Lucas Miranda, escritor e físico, faz uma escolha ousada ao analisar os poderes e trajetórias dos super-heróis e personagens marcantes em “Uma Viagem Científica pela Cultura Pop”. Na obra, ele não apenas explica os fenômenos científicos por trás dessas histórias, mas também mostra que essas narrativas não estão tão longe da realidade.

O livro resultou da coluna “Cultura Pop” publicada na revista Ciência Hoje, e traz fatos como a hipótese da clonagem de dinossauros em Jurassic Park, se existe a chance da imortalidade, entre outros temas. Em entrevista exclusiva ao GeekPop News, o autor fala da inspiração por trás do livro e sobre sua carreira como físico e pesquisador.

Confira a entrevista com Lucas Miranda

Você pode se apresentar para nossos leitores com as suas palavras?

Eu sou o Lucas Miranda, mineiro de Juiz de Fora, formado em Física e mestre em Divulgação Científica. Sou apaixonado por ciência, por cultura e, sobretudo, pelo meu país, por tudo que vem dele: o povo, a língua, as diversas expressões musicais, o cinema, as festas, as tradições.

Virei professor porque sempre gostei de compartilhar, de dividir com as pessoas tudo que sabia, tudo que me fazia meus olhos brilharem. E foi também por esse motivo que comecei na divulgação científica, inicialmente no audiovisual, depois nos podcasts, em seguida nas revistas, até chegar aos eventos.

Meu trabalho como professor e comunicador é não só o de tornar a ciência acessível, mas mostrar às pessoas o quanto é legal aprender, o quanto pode mudar a sua vida e que ela não é nenhum bicho de sete cabeças. O meu livro, “Uma viagem científica pela cultura pop”, é o resultado de anos estudando e trabalhando com popularização da ciência e também um reflexo da minha personalidade (um pouco hiperativa e incapaz de se satisfazer com um assunto só).

As cinco partes do livro perpassam assuntos muito variados: da física dos superpoderes ao poder da comunicação, da genética dos vampiros e à geologia do planeta de Duna ao combate aos preconceitos em X-Men e Pantera Negra. E, com isso, imagino que você já consiga perceber que também sou incapaz de responder qual é a minha matéria ou meu filme favoritos.

Como foi essa transição do meio científico para a literatura?

A minha trajetória acadêmica e profissional foi muito imprevisível. Nunca consegui me manter numa linha reta, como meus colegas faziam. Na escola, eu gostava de estudar algumas matérias, mas também matava algumas aulas para ficar escrevendo contos, desenhando plantas arquitetônicas de construções onde minhas histórias aconteciam ou tentando compor alguma música.

Já na faculdade de Física, dividia-me entre as matérias obrigatórias e matérias opcionais de outros cursos que eu fazia por prazer (como genética, teorias da comunicação, filosofia, fotografia). Mas a transição mesmo foi quando estava terminando o meu mestrado. Fiz um curso rápido de escrita para blogs de ciências com a equipe da Rede de Blogs de Ciências da Unicamp e fui fortemente incentivado a começar o meu próprio blog, o Ciência Nerd.

Poucos meses depois, a revista Ciência Hoje descobriu meus textos e me convidou para assinar uma seção nova da revista, a “Ciência e Cultura Pop”, e foi lá que uma chave virou. Meus textos ficaram mais conhecidos e assumi a função de revisor e autor de materiais didáticos em duas editoras, e a escrita se tornou parte central do meu trabalho.

O livro foi o caminho natural das coisas, para onde tudo já estava apontando. Não foi um salto abrupto da vida acadêmica para a de escritor. Foi um amadurecimento gradual e a construção de um repertório de histórias e conhecimentos ao longo de quase uma década.

Seu livro busca mostrar que as histórias de super-heróis não estão tão distantes da realidade. De onde veio essa inspiração?

Minha infância foi marcada por algumas influências muito marcantes. Sempre gostei de jogar RPGs de mesa (um tipo de jogo de interpretação de papéis), jogos online, ler fantasias (como Senhor dos Anéis, Duna, Harry Potter). Na adolescência, fui um consumidor voraz de podcasts de entretenimento, mas que também tinham boas doses de ciência e cultura, especialmente o Jovem Nerd e o Anticast (podcast de design, filosofia, política, etc.). 

Tudo isso foi alimentando em mim uma visão crítica sobre a cultura pop e me ensinando a traçar esses paralelos entre ficção, ciência e filosofia. Colocar isso no papel foi só uma consequência. Quando você tem um espírito de professor, você simplesmente não aguenta guardar para você nem a menor e mais inútil das curiosidades; você simplesmente quer compartilhar com o máximo de pessoas.

