Em um cenário de crescimento da violência contra a mulher no Brasil, a literatura brasileira sempre foi um instrumento de educação e denúncia. Entre ficção e não ficção, obras contemporâneas discutem as dores, lutas e resistência das mulheres no decorrer dos anos. 

Os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que 1.568 mulheres foram mortas em razão de sua condição de gênero no ano de 2025. Além disso, em média, 4 mulheres são vítimas de feminicídio por dia no país. 

Para refletir sobre esse problema que, ano após ano, marca a nossa sociedade, conheça cinco livros nacionais contemporâneos que analisam a violência contra a mulher. São obras que analisam as diferentes formas de violência a partir de diferentes perspectivas.

“Boas meninas se afogam em silêncio” (2025)

Créditos: Rocco | Reprodução: Instagram (@anditabaczinski)

A médica e escritora gaúcha Andressa Tabaczinski, 35 anos, estreou na literatura com o livro “Boas meninas se afogam em silêncio” da Editora Rocco. O thriller investigativo foi finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Romance de Entretenimento. A história se passa na alta sociedade de Curitiba e parte do feminicídio brutal da jovem Amélia Moura. Após o arquivamento do caso por falta de evidências, o caso é reaberto após pressão da opinião pública, levando a Delegada Ana Cervinski e o policial Júlio Bragatti a se tornarem os responsáveis pela investigação.

Com a afirmação por parte dos personagens de que Amélia não era uma “boa menina”, a autora discute como o comportamento da vítima é usado como justificativa para a violência. Do mesmo modo, evidencia o silenciamento e as estruturas de poder dentro dos casos de violência. A narrativa alterna entre o trabalho da dupla de investigadores e a perspectiva da protagonista.

Andressa Tabaczinski defende que histórias como a de Amélia precisam existir na ficção para deixarem de se repetir na vida real. “Escrever sobre isso é também uma forma de nomear essas violências e tensionar as estruturas que ainda as tornam possíveis.”

Agressão: A escalada da violência doméstica no Brasil (2025)

Créditos: Globo Livros | Amazon

A jornalista Ana Paula Araújo questiona por que tantas mulheres ainda são agredidas dentro de suas próprias casas. Do mesmo modo, porque mesmo com leis avançadas, o Brasil continua sendo um dos países do mundo com mais casos de violência e feminicídio. A autora reflete sobre o motivo de tantas vítimas terem medo ou vergonha de denunciar seus agressores, o que torna a violência doméstica um crime silencioso, devastador e cotidiano.

Ana Paula Araújo percorreu todas as regiões do Brasil, ouvindo não apenas as vítimas, mas também os agressores, familiares, assim como os profissionais da saúde e os representantes do sistema judiciário. “Agressão” é um trabalho jornalístico rigoroso que mapeia a realidade enfrentada por milhares de brasileiras.

“Insubmissas Lágrimas de Mulheres” (2011)

Créditos: Malê | DMT Palestras

Conceição Evaristo usa o conceito de “escrevivência” para, em treze contos, dar voz a mulheres negras que vivenciaram diferentes tipos de violência. Essas personagens foram subjugadas, mas transformaram a dor e o sofrimento em ferramentas de afeto, resistência e solidariedade. Um exemplo é o conto “Natalina Soledade”, que mostra como a violência psicológica acontece no cotidiano, muitas vezes antecedendo os desfechos mais trágicos.

“Dias Perfeitos” (2014)

Capa do livro e foto do autor Raphael Montes
Créditos: Companhia das Letras | Reprodução: Instagram

Narrada pela perspectiva perturbadora do agressor, “Dias Perfeitos” de Raphael Montes, faz uma descrição perfeita da possessividade e da violência masculina. Téo, um jovem estudante de medicina, apaixona-se e passa a nutrir uma obsessão por Clarice. No entanto, ao ser rejeitado, ele a sequestra e a obriga a viajar com ele, mantendo a jovem como prisioneira. O livro é um thriller angustiante e “claustrofóbico” que mostra o sofrimento da vítima alvo de vários tipos de violência durante a narrativa.

“Medeia Morta” (2023)

Créditos: HarperCollins Brasil | Amazon

Obra semifinalista do Jabuti, “Medeia Morta”, de Claudia Lemes, revisita o mito grego de Medeia. A ex-professora de literatura de Ian Medeia, com quem ele mantinha um relacionamento proibido, é assassinada. Agora ele é o principal suspeito e precisa enfrentar o julgamento da mídia, sobre ele e sobre Medeia. O suspense psicológico mostra como as dinâmicas de poder nas relações familiares, o abuso emocional e psicológico, assim como a masculinidade tóxica, afetam as mulheres no ambiente doméstico.

Imagem de capa: Imagem Ilustrativa | Site do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais

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