De heroína a adolescente comum, as obras sobre Anne Frank refletem nuances de sua personalidade

Em 2025, completaram-se 80 anos do falecimento de Anne Frank. A história da jovem judia ganhou o mundo após a publicação de seu diário, em 1947. Ao registrar sua rotina enquanto vivia escondida com a família e amigos durante o regime nazista, a garota alemã tornou-se símbolo da resiliência judaica na Segunda Guerra Mundial. Inclusive, além do livro ”O Diário de Anne Frank”, seus relatos passaram por diversas adaptações para o cinema, a televisão e, mais recentemente, o streaming.

No entanto, cada versão é moldada pela visão dos envolvidos nas produções, o que faz com que o retrato da adolescente varie bastante. Assim, a depender do roteiro, Anne surge como tranquila ou mais agitada, com grande otimismo ou sem muitas esperanças. A seguir, confira algumas das variações de Anne Frank nos filmes e séries.

A gentileza de Anne

O Diário de Anne Frank (1959), de George Stevens, foi a primeira adaptação da história da garota judia para os cinemas. Aliás, inspirado na peça teatral homônima, o longa-metragem contou com a supervisão de Otto Frank, pai de Anne e único sobrevivente do grupo que se escondeu durante cerca de dois anos no sótão de uma fábrica. Desta maneira, a obra tem a visão paternal de Frank sobre a filha.

No filme, Anne Frank (Millie Perkins) é uma menina energética e que ainda vive sua infância, mesmo aos 13 anos. Apesar dos problemas de convivência com a família, a jovem é carinhosa com seus parentes e tem um apego especial com seu pai. Com o seu otimismo e ânimo, ela tenta alegrar os outros residentes do esconderijo, tornando-se a “luz” do lugar.

Ao longo da trama, a autora do diário amadurece, mas continua com uma pureza quase sagrada. Essa aura santa é evidente na cena de seu primeiro beijo, representado apenas pela sua silhueta e de Peter Van Daan (Richard Beymer), em um gesto rápido.

Anne Frank, família e amigos em "O Diário de Anne Frank" (1959)
Anne Frank, família e amigos em “O Diário de Anne Frank” (1959). Créditos: Reprodução/IMDb

Minha Querida Anne Frank (2009) corrobora com a construção dessa imagem imaculada da adolescente. O filme de Alberto Negrin destaca a face bondosa de Anne (Rosabell Laurenti Sellers) ao mostrar a jovem rezando pela vida de seus companheiros de cárcere e cantando para distrair garotinhos que estão sendo levados para a câmara de gás no campo de concentração. O seu altruísmo também aparece na cena em que ela consola sua irmã em seus últimos momentos de vida.

Anne e sua “rebeldia”

Por sua vez, o longa Anne Frank, Minha Melhor Amiga (2021), de Ben Sombogaart, traz novas nuances à jovem. Protagonizada por Hannah Goslar (Josephine Arendsen), colega de infância de Anne (Aiko Beemsterboer), a releitura mostra a relação das duas jovens entre a vida em Amsterdã e nos campos de concentração. A energia da adolescente continua presente na obra, porém, seus traços infantis são reduzidos. O filme aborda com mais profundidade a sexualidade de Anne Frank, mostrando suas primeiras experiências com garotos. 

Além disso, a adolescente apresenta falhas em sua amizade com Goslar, ignorando as opiniões da amiga e colocando-as em situações desconfortáveis e até mesmo perigosas. Apesar dos conflitos e de sua imprudência, Anne Frank é o maior ídolo de Hannah. Anne é a líder do grupo, corajosa e à frente de seu tempo, transformando-se na principal fonte de esperança de sua amiga nos tempos sombrios da Segunda Guerra Mundial. 

Anne Frank e Hannah Goslar em "Anne Frank, Minha Melhor Amiga" (2021)
Anne Frank e Hannah Goslar em “Anne Frank, Minha Melhor Amiga” (2021). Créditos: Reprodução/Netflix

No entanto, a minissérie O Diário de Anne Frank (2009), dirigida por Jon Jones, destoa das obras anteriormente citadas. Na obra, a empatia da protagonista quase desaparece, dando espaço para uma garota teimosa, implicante e difícil de lidar. Ao invés do seu lado carinhoso, os episódios mostram uma Anne (Ellie Kendrick) grosseira com todos, inclusive com seu pai. A garota rejeita os cuidados de seus pais e negligencia os sentimentos de sua irmã mais velha, Margot (Felicity Jones). Seu otimismo e energia também são apagados, tornando-a em uma figura antipática para o público. Porém, as atitudes são esperadas para uma adolescente, em especial na situação de isolamento em que se encontrava.

O legado de Anne Frank

Por fim, mesmo com diferenças notáveis de escolhas criativas, todas as obras mantêm vivo o legado de Anne Frank e transmitem sua mensagem para novas gerações. Seu testemunho está eternizado como um dos maiores símbolos dos horrores do Holocausto.

Créditos da imagem de capa: Reprodução/Anne Frank House

Redatora em experiência sob supervisão de Giovanna Affonso.

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