Você sempre foi um fã de super-heróis?

Nunca revelei isso, mas a verdade é que não. Minha paixão sempre esteve mais ligada a jogos e a alguns universos fantásticos (como as franquias que citei). O primeiro super-herói que realmente me cativou foi o Homem-Aranha (o primeiro, aquele interpretado pelo Tobey Maguire).

Comecei a escrever sobre super-heróis antes mesmo de gostar deles, e eu fazia isso porque via nesses personagens um potencial enorme e uma ótima desculpa para falarmos de ciência. Mas não teve jeito; após mergulhar nesse universo, estudar, ler alguns quadrinhos e me aprofundar mais no universo cinematográfico, acabei me tornando um grande fã!

Você também discute o impacto da cultura de massa na sociedade. De que forma você acha que as HQs servem como retrato dessa questão?

As HQs (e a arte em geral) sempre foram um espelho das sociedades que as produziram. Elas refletem os medos, os sonhos, os valores de cada época. Já foram instrumentos tanto para combater preconceitos e fazer críticas duras a governos e políticas, como também para reforçar estereótipos, vilanizar grupos e etnias. De todo modo, são fontes muito ricas para se conhecer mais sobre o passado.

É claro que essa dimensão crítica pode passar despercebida para muitas pessoas. Nem todo mundo que lê ou assiste a obras dos X-Men tem uma compreensão consciente das metáforas que estão ali, do contexto histórico por trás daquelas narrativas. Não é à toa que, no meu livro, eu dediquei uma parte inteira para discutir como as histórias podem tanto reforçar quanto combater preconceitos, podem ser armas poderosas (até mesmo em escala global) e impactar no imaginário popular. 

E isso foi uma das coisas que me encantou sobre os super-heróis e a cultura pop de forma geral: são muito mais do que entretenimento, são um verdadeiro espelho de quem somos ou queremos ser, e são uma ótima desculpa para abordar temas difíceis e importantes.

Nesse cenário atual de IA e redes sociais, como você analisa o consumo de conteúdo?

A maior parte dos capítulos desse livro foi escrita numa era pré-popularização dos chatbots, então esse é um tema que me escapou ao longo desses anos. Mas já faz algum tempo que as redes sociais e, especialmente, os algoritmos preditivos vêm moldando a forma como consumimos conteúdo, até mesmo a forma como nosso cérebro é estimulado. E isso é tão fascinante quanto delicado, porque pode ter impactos devastadores na sociedade, na política e em cada parte da nossa vida.

No livro, eu discuto como as narrativas são construídas, como a mídia e a cultura têm um enorme poder, inclusive de manipular nossas emoções sem que a gente perceba. A tendência é que, com a utilização em massa dos recursos baseados em inteligência artificial, isso se torne ainda mais complexo. Quantos de nós já fomos enganados (ainda que à primeira vista) por um vídeo, imagem ou texto feito completamente por IA?

Mas eu não sou pessimista. Acho que a solução passa pela educação midiática. Precisamos derrubar o mito de que os jovens são “nativos digitais” e, por crescerem rodeados por tecnologias, têm uma habilidade natural, intuitiva e superior aos mais velhos para lidar com o mundo digital. Mas a verdade é que não têm. Precisam ser educados (assim como os mais velhos) para aprenderem a desconfiar, a buscar múltiplas fontes, e a lidar com o digital de forma mais crítica.

De onde veio a inspiração para o título “Uma viagem científica pela cultura pop”?

Vou responder a essa pergunta com os mesmos argumentos que usei para convencer a editora do livro e a diretora editorial. Eu não queria que o título fosse frio ou descritivo demais. Queria um elemento mais humano, mais emocional, que fizesse mais do que apenas nomear a obra, mas convidasse o leitor a mergulhar junto comigo nas temáticas.

A “viagem” traz movimento para o título, tem também uma polissemia divertida, porque pode ser tanto a viagem literal, de quem embarca numa jornada, quanto aquela viagem no sentido mais descontraído da palavra, o devaneio, a ideia maluca, aquela gíria que a gente fala quando uma explicação parece absurda demais para ser verdade.

Naturalmente, essa viagem tem que ser científica, porque a ciência é a nossa melhor ferramenta, o kit de viagem mais seguro que dispomos para aprender sobre a natureza, minimizando as interferências das nossas opiniões, dos nossos vieses. E, por fim, repare também que essa viagem científica que proponho é “pela” cultura pop, não é uma viagem “para” um destino específico.

