Em “Do Tamanho de um grão”, a autora nacional N. Netta aborda o tema do aborto no Brasil. Ao narrar a história de uma mulher que opta por um procedimento clandestino em Belo Horizonte, nos anos 1980, a autora mostra os perigos de uma escolha não apoiada pelo governo. Ao longo das 120 páginas, N. Netta conta em detalhes como uma decisão que para muitas pessoas pode ser um direito se transforma em um crime que pode fazer com que um momento naturalmente tão delicado se torne algo ainda mais complicado.
Alerta de gatilho: O tema central do livro gira em torno de temas sensíveis
“Do tamanho de um grão”
Durante a década de 1980, uma mulher de vinte e poucos anos se encontra divorciada e morando sozinha no centro de Belo Horizonte. Em busca de aproveitar sua juventude, ela não tem medo de exercer sua sexualidade e nem de se envolver com quem bem entender. No entanto, a liberdade acaba tendo um preço maior do que o esperado quando ela engravida.
Com medo do julgamento, ela não pode contar com a ajuda da família e não sabe muito bem como seguir. O homem que a engravidou deixa bem claro que não quer nada com a criança e, assim, ela se vê obrigada a seguir em frente sem suporte e sem dinheiro.
Em meio à necessidade de encontrar uma forma de resolver essa questão, a personagem, nunca nomeada pela autora, precisa lidar não apenas com a gravidez indesejada, como também com a solidão e o medo de ser pega fazendo algo ilegal.
O aborto
Ao narrar um fato que faz parte da história de tantas mulheres no Brasil e no mundo, o livro levanta diversos questionamentos. Mais do que narrar um fato, N. Netta traz luz a um assunto muitas vezes marginalizado pela sociedade. Por mais que o aborto clandestino ainda exista e seja de conhecimento geral, mulheres continuam sendo obrigadas a se submeter a esses procedimentos perigosos que podem ser fatais, sem o suporte que deveriam ter para fazer tal escolha de forma segura.
Em formato de um livro de memórias, a narradora omite os nomes de todos os envolvidos e conta sua dificuldade em entender como chegar até o local onde poderia ser atendida, enquanto olha para o passado com nostalgia, enquanto reflete sobre os perigos que correu. Foi graças à obra de Simone de Beauvoir que ela encontrou pela primeira vez um relato honesto sobre o aborto e pôde enfim se sentir menos sozinha.
A obra possui texto de apresentação de Isadora Araújo Pontes, tradutora de Annie Ernaux no Brasil. Annie é autora de “O Acontecimento“, uma das obras mais famosas do mundo sobre o aborto clandestino.
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Impressões sobre o livro
Essa não é uma leitura fácil, muito pelo contrário. Com uma estrutura de diário e capítulos curtos, o livro proporciona uma leitura rápida, porém sensível, que exige tempo para o leitor absorver a história. A narradora torna sua dor tangível, e é impossível atravessar essa experiência sem se sentir tocado, sem se perguntar: o que seria de mim se eu estivesse ali, no lugar dela, diante da necessidade de recorrer a um aborto clandestino em um país como o Brasil, que, nos anos 1980, ainda lutava por tantos direitos e pela própria democracia?
A história se passa na minha cidade natal e poder visualizar onde tudo acontecia mexeu comigo em um nível ainda mais pessoal. A cena do aborto é uma das mais difíceis que já li. A autora conta essa passagem com muito cuidado e sensibilidade, mas ainda assim é difícil digeri-la.
Ainda que exija cuidado e sensibilidade, esse é um livro que deveria ser lido por todo mundo, principalmente aqueles que ainda não entendem os riscos de um aborto clandestino e a dificuldade de ser mulher em um mundo construído e governado por homens. N. Netta entregou um enredo real, cru e inesquecível. Sem dúvidas, esse enredo reverberará para sempre dentro de mim.
Imagem de capa: reprodução Amazon
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