Coletânea traz histórias cotidianas da autora que fogem ao convencional
O audiobook “Dias de Sol: Crônicas sobre viver em um mundo nada inclusivo” da escritora Thais Pessanha, relata os desafios, ironias e encontros da vida da autora, que vive com a osteogênese imperfeita (OI), ou doença dos ossos de vidro. A produção da Ubook foge da dramatização convencional ao relatar a experiência humana da autora. Ela mostra suas relações familiares, o capacitismo e outras situações com as quais ela precisa lidar vivendo com seus ossos frágeis.
Com narração da atriz Juliana Caldas, durante os capítulos, que variam de 10 a 15 minutos, “Dias de Sol” traz um episódio específico da trajetória da jovem. Ao conviver com a doença dos “ossos de vidro”, ela precisa se atentar a todos os detalhes. Desde as férias na praia, um passeio de buggy até o show da banda “É o Tchan”, ela precisa conviver com quedas, transporte público não adaptado e calçadas e ruas inacessíveis.
Nesse meio tempo, Thais convive com olhares curiosos e limitações que as pessoas insistem em impor a ela. Porém, com humor afiado e uma perseverança admirável, ela mantém sua autonomia e firmeza, mostrando que nenhuma deficiência é empecilho para uma vida normal.
Um retrato autêntico do cotidiano
O que mais surpreende na leitura é a simplicidade e a proximidade com que o cotidiano é retratado. Além disso, a escrita e os títulos criativos dos capítulos, como, por exemplo, “O dia em que a pipoca venceu” demonstram uma ironia e, ao mesmo tempo, sensibilidade que revelam os sentimentos de Thais. O fato de ela não demonstrar raiva ou ressentimento diante de sua condição, mas sim uma certa leveza, torna a leitura ainda mais marcante e divertida.
“Dias de Sol” é uma tradicional coletânea de contos, apesar de as histórias se conectarem sem seguir uma ordem cronológica. É no pósfácio, no entanto, que a autora aprofunda o tema ao falar abertamente sobre a osteogênese imperfeita, sendo ela o único caso na família. Desse modo, Thais detalha as limitações que vão muito além da fragilidade óssea. Ela revela um histórico de cerca de 300 fraturas estimadas, escoliose, crises de asma, pneumonia e outras complicações graves.
Ainda assim, ela sobreviveu. E segue escrevendo sua história, porque, como bem resume, a doença é uma parte importante de quem é, mas não a define. O texto também faz um retrospecto, passando pelos primeiros estudos da condição em 1788 e lembrando que, no Brasil, o Ministério da Saúde só aprovou o Protocolo de Tratamento Clínico da OI no SUS em 2001.
Leia também: Crítica | “Honestino” acerta ao misturar documentário com ficção
Impressões sobre o livro
A obra é um audiolivro tradicional, sem efeitos sonoros, e com linguagem clara e precisa. “Dias de Sol” revela uma protagonista que se torna cada vez mais fascinante a cada capítulo. A osteogênese imperfeita desperta natural curiosidade sobre o cotidiano de quem convive com a condição, e acompanhar a determinação de Thais diante de cada obstáculo é uma experiência revigorante.
Apesar de expor desafios diários, a obra foge completamente da dramatização excessiva ou da clássica jornada do herói. O capacitismo, muitas vezes velado e incômodo, desmorona diante da firmeza da autora. Seja ao lidar com olhares curiosos ou com perguntas diretas de crianças e diante de sua cadeira de rodas, ela simplesmente segue em frente. Afinal, a condição é parte de quem ela é, mas jamais a resume.
Imagem de capa: Ubook | Amazon
📲 Entre no canal do WhatsApp e receba novidades direto no seu celular e Siga o Geekpop News no Instagram