Encontro reúne realizadores para propor novas vias de distribuição e conter sucateamento dos títulos

O Seminário Internacional Entre Cinemas promoveu na quarta-feira (23) seu debate inaugural para discutir como o cinema latino-americano pode contornar o sucateamento e romper as barreiras de circulação atuais. O evento ocorreu dentro da programação da 20ª CineBH e do 17º Brasil CineMundi, que ocorrem até 27 de setembro em Belo Horizonte.

A discussão partiu da dificuldade de se estabelecer consensos sobre uma ideia de latinidade, tensionada por identidades culturais e demarcações territoriais. A mediadora Ester Marçal Fer ainda instigou uma reflexão sobre o comportamento do cinema perante desafios contemporâneos, expandindo possibilidades sobre um corpo fílmico diverso.

Nesse sentido, a crítica de cinema e programadora chilena Marisol Águila, das plataformas Culturizarte, Democracine, El Agente Cine e Sara y Rosa, percorreu filmografias distintas para afirmar a força de modos de produção menores, que conseguem contornar desamparos institucionais. Assim, modos de organização laboral criativos, coletivos e alternativos forjam novas estéticas, tensionam formas consolidadas, ao mesmo tempo que expandem imaginários e territórios comuns. 

Cineastas discutem estratégias para a promoção de filmes latinos

Para Álvaro Arroba, programador do Bafic, da Quinzeaine des Cinéastes e do Seminci, os cinemas latinos enfrentam o desafio da circulação. Isso porque a não adesão a uma gramática reconhecível pelo cânone do Norte Global faz com que estes filmes não ganhem o mesmo reconhecimento dos grandes festivais europeus que buscam, muitas vezes, “um clichê de país”.

Ao mesmo tempo, Arroba também alertou para outra questão. Isto é, o “risco de se reproduzir padrões de assimilação a partir de um certo amoldamento que acaba sendo reproduzido em labs, escolas e por fundos de mercado”, que, diante das instabilidades econômicas da América Latina, acabam se tornando uma via para uma possível concretização de projetos, talvez de outra maneira inviáveis. 

Assim, Arroba apontou para o exercício de programação como gesto de proposição e legitimação de obras que desestabilizam lógicas de produção e linguagens cristalizadas. Se, como argumenta o coordenador curatorial da CineBH, Cleber Eduardo, “a maior contribuição do cinema latino-americano é se contrapor à ideia de um cinema internacional equilibrado, eficiente, regular no ritmo, na estrutura, na dramaturgia; está justamente em bagunçar formatos que circulam mais”, cabe aos programadores encontrar ferramentas para reconhecer e acolher tais rebeldias.

Rebelde é o cinema de Clarisa Navas, que desafia a racionalidade hiperprodutivista vigente com seu “O Príncipe de Nanawa“, integrante da Mostra Olhares das Argentinas. Para a realizadora, há de se criar condições para seguir fazendo um cinema insubmisso. Ela aposta na força dos encontros e de filmes feitos em bando. Na distribuição, também assinala a importância de “romper com uma lógica colonial que, todavia, permanece”. 

Debate repercute dentro da programação do evento

O debate inaugural ecoou no encontro de realizadores das mostras Território e Horizonte com a imprensa. Para Sol Iglesias, diretora de Los nadadores “há algo na América de sempre termos nossas veias abertas”. A jovem realizadora reivindicou a fantasia e a imaginação como “campo de batalha” e como recursos inestimáveis para se plantar o futuro.

“A fantasia é o que nos permite levantar a cabeça, não só a fantasia em questão de ficção, mas de formatos de produção, de construir algo novo quando tudo está em chamas”. Isso implica, ainda, vislumbrar outros espaços de partilha dos filmes: “temos que parar de tentar funcionar como os filmes maiores, há algo de muito importante em trabalhar com o artesanal, em pensar outros centros de circulação”.

Assim, Rócio Barbenza reforçou a importância dos cinemas de rua, dos cineclubes e de outros circuitos de exibição e de formação de público invisibilizados. “Há outros lugares que há muita riqueza também, de conversa, de troca, em que formas raras de produzir mundos têm lugares de exibição, formas raras e retorcidas para quebrar esse momento fascista em que estamos vivendo”.  Samuel Moreno Alvarez reiterou que, quando esses filmes são programados, o público também compra o risco. 

De certa forma, é no que acredita a homenageada da 20ª CineBH, Paz Encina: “Os filmes que faço não terão muitos espectadores. Eles são mais pretensiosos. Quero que durem no tempo. Que se passem 20 anos, e que ainda se assista à Hamaca Paraguaya. Quero que meus filmes estejam no tempo”.

Na masterclass que sucedeu a exibição de Exercícios de Memória, Encina reclamou o cultivo da atenção, que conjura como antídoto à perda do desejo. Com dois novos projetos, Encina segue trazendo os traumas paraguaios para o presente, dispondo-os, com politicidade e poesia, a olhares insurretos.   

Créditos Capa: Divulgação/Universo Produção