Poucos jogos conseguem transformar uma atividade aparentemente simples, como administrar uma loja, em algo tão viciante quanto Moonlighter. O primeiro jogo encontrou uma combinação interessante entre exploração de masmorras, combate, gerenciamento e comércio, colocando o jogador no papel de um aventureiro que passava o dia vendendo seus espólios e a noite procurando novos tesouros. “Moonlighter 2: The Endless Vault” retorna com a mesma ideia, mas amplia praticamente todos os elementos da fórmula.

Desenvolvido pela Digital Sun e publicado pela 11 bit studios, o jogo leva Will novamente para uma aventura que mistura RPG de ação e elementos roguelite. Desta vez, a história coloca o protagonista em Tresna, onde ele precisa reconstruir sua loja, explorar dimensões perigosas e enfrentar o misterioso Endless Vault enquanto tenta recuperar sua terra natal. A sequência também abandona o visual 2D do primeiro título para apostar em um mundo totalmente tridimensional.

Essa review foi realizada com a versão do jogo para Playstation 5.

Uma nova dimensão para Moonlighter

Moonlighter 2 The Endless Vault foto 1
Crédito: 11 bit studios / Divulgação

A mudança para o 3D poderia facilmente descaracterizar Moonlighter, mas a Digital Sun consegue preservar boa parte da identidade do original. O mundo ganhou mais profundidade, os ambientes ficaram maiores e a exploração passou a transmitir uma sensação muito mais aventureira.

Tresna serve como uma espécie de ponto de descanso entre uma expedição e outra. É ali que o jogador melhora equipamentos, conversa com os moradores, investe no desenvolvimento da cidade e prepara a próxima incursão. A evolução do vilarejo também influencia diretamente a progressão, criando uma relação interessante entre aquilo que você encontra nas masmorras e aquilo que consegue construir fora delas.

O salto visual chama atenção principalmente pela direção de arte. Em vez de perseguir o realismo, Moonlighter 2 aposta em personagens estilizados, cenários coloridos e ambientes cheios de personalidade. O resultado combina muito bem com a atmosfera de fantasia e mantém aquela sensação de que estamos diante de um mundo criado para ser explorado.

Explorar, lutar e voltar para vender

A estrutura principal continua extremamente simples de entender: explore, lute, saqueie, volte para casa e venda tudo.

O problema é que executar essa tarefa nunca é tão simples quanto parece. Cada expedição exige que o jogador pense no que vale a pena carregar, quanto espaço ainda possui na mochila e até onde consegue avançar sem colocar seus espólios em risco.

Esse sistema continua sendo um dos grandes acertos da franquia. O inventário não é apenas como uma tela para organizar itens, mas como parte importante da estratégia. Encontrar uma relíquia valiosa quando a mochila já está cheia cria aquela dúvida deliciosa: abandono alguma coisa, tento encontrar uma saída ou continuo explorando em busca de algo ainda melhor?

É uma mecânica que transforma objetos aparentemente banais em decisões importantes e faz cada expedição ganhar um pouco mais de tensão.

O comércio continua sendo a alma do jogo

Moonlighter 2 se diferencia de outros RPGs de ação especificamente em relação à sua loja. Depois de retornar das aventuras, o jogador precisa organizar os itens encontrados, definir preços e observar o comportamento dos clientes. O valor de cada relíquia não aparece simplesmente como um número definitivo: cabe ao jogador descobrir quanto o público está disposto a pagar.

Essa dinâmica cria um ciclo extremamente satisfatório. Você entra em uma dimensão para conseguir recursos, volta para a loja, transforma os espólios em dinheiro e utiliza os lucros para melhorar equipamentos, estabelecimento e cidade. Depois, tudo começa novamente, mas com um personagem mais preparado para enfrentar desafios maiores.

O jogo também adiciona vantagens relacionadas às vendas, eventos especiais e novas possibilidades para personalizar e otimizar a loja. A administração, portanto, não aparece apenas como um minijogo entre as masmorras. Ela faz parte da própria progressão.

Combate mais dinâmico

Moonlighter 2 The Endless Vault foto 2
Crédito: 11 bit studios / Divulgação

O combate recebeu uma evolução importante em relação ao primeiro jogo. A transição para o 3D permitiu à Digital Sun criar confrontos mais fluidos, com diferentes classes de armas, equipamentos e vantagens que alteram a maneira como o personagem enfrenta os inimigos.

A variedade de equipamentos também incentiva o jogador a experimentar diferentes estilos. Em vez de depender apenas de aumentar números, é possível encontrar combinações que favorecem determinados tipos de abordagem.

