A segunda temporada de “Demolidor: Renascido” avança aprofundando o conflito moral de Matt Murdock enquanto ele tenta equilibrar sua busca por justiça com um senso cada vez mais complexo de empatia. Após os eventos iniciais, a narrativa mergulha em um cenário onde alianças improváveis começam a surgir, especialmente envolvendo o Mercenário. Mesmo sendo o responsável pela morte de Foggy, o vilão passa a ocupar um espaço ambíguo. Dessa forma, Matt confontra seus próprios limites éticos ao decidir salvá-lo repetidamente, mesmo contra seus instintos de vingança.

Paralelamente, a série investe em uma estrutura que alterna presente e passado para expandir seus personagens. Flashbacks revelam não apenas a dinâmica inicial entre Matt e Foggy, mas também aprofundam figuras como James Wesley e Buck, conectando suas origens ao presente de maneira orgânica. Esse recurso também fortalece o arco de Wilson Fisk, mostrando como sua relação com Vanessa sempre foi central para suas decisões, tanto no submundo do crime quanto em sua tentativa de se estabelecer como uma figura pública legítima.

O quinto episódio marca um ponto de virada brutal. Após uma cirurgia aparentemente bem-sucedida, Vanessa acorda, trazendo uma falsa sensação de alívio, rapidamente destruída quando sua condição piora e culmina em sua morte. Esse momento não apenas redefine o futuro de Fisk, como também sinaliza uma transformação inevitável do personagem. A perda de Vanessa retira qualquer resquício de contenção que ainda existia, preparando o terreno para um retorno ainda mais sombrio e implacável do Rei do Crime, enquanto o mundo ao redor de Matt continua a se fragmentar moral e emocionalmente.

Episódio 2X06: “Réquiem”

Sabe quando uma narrativa começa até bem estruturada, com ideias interessantes e um peso dramático claro, mas vai se perdendo aos poucos até desembocar em decisões que parecem simplesmente… erradas? É exatamente essa a sensação que esse episódio de “Demolidor: Renascido” deixa. O título, carregado de significado, promete muito mais do que o episódio realmente entrega.

“Réquiem”, vindo do latim, remete ao descanso eterno, a uma despedida solene marcada por luto e encerramento. Dentro da história, esse conceito deveria simbolizar não só a morte de Vanessa, mas o fim definitivo de qualquer resquício de humanidade em Wilson Fisk. A ausência dela não é apenas emocional, é estrutural: sem Vanessa, Fisk deveria se tornar algo ainda mais frio, mais brutal, mais próximo da sua versão definitiva como Rei do Crime. O problema é que, apesar desse potencial gigantesco, o episódio parece incapaz de transformar essa ideia em algo realmente impactante.

Roteiro com decisões questionáveis

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Crédito: Reprodução / Disney +

E isso fica ainda mais evidente quando o roteiro passa a apostar em uma sequência de decisões questionáveis, tanto dos personagens quanto da própria construção narrativa. Do comportamento estranho de Heather Glenn, que rouba uma joia de Vanessa e depois canaliza seus traumas de forma quase caricata, até as atitudes inconsistentes de outros personagens, tudo parece girar em torno de escolhas que não convencem. A tentativa de Murdock de estabelecer uma trégua com Fisk, por exemplo, surge no pior momento possível. Isso reforça uma característica clássica, e frustrante, do personagem: sua tendência a tomar decisões moralmente complexas, porém estrategicamente desastrosas. Enquanto isso, Karen, movida por dor e revolta, se aproxima cada vez mais de cruzar limites que o próprio Matt insiste em preservar, criando um conflito que deveria ser poderoso, mas aqui soa mais repetitivo do que trágico.

No meio desse caos, “Requiem” até levanta boas ideias sobre consequência, luto e destruição emocional, mas falha em organizá-las de forma coesa. A sensação constante é de que o episódio acumula eventos importantes como morte, alianças, traições e confrontos, sem dar o devido peso a nenhum deles. No fim, o “réquiem” que deveria marcar uma virada definitiva acaba funcionando mais como um ruído narrativo do que como uma despedida memorável. E isso é talvez o mais frustrante: havia aqui um momento perfeito para elevar a série a outro nível, mas o que recebemos foi um episódio que se perde justamente quando mais precisava acertar.

Retorno de Jessica Jones

Crédito: Reprodução / Disney +

Uma coisa realmente funciona e muito dentre esse turbilhão de coisas questionáveis no episódio: o retorno de Jessica Jones. A personagem surge com uma das melhores cenas do episódio, descendo a porrada sem cerimônia. Além disso, ela equilibra a responsabilidade de cuidar da filha que, convenhamos, tudo indica ser fruto da relação com Luke Cage. É uma introdução que mantém a essência da personagem: sarcástica, cansada e absolutamente letal quando precisa.

Mas nem tudo são flores. Para quem acompanha desde a fase da Netflix, a mudança na dubladora brasileira causa um estranhamento imediato. A nova voz não é ruim, mas quebra aquela continuidade afetiva que o público construiu ao longo dos anos, o que acaba tirando um pouco do impacto emocional do retorno. Ainda assim, é aquele tipo de aparição que dá um respiro no episódio e lembra como esses personagens funcionam melhor quando o roteiro simplesmente deixa eles serem quem são.

Por fim, “Demolidor: Renascido” está disponível no Disney +.

Crédito da capa: Divulgação Disney +

Demolidor: Renascido – 2X05: “Réquiem” (Daredevil: Born Again EUA, 2026)
Showrunner: Dario Scardapane
Direção: Aaron Moorhead, Justin Benson
Roteiro: Dario Scardapane
Elenco: Charlie Cox, Vincent D’Onofrio, Margarita Levieva, Arty Froushan, Nikki M. James, Ayelet Zurer, Michael Gandolfini, Zabryna Guevara, Clark Johnson, Deborah Ann Woll, Genneya Walton, Hamish Allan-Headley, Matthew Lillard, Ty Jones, Tony Dalton, John Benjamin Hickey, Thomas Cokenias, Yorgos Karamihos, Annie Parisse.
Duração: 52 min.

Demolidor Renascido 2ª temporada poster
Crédito: Divulgação Disney +