Depois de explorar o vício no reboot de 2013 e transformar a maternidade no centro de A Morte do Demônio: A Ascensão, a franquia Evil Dead volta a se reinventar. Sob a direção de Sébastien Vaniček (Infested), com roteiro assinado ao lado de Florent Bernard, “A Morte do Demônio em Chamas” (Evil Dead Burn) entende o legado criado por Sam Raimi, trazendo muito sangue, violência exagerada, humor ácido e uma direção visual interessante. Mas, desta vez, o verdadeiro monstro não é apenas o “Deadite”, é a própria família.
Sem abandonar a insanidade característica da série, o filme utiliza o horror sobrenatural para falar sobre luto, abuso, relações familiares tóxicas e o peso de pertencer a um ambiente que já estava destruído muito antes da chegada do Necronomicon.
O demônio apenas revela o que já estava podre

A grande sacada do roteiro é perceber que os Deadites não criam o caos daquela família. Eles apenas escancaram feridas que estavam escondidas.
Após a morte de Will, sua viúva Alice retorna para a casa dos sogros durante o funeral. O que deveria ser um momento de despedida rapidamente revela ressentimentos antigos, acusações veladas e uma estrutura familiar construída sobre silêncio, culpa e violência psicológica.
Alice é tratada como uma intrusa, enquanto o patriarca exerce um controle sufocante sobre todos ao seu redor. Quando a possessão começa, fica evidente que o verdadeiro terror nunca esteve apenas na entidade demoníaca.
É uma abordagem inteligente, que transforma o banho de sangue em algo maior do que simples entretenimento gore.
Sébastien Vaniček honra Raimi sem abrir mão da própria identidade
Depois de Infestação, Vaniček demonstra que sabe conduzir o horror de forma extremamente dinâmica. As clássicas movimentações frenéticas de câmera, os planos subjetivos acompanhando os Deadites, os zooms rápidos e a montagem acelerada remetem diretamente aos filmes de Sam Raimi, mas nunca parecem mera imitação.
Há referências claras aos três filmes originais da franquia, especialmente ao humor absurdo de Evil Dead 2 e Army of Darkness. Ao mesmo tempo, é possível identificar influências do cinema extremo francês, marca registrada do diretor. O resultado é um filme que respeita suas raízes enquanto encontra personalidade própria.
Além disso há uma singela referência a “O Iluminado”, adaptação do livro de Stephen King, do diretor Stanley Kubrick, com a típica cena da porta.
O humor finalmente está de volta

Depois do tom extremamente sério de A Morte do Demônio: A Ascensão, o novo filme recupera um dos elementos mais divertidos da franquia, o humor negro.
Não se trata de transformar o terror em comédia, mas de entender que o exagero faz parte do DNA de Evil Dead. As mortes continuam grotescas, os Deadites permanecem cruéis e a violência nunca perde intensidade, mas a direção encontra espaço para situações absurdas que arrancam risadas nervosas do público. Esse equilíbrio faz toda a diferença.
Gore criativo e direção técnica impecável
Como esperado, a violência gráfica é marca registrada da franquia. Próteses, maquiagem prática e litros de sangue falso dominam praticamente todas as sequências mais intensas. Mesmo quando os efeitos digitais aparecem, eles raramente comprometem o resultado.
A fotografia aposta em sombras profundas, tons acinzentados e uma iluminação constantemente ameaçadora, enquanto a montagem mantém um ritmo frenético que praticamente não permite ao espectador recuperar o fôlego.
Há planos-sequência extremamente bem executados, perseguições criativas e momentos em que a câmera parece tão possuída quanto os próprios personagens.
Um elenco eficiente em meio ao caos
Souheila Yacoub segura bastante o filme como Alice, entregando uma protagonista que vai muito além da tradicional “final girl”. Sua trajetória envolve medo, trauma e sobrevivência, mas também um processo de enfrentamento contra uma estrutura familiar abusiva.
Erroll Shand também merece destaque como o patriarca da família. Sua transformação em Deadite rende alguns dos momentos mais perturbadores do longa. Embora alguns personagens permaneçam pouco desenvolvidos, o elenco consegue vender a tensão crescente dentro daquela casa.

Vale a pena assistir “A Morte do Demônio em Chamas”?
“A Morte do Demônio em Chamas” entende exatamente o que fez a franquia atravessar mais de quatro décadas sem perder relevância. O filme entrega violência criativa, humor ácido, possessões grotescas e diversas homenagens aos clássicos de Sam Raimi, mas também encontra espaço para discutir temas como luto, abuso e relações familiares tóxicas.
O grande acerto de Sébastien Vaniček é mostrar que o Necronomicon apenas desperta monstros que, de certa forma, já existiam. O verdadeiro terror está na família.
É uma das entradas mais fortes da franquia desde o reboot de 2013 e uma prova de que Evil Dead continua sendo uma das séries mais consistentes do terror atualmente.
Crédito: Divulgação Sony Pictures
“A Morte do Demônio em Chamas” (Evil Dead Burn) (Estados Unidos, 2026, 1h 50min) – Horror/
Mistério e Suspense
Direção: Sébastien Vaniček
Roteiro: Sébastien Vaniček, FloBer
Elenco Principal: Souheila Yacoub,Tandi Wright, Hunter Doohan
Produtor: Rob Tapert, Sam Raimi
Produção: Ghost House Pictures, New Line Cinema, Screen Gems
Fotografia: Philip Lozano
Música: Xavier Caux, Douglas Cavanna, Double Danger
Classificação: 18 anos
Distribuição: Sony Pictures.

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