Ainda assim, o combate não alcança o mesmo nível de profundidade de alguns dos grandes RPGs de ação. Ele funciona muito bem dentro da proposta de Moonlighter 2, mas o verdadeiro diferencial continua na combinação entre combate e gerenciamento. A luta existe para alimentar a economia da loja, e a loja existe para preparar o jogador para lutar melhor.

“Endless Vault” aumenta a sensação de desafio

O Endless Vault” é uma das principais novidades da sequência e representa uma evolução natural da estrutura roguelite. O artefato apresenta desafios crescentes e oferece recompensas que ajudam o jogador a continuar desenvolvendo sua cidade e seu personagem.

A proposta atende especialmente bem para quem gosta daquele clássico “só mais uma tentativa”. Cada incursão apresenta uma oportunidade de conseguir equipamentos melhores, encontrar novas relíquias e chegar um pouco mais longe.

Por outro lado, a experiência pode exigir paciência. A repetição faz parte da estrutura do jogo, mas algumas situações podem se tornar cansativas, especialmente quando determinados confrontos prolongam artificialmente uma batalha. Há relatos recentes de jogadores criticando momentos de invulnerabilidade e fases de chefes que interrompem excessivamente o ritmo dos combates.

Não chega a comprometer a proposta, mas mostra que a fórmula roguelite também pode cobrar seu preço quando o jogo exige repetição demais.

Uma sequência que entende o que fazia o original funcionar

Crédito: 11 bit studios / Divulgação

Um dos maiores méritos de Moonlighter 2 está em não abandonar aquilo que tornou o primeiro jogo interessante. A Digital Sun poderia ter transformado a sequência em apenas mais um RPG de ação em 3D, mas manteve o comércio no centro da experiência.

A diferença é que na continuação existe muito mais espaço para explorar essa ideia. A cidade evolui, a loja ganha novas possibilidades, os equipamentos permitem diferentes abordagens e as expedições apresentam mais variedade.

O resultado é uma experiência que consegue ser relaxante em alguns momentos e bastante exigente em outros. Administrar a loja pode proporcionar alguns minutos tranquilos, enquanto uma expedição mais profunda pode terminar em uma corrida desesperada para voltar para casa carregando uma mochila cheia de relíquias.

Visual, desempenho e DualSense

No PS5, Moonlighter 2 apresenta um visual bastante agradável, principalmente pela direção de arte. O salto para o 3D não serve apenas como demonstração técnica, mas ajuda a construir ambientes mais vivos e detalhados.

O jogo também oferece suporte ao DualSense, incluindo recursos de vibração do controle.

A interface merece destaque porque lida com uma quantidade considerável de informações sem transformar a experiência em uma bagunça. Como o gerenciamento de inventário e da loja ocupa uma parte importante da campanha, uma interface confusa poderia rapidamente transformar diversão em trabalho de escritório. Felizmente, isso não acontece com frequência.

Além disso, o jogo conta com português do Brasil nas legendas e na interface, o que facilita bastante a compreensão dos sistemas de comércio, progressão e equipamentos.

Vale a pena jogar “Moonlighter 2: The Endless Vault”?

“Moonlighter 2: The Endless Vault” entende que sua maior força nunca esteve apenas nas masmorras ou no combate, mas na maneira como todos os sistemas conversam entre si. Explorar serve para encontrar tesouros; os tesouros alimentam a loja; a loja gera dinheiro; o dinheiro melhora a cidade e os equipamentos; e tudo isso prepara o jogador para uma nova expedição.

A chegada ao 3D amplia esse universo sem destruir a identidade da franquia, enquanto o novo sistema de combate e o Endless Vault oferecem mais possibilidades para quem gosta de explorar, experimentar equipamentos e repetir expedições em busca de recompensas melhores.

Nem tudo funciona perfeitamente. A repetição faz parte da estrutura roguelite e alguns combates podem perder o ritmo, principalmente quando o jogo prolonga determinados confrontos mais do que deveria. Ainda assim, esses problemas não conseguem apagar a qualidade do ciclo principal.

No fim, “Moonlighter 2” é uma sequência que expande a fórmula sem esquecer por que o original funcionava. A mistura de RPG de ação, exploração e gerenciamento continua sendo seu maior trunfo, e o salto para o 3D dá ao universo uma nova dimensão sem transformar a experiência em algo irreconhecível.

Para quem gosta de jogos que recompensam planejamento, exploração e aquela satisfação quase inexplicável de transformar uma mochila cheia de tralhas em dinheiro, Moonlighter 2 tem uma proposta difícil de ignorar.

“Moonlighter 2: The Endless Vault” está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2 e PC.

Crédito da capa: 11 bit studios / Divulgação