambu”.

O início: Batchan e Kimiko

Ao visitar sua Batchan (avó) Masumi que está com a saúde debilitada, Aiko recebe dela uma flauta de bambu. Junto ao presente, a senhora lhe conta uma história. Quando fugiam da Segunda Guerra Mundial, ela se perdeu de sua amiga Kimiko. Batchan acredita que Kimiko foi levada por uma criatura marinha em meio a uma pororoca. 

A pororoca é um fenômeno que ocorre quando as águas de um rio encontram as correntes do oceano, o que provoca ondas. Ela é comum na foz do Rio Amazonas, devido à variação das marés, baixa profundidade, estreitamento do leito e confronto das massas de água.

O que parecia apenas mais uma das histórias de Batchan revela-se muito mais quando Aiko começa a ter uma série de sonhos, ou melhor lembranças do que aconteceu. Nesses sonhos Aiko é sua Batchan e relembra sua fuga da guerra, assim como o momento em que se perdeu de Kimiko. 

A aventura de Aiko, Nilo e Tio Noboru

Em busca de respostas, Aiko parte rumo ao interior do Amazonas acompanhada de seu melhor amigo, Nilo, e de seu tio Noboru. A jornada atravessa cenários exuberantes de rios e florestas até alcançar Tomé-Açu, apresentada como a maior colônia japonesa da região. 

Embora o desaparecimento de Kimiko tenha ocorrido no Japão, a narrativa utiliza a metáfora do “encontro das águas” para sugerir que a distância física não rompe a conexão espiritual entre Batchan e Kimiko. Portanto, é ali, no interior da Amazônia, que está a chave do mistério sobre o desaparecimento de Kimiko.

O elemento fantástico se manifesta quando o trio se depara com criaturas que ligam  a mitologia local ao folclore japonês, como a mística Vitória-Régia e a temível raposa Kitsune. Em meio a esses perigos, Aiko carrega uma ferramenta poderosa: sua flauta de bambu. O artefato revela-se um objeto de poder capaz de afugentar ameaças e guiar a protagonista em sua missão.

Ao descobrir que Kimiko vive como uma princesa em um império submarino, Aiko mobiliza-se para promover o reencontro entre a avó e sua melhor amiga. Toda essa jornada é envolta em uma atmosfera de profundo respeito à natureza e valorização dos laços ancestrais que as conectam.

Impressões sobre o livro

“Flauta de Bambu” impressiona pela descrição meticulosa do cenário amazônico e pela habilidade da autora em entrelaçar, de forma clara e coerente, as lendas regionais à ancestralidade do folclore japonês. Mesmo as metáforas mais complexas são empregadas com precisão. Do mesmo modo, o uso de criaturas fantásticas serve como um guia didático para o leitor, evitando que a narrativa se torne confusa, o que é  um mérito da autora.

A obra não apenas celebra a riqueza cultural e ambiental da Amazônia, mas também acerta ao enfatizar a preservação da natureza, uma vez que a protagonista depende dela para cumprir sua missão. Além disso, o livro promove discussões necessárias sobre racismo e xenofobia, culminando em uma lição valiosa sobre o respeito entre os povos. Dessa forma, “Flauta de Bambu” é uma leitura gratificante e uma excelente recomendação para quem busca uma aventura fantástica com aprendizado.

Sobre a autora

Giuliana Yukari (縁) Murakami (村上) é uma autora brasileira de ficção. Nasceu em Belém do Pará, sendo neta de imigrantes japoneses. Em suas obras, aborda os aspectos de sua vivência amazônida, assim como sua identidade asiático-brasileira. Autora de“Guardiões do Império – O Selo do Sétimo” (2017), “A Aprendiz de Erveira” (2023) e “Flauta de Bambu” (2026), também escreveu um conto “Nas bordas de quem eu sou” que foi exposto no Museu do Amanhã. Além de escritora, é advogada e atua nos ramos de direito tributário e da propriedade intelectual no Fonseca Brasil Serrão Advogados.