Filme dirigido por Antonio Pitanga revisita a Revolta dos Malês com força simbólica, mas peca em profundidade dramática

A história oficial do Brasil carrega cicatrizes de apagamentos. Diversos episódios foram ocultados, distorcidos ou reduzidos a notas de rodapé nos livros escolares, consequência direta do processo de colonização que apagou nomes, culturas e memórias.

O cinema nacional, nas últimas décadas, tem se colocado como um espaço de reparação, reabrindo capítulos esquecidos e dando voz a personagens silenciados.

Malês, que chega aos cinemas em 2 de outubro, insere-se nesse esforço. A superprodução dirigida por Antonio Pitanga (“Oeste Outra Vez”) traz à tela a Revolta dos Malês, levante negro ocorrido em Salvador em 1835, conduzido por homens muçulmanos escravizados que sonhavam com liberdade e autonomia.

Antônio Pitanga em Malês
Antônio Pitanga em Malês | Crédito: Tambelini Filmes/Globo Filmes

Com elenco de peso, Rodrigo de Odé, Bukassa Kabengele, Rocco Pitanga, Camila Pitanga, Patrícia Pillar, Indira Nascimento e o próprio Antonio Pitanga, o longa assume a missão de iluminar um dos episódios mais importantes e, ao mesmo tempo, mais desconhecidos da história brasileira.

É um projeto que levou anos para se concretizar, gravado em Salvador, Cachoeira e Maricá, e que pretende ocupar um lugar central na memória coletiva sobre a luta contra a escravidão no país.

A trama e o resgate histórico

A narrativa acompanha os Malês, grupo de africanos muçulmanos que buscava não apenas a liberdade religiosa, mas também a libertação de todos os escravizados.

Liderados por figuras como Licutam (Antonio Pitanga), Ahuna (Rodrigo de Odé), Manoel Calafate (Bukassa Kabengele) e Dassalu (Rocco Pitanga), o grupo planeja um levante contra o sistema escravocrata.

A prisão de Licutam serve como estopim para a organização de uma revolta que entrou para a história como um dos maiores movimentos de resistência negra no Brasil.

O roteiro de Manuela Dias opta por costurar múltiplos núcleos narrativos. Além dos líderes do movimento, há espaço para personagens femininas como Sabina (Camila Pitanga), marcada pela inquietação e dilemas, e Mãemãe A (Patrícia Pillar), representante da elite escravocrata.

Além disso, o enredo também tenta abarcar perspectivas familiares e religiosas, compondo uma espécie de mosaico histórico. Essa amplitude, no entanto, gera desequilíbrios.

Alguns personagens desaparecem da narrativa por longos períodos, e certas tramas secundárias, como os dilemas de Calafate ou a angústia de Sabina, ficam subexploradas.

Essa dispersão compromete a densidade dramática e pode confundir o público menos familiarizado com a Revolta dos Malês.

Camila Pitanga em Malês
Camila Pitanga em Malês | Crédito: Tambelini Filmes/Globo Filmes

Entre o respeito e os tropeços

É evidente a preocupação em respeitar a memória histórica. O filme preserva falas em árabe, cumprimentos típicos do islamismo e referências culturais que dão autenticidade ao retrato. Ainda assim, alguns sotaques irregulares podem tirar força de certas sequências.

Outro ponto sensível está no espaço dado às mulheres. Embora o filme busque destacar figuras femininas, elas acabam relegadas a papéis limitados.

A cena íntima entre uma mulher completamente nua e um homem parcialmente vestido ecoa convenções antigas do cinema, destoando da proposta emancipatória do longa.

A construção espacial também deixa a desejar. Locais fundamentais, como a mesquita, a prisão e as senzalas, aparecem pouco explorados, reduzindo a dimensão territorial que poderia ampliar o impacto visual e dramático da obra.

A força simbólica e os limites da direção

Na direção, Antonio Pitanga imprime respeito, vigor e uma energia contagiante. Sua presença é sentida tanto em cena quanto nos bastidores, inspirando o elenco e transmitindo a sensação de que o filme nasceu de um chamado ancestral. A trilha sonora, bem aplicada, intensifica momentos de tensão e apreensão, reforçando o caráter épico da narrativa.

Ainda assim, falta ao longa um clímax mais potente, capaz de surpreender o espectador com a mesma intensidade que o tema sugere.

Pitanga privilegia uma abordagem didática e clara. Essa escolha, embora compreensível, limita a complexidade política da revolta e suaviza o retrato das estratégias de combate que marcaram o movimento.

Malês se torna, assim, uma obra de grande valor simbólico, mas irregular em termos de impacto cinematográfico. Seu mérito maior está em existir: em abrir espaço no audiovisual brasileiro para um episódio central da luta negra por liberdade.

Cena do filme Malês
Cena do filme Malês | Crédito: Tambelini Filmes/Globo Filmes

Valor histórico e relevância cultural

A Revolta dos Malês permanece como um marco de resistência e organização política. Ao levar esse episódio às telas, Pitanga não apenas homenageia os que lutaram, mas também contribui para reposicionar a história sob uma perspectiva que valoriza o protagonismo negro.

Nesse sentido, Malês cumpre um papel fundamental na reconstrução da memória coletiva brasileira. Mesmo com falhas narrativas e escolhas estéticas questionáveis, o filme deve ser visto como ponto de partida, não como chegada.

Ele inaugura um caminho que o cinema nacional ainda precisa percorrer: dar visibilidade, com profundidade e qualidade, às múltiplas vozes que moldaram a nação.

Vale a pena assistir Malês?

Malês merece ser visto pela importância de seu tema e pela coragem de preencher uma lacuna histórica. Embora não atinja todo o potencial dramático e político da Revolta dos Malês, o filme marca um passo essencial no resgate de histórias silenciadas pela colonização.

É uma obra que vale mais por sua iniciativa e mensagem do que pelo resultado final na tela, mas que certamente permanecerá como referência no cinema histórico brasileiro.

Imagem de capa: Tambelini Filmes/Globo Filmes

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