Talvez nem destino tenha, porque o livro não está muito preocupado em te levar a algum lugar, mas sim em fazer você desfrutar o trajeto. Há um quê de inutilidade no conhecimento que é maravilhoso. A mesma inutilidade de andar sem rumo, deixar-se perder por uma cidade nova e se surpreender com as descobertas. A mesma inutilidade de assistir a um filme ou jogar um jogo pela mera diversão. Por isso, acho que o título realmente não poderia ser outro.

Fale mais sobre os seus outros projetos de divulgação científica

Em 2017, quando terminei meu mestrado em Campinas, voltei para Juiz de Fora com o objetivo de fazer divulgação científica cara a cara, diretamente com as pessoas. Já trabalhava com produção audiovisual para YouTube, com podcast, e já estava escrevendo na Ciência Hoje. Criei então o Ciência ao Bar. Um evento que levava pesquisadores da universidade para conversar com a população sobre suas pesquisas em um bar da cidade. Não era uma palestra, nem uma aula.  Também não podia usar data-show nem jargões.

O formato deu tão certo que, no ano seguinte, criei o Festival Bela, Cientista e do Bar, com uma proposta similar, mas levando apenas pesquisadoras mulheres em três dias de evento, e também abriga um concurso de comunicação científica que recebe centenas de submissões de alunas (de graduandas a doutorandas). No mesmo ano, consegui trazer para Juiz de Fora o Pint of Science (que foi a inspiração para esses outros projetos). Esse é um evento que também leva cientistas para bares e acontece simultaneamente em centenas de cidades do mundo inteiro.

Todos esses projetos nasceram da mesma inquietação: tirar a ciência dos lugares onde ela fica confinada e levá-la para onde as pessoas estão em uma linguagem acessível e mais descontraída. Foi também com essa motivação que nasceu a seção Ciência e Cultura Pop, da Ciência Hoje, mas levando ciência diretamente para os lares dos leitores da revista.

Desde 2018, escrevo mensalmente para a revista na seção “Ciência e Cultura Pop”, onde me divirto (tanto quanto aprendo) explorando as múltiplas e incríveis relações entre o conhecimento científico e a ficção.

Quais são seus planos? Pretende escrever algum novo livro? E como está sendo conciliar as duas carreiras?

Não é muito fácil conciliar o trabalho de escritor com o de professor, de músico profissional e de corretor de seguros (e eu trabalho realmente com todas essas coisas atualmente). Mas, para mim, é um privilégio enorme poder transitar entre tantas áreas e estar diariamente estudando e aprendendo tantas coisas diferentes.

Cada um desses trabalhos é um descanso mental para o outro. Um me exige altas doses de criatividade e raciocínio. Outro de interação social e paciência. Outro de performance e esforço físico, e outro de concentração, foco e silêncio. Assim, escrever entra na minha vida como um hobby remunerado, que me traz um prazer enorme e um respiro das minhas outras atribuições. Por isso, tem funcionado bem.

Sobre planos futuros, não pretendo parar mais de escrever. Minha seção na Ciência Hoje segue firme, com textos mensais. E tenho ideias já começando a sair do papel para livros futuros, com abordagens e temáticas diferentes. Mas sempre com essa essência que se tornou minha marca: falar de ciência, de cultura pop e com uma linguagem leve e descontraída.

Para finalizar, deixe uma mensagem para os nossos leitores

Talvez a sua experiência com a física, a química, a biologia, ou mesmo a geografia, a história, a sociologia, a filosofia, não tenha sido tão boa na escola. Talvez algumas experiências ruins tenham te convencido de que estudar não é para você, que você tem bloqueio natural para aprender algo em específico, que você não é inteligente o suficiente. Mas não se deixe levar por isso. 

A escola pode ser uma ótima porta de entrada para o aprendizado, mas também pode ser um trauma e uma barreira para a vida toda. A natureza e o universo são incríveis e há uma beleza fascinante escondida em cada canto. Aprender sobre o mundo pode ser uma atividade inútil, sem nenhuma aplicação prática ou produtiva. Mas, sem dúvidas, o conhecimento muda completamente sua visão de mundo, a maneira como você vive, apreende e reflete sobre as coisas.

Ciência não é para cientistas, não é só para gênios ou nerds, não é para ficar guardada nos laboratórios ou nos artigos científicos. Ciência é um dos mais incríveis legados da humanidade e é um direito seu acessá-la, conhecê-la, utilizá-la. Nunca deixe que digam o contrário!

Imagem de capa: Reprodução | Instagram (@lucasmmiranda__)

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