A ficção científica brasileira tem encontrado caminhos cada vez mais interessantes para discutir problemas atuais sem recorrer aos grandes espetáculos hollywoodianos. Depois de filmes como Bacurau, Divino Amor e O Último Azul, chega aos cinemas “Futuro Futuro”, novo longa do diretor gaúcho Davi Pretto, vencedor do Festival de Brasília. Misturando drama, romance e distopia, o filme utiliza a inteligência artificial como ponto de partida para refletir sobre memória, desigualdade social e pertencimento. A proposta é ambiciosa e visualmente interessante, mas a execução nem sempre consegue sustentar tantas ideias ao mesmo tempo.
Uma distopia brasileira bastante atual
A história acompanha K, um homem que desperta sem qualquer memória em um Brasil devastado pelas mudanças climáticas e profundamente dividido entre ricos e pobres. Sem sequer lembrar seu próprio nome, ele inicia uma jornada para descobrir quem é enquanto entra em contato com uma tecnologia capaz de reconstruir lembranças por meio da inteligência artificial.
O roteiro propõe reflexões bastante atuais sobre dependência tecnológica, manipulação da memória, desigualdade social e o impacto da IA na forma como enxergamos o mundo. O problema é que nenhuma dessas discussões recebe o desenvolvimento necessário.
Ao tentar abordar tantos assuntos simultaneamente, o filme acaba tratando quase todos de maneira superficial. A sensação é de que diversas ideias excelentes disputam espaço dentro de uma narrativa que nunca consegue aprofundar verdadeiramente nenhuma delas.

Direção aposta mais na atmosfera do que na narrativa
Davi Pretto demonstra segurança na construção visual. A fotografia cria um contraste interessante entre o mundo real, marcado por tons frios e naturais, e as imagens artificiais produzidas pela inteligência artificial, dominadas por uma paleta avermelhada, quase surreal. Essa escolha estética ajuda a reforçar a ideia de um futuro onde a percepção da realidade se tornou completamente distorcida.
O uso proposital da IA para criar parte desses cenários também dialoga diretamente com a própria crítica que o filme faz sobre essa tecnologia, criando uma interessante camada de metalinguagem. Entretanto, toda essa riqueza visual não encontra o mesmo equilíbrio no desenvolvimento dramático.
Um roteiro cheio de ideias, mas com pouca conexão
O maior problema de Futuro Futuro está em seu roteiro. O filme apresenta uma doença que afeta a memória, uma sociedade dividida entre classes, uma inteligência artificial capaz de fabricar lembranças, uma crise climática permanente, um romance, críticas ao capitalismo e discussões sobre identidade.
Separadamente, qualquer um desses elementos renderia um excelente longa. Juntos, porém, eles acabam competindo pela atenção do espectador.
Em vários momentos, o roteiro parece mais interessado em levantar conceitos do que em construir personagens ou desenvolver conflitos. Muitas perguntas permanecem sem resposta, e nem todas parecem fruto de uma escolha narrativa. Algumas simplesmente dão a impressão de que ficaram inacabadas.
Atuações funcionam, mas os personagens ficam distantes

Zé Maria Pescador entrega uma atuação bastante contida como K, refletindo bem a confusão e o vazio vividos pelo personagem.
João Carlos Castanha também acrescenta humanidade à narrativa, principalmente nas cenas que exploram a solidão e o afeto em meio ao colapso daquela sociedade.
Ainda assim, o roteiro mantém seus personagens emocionalmente distantes durante boa parte da projeção, dificultando uma conexão mais forte com o público.
Um filme que exige bastante do espectador
Não há dúvidas de que Futuro Futuro pertence ao chamado cinema de autor. É um filme contemplativo, repleto de simbolismos e pouco interessado em oferecer respostas prontas. Essa característica certamente agradará quem aprecia narrativas abertas e experiências mais sensoriais.
Por outro lado, parte do público poderá sentir que a obra exige um esforço excessivo para preencher lacunas que deveriam estar melhor desenvolvidas dentro da própria história.
Há uma diferença entre deixar espaço para interpretação e simplesmente não desenvolver determinadas ideias — e, em alguns momentos, o filme ultrapassa essa linha.
Vale a pena assistir “Futuro Futuro”?

“Futuro Futuro” merece reconhecimento pela coragem de apostar na ficção científica como ferramenta para discutir questões extremamente atuais. A direção de Davi Pretto demonstra personalidade, a estética chama atenção e o debate sobre inteligência artificial, memória e desigualdade social é pertinente.
No entanto, a ambição do projeto acaba sendo maior que sua capacidade de organizar tantas ideias em uma narrativa verdadeiramente envolvente. O roteiro acumula conceitos interessantes, mas oferece pouco desenvolvimento para seus personagens e conflitos, tornando a experiência mais contemplativa do que emocional.
É um filme que certamente renderá boas conversas depois da sessão, mas dificilmente permanecerá na memória pelo impacto de sua narrativa. Sua força está muito mais nas reflexões que provoca do que na história que conta.
“Futuro Futuro” estréia dia 23 de julho nos cinemas.
Crédito da capa: Divulgação Vulcana Cinema
“Futuro Futuro” (Brasil, 2025, 1h 26min) – Drama, Ficção científica
Direção: Davi Pretto
Roteiro: Davi Pretto
Elenco Principal: Zé Maria Pescador, João Carlos Castanha, Carlota Joaquina, Clara Choveaux, Higor Campagnaro
Produtor: Paola Wink e Jessica Luz
Produção: Vulcana Cinema
Fotografia: Leonardo Feliciano
Música: Rita Zart, Carlos Ferreira
Classificação: 16 anos
Distribuição: Cajuína Filmes e Atelier W

═════════════════════════════════════════════════════════════
🩸 Para mais textos, análises e notícias sombrias sobre o mundo do terror, siga o Geek Sinistro nas redes sociais e não perca nenhuma novidade arrepiante.
