Estreia da 2ª temporada de “Como Água Para Chocolate” aprofunda a dor de Tita e Pedro e aposta no sofrimento como motor dramático
Após uma primeira temporada marcada pela contenção emocional e pela ampliação do contexto histórico, “Como Água Para Chocolate” inicia sua segunda temporada com um episódio que não busca reconquistar o público pela nostalgia ou pelo romance idealizado. Ao contrário, o capítulo de estreia opta pelo caminho mais árido: o da perda, do silêncio e da quase anulação de seus protagonistas. É um retorno duro, melancólico e coerente com o desfecho trágico anterior.
Baseada no romance de Laura Esquivel, a série da HBO, dirigida por Julián de Tavira, mantém-se no território do drama romântico histórico, mas neste primeiro episódio da nova fase desloca o foco do desejo reprimido para o luto absoluto. A ideia central é clara: mostrar o que resta quando o amor é separado pela violência, pela tradição e pela morte – seja ela real ou presumida.
Um ponto de partida marcado pela violência da separação
A segunda temporada começa exatamente onde a primeira terminou. Elena (Irene Azuela), em mais um de seus atos de controle implacável, entrega Pedro (Andrés Baida) e outros rebeldes ao general responsável pela repressão, que, ironicamente, é seu próprio tio.

A consequência é imediata: Pedro é enviado para o fuzilamento. Tita (Azul Guaita), por sua vez, é arrancada de casa e levada à força para um convento. Tudo isso acontece após a morte do filho de Pedro com Rosaura (Ana Valeria Becerril), um trauma recente que ainda paira sobre todos.
O episódio constrói sua tensão a partir da ausência. Pedro acredita ter perdido Tita. Tita acredita que Pedro está morto. O luto se sobrepõe até mesmo à dor pela morte do sobrinho que ela tanto amava, criando um vazio emocional que a série faz questão de prolongar.
Tita apaga, Pedro resiste
Um dos momentos mais fortes do episódio acontece quando Tita recebe, em sonho, a notícia da morte de Pedro. A partir daí, algo se rompe de forma definitiva. Ela para de comer, para de falar, para de existir socialmente. Azul Guaita entrega uma atuação silenciosa e física, apostando no esgotamento do corpo como expressão da dor. É uma escolha arriscada, mas eficaz. A personagem parece perder sua razão de viver, e a série não tenta suavizar esse colapso.

Pedro, por outro lado, sobrevive por pouco. É encontrado quase sem vida por Gertrudis (Andrea Chaparro), que o leva para junto dos rebeldes. Não há heroísmo nessa recuperação. Há apenas resistência. Andrés Baida trabalha bem esse registro mais contido, de um homem quebrado pela perda do filho e pela separação forçada da mulher que ama.
Dr. Brown e o cuidado como contraponto
É nesse cenário de devastação que surge Dr. Brown (Francisco Angelini) como figura de cuidado e reconstrução. Ele resgata Tita do convento e a leva para sua casa, tentando devolvê-la à vida. O zelo do personagem chama atenção desde o início. Há sentimentos claros, mas também um respeito absoluto. A série constrói essa relação com delicadeza, sem pressa e sem competição direta com Pedro, ao menos por enquanto.
A narração, feita por uma parente distante de Tita no futuro, continua sendo um recurso essencial. Ela organiza o tempo, contextualiza as ações e ajuda o espectador a atravessar um episódio dominado pela dor e pela suspensão.

Cozinhar como reencontro com a própria chama
O ponto de virada do episódio acontece, portanto, quando Tita volta a cozinhar. Nesse momento, ela começa a recuperar a chama interna que parecia definitivamente apagada. Aos poucos, a comida retoma seu papel como linguagem emocional da narrativa. Ainda assim, o realismo mágico permanece tratado de forma contida e simbólica. Além disso, o episódio sugere que esse retorno à cozinha trará consequências. No entanto, Tita ainda não percebe completamente o alcance dessa transformação.
Da mesma forma, o reencontro entre Tita e Pedro, próximo ao desfecho, é construído de maneira deliberadamente cruel com o espectador. Pedro vê Tita e reage à presença dela no mesmo espaço. No entanto, ela não o vê. Enquanto ele observa à distância, ela segue sem perceber que está sendo observada.
Por um lado, há alívio ao saber que ele finalmente a encontrou. Por outro, a frustração se impõe justamente porque o reconhecimento não é mútuo e ele não gosta do que vê. O episódio se encerra quando o casal parece fisicamente próximo, mas emocionalmente separado. Assim, a série reafirma que essa história nunca esteve interessada em oferecer satisfação imediata, mas sim em prolongar o desejo, o conflito e a espera.
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Vale a pena assistir a 2ª temporada de “Como Água Para Chocolate”
Sim. O primeiro episódio da segunda temporada entrega um drama denso, emocionalmente exigente e bem interpretado. Azul Guaita e Irene Azuela seguem como destaques absolutos, enquanto a narrativa escolhe aprofundar o sofrimento antes de oferecer qualquer recompensa.
Não é um retorno confortável, mas é coerente, maduro e narrativamente sólido. Para quem acompanha a série pelo impacto emocional e pelo conflito entre desejo e repressão, a nova temporada começa fiel ao espírito trágico da obra.
Imagem de capa: HBO Max/Divulgação
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