Protagonista de diversos filmes, séries e documentários ao longo dos anos, Elvis Presley assume o incomum papel de coadjuvante em Priscilla, novo filme de Sofia Coppola baseado no livro Elvis e Eu. O longa retrata a conturbada relação do casal ao longo dos anos, passando pelo momento em que se conheceram até o seu divórcio.

Desconstrução do conto de fadas

Priscilla tinha 14 anos quando conheceu Elvis, que já tinha 24. Dessa forma, a primeira parte do filme retrata o verdadeiro conto de fadas vivido pela garota: conhecer o ídolo, conquistar seu coração, ser reconhecida como “madura para a sua idade” e sair da casa dos pais para viver a vida dos sonhos. E é a partir disso que o roteiro vai, pouco a pouco, desconstruindo o conto de fadas a partir das desilusões da protagonista.

Diferentemente do aclamado e controverso Elvis (2022), de Baz Luhrmann, que optou por omitir as facetas mais problemáticas do Rei do Rock, Priscilla expõe, através do olhar da protagonista ao longo dos anos, a quebra de expectativas e da imagem idealizada do galã pela mídia e por ela mesma. A atriz Cailee Spaeny faz um trabalho excepcional ao retratar o amadurecimento da jovem, que precisa deixar sua vida de lado para viver em função de um relacionamento onde suas necessidades afetivas sequer eram atendidas.

Priscilla
Imagem: Reprodução

A escalação de Jacob Elordi também não deixa a desejar. Desde o começo, fica claro que a representação que assistimos de Elvis na tela é completamente parcial a forma que Priscilla o enxergava. Assim, ao assistir Elvis como pessoa, e não como astro, percebemos um homem que se apoiava em seu inegável charme para mascarar incontáveis transtornos.

Caracterização e estética

Ao longo do filme, conseguimos notar a identidade de Priscilla se reduzindo a medida que Elvis a dizia o que vestir, como se maquiar, de que cor pintar o cabelo, como se portar… E nesse ponto, o departamento responsável pela caracterização da personagem também faz um excelente trabalho. No início, Priscilla é uma adolescente tentando se mostrar adulta através de roupas, cabelos e maquiagens extravagantes. No fim, ela não precisa de nada disso, pois se torna uma adulta, de fato.

Somada a caracterização impecável, a diferença de altura entre Elordi e Spaeny se apresenta como um recurso visual interessante e um constante lembrete da dinâmica de poder naquela relação. Não é necessário pontuar a diferença de dez anos entre o casal muitas vezes para que o telespectador entenda o desequilíbrio desconfortável de controle unilateral.

Priscilla e Elvis
Imagem: Reprodução

Visualmente, Coppola consegue mostrar em seus cenários o contraste entre o glamour e os problemas do relacionamento. Assim como os altos e baixos de um relacionamento abusivo, a fotografia oscila entre tons pastéis em momentos de fantasia e cenas pouco iluminadas nas brigas do casal, confinadas ao quarto onde ninguém mais podia ver.

Priscilla Presley como produtora executiva

Um fator que certamente influenciou no tom e abordagem da história foi o envolvimento da própria Priscilla Presley como produtora executiva no longa. Ao mesmo tempo em que seus relatos contribuem para tornar a representação dos acontecimentos e diálogos mais verídica, a sua participação pode explicar o filme não ter a mesma acidez que os outros trabalhos de Coppola, que é conhecida pelas críticas incisivas de suas obras.

A cena final ao som de “I Will Always Love You” não deixa negar. Apesar de todo o ciclo de abuso, manipulação, infidelidade e abandono, para Priscilla, Elvis foi o grande amor de sua vida. Dessa forma, a cena onde ela decide, finalmente, se divorciar, acaba passando um tom muito mais ameno que o esperado. Quando Elvis fala “talvez em outro lugar, em outro momento”, dá a entender que o motivo da separação foi a rotina e vida complicada do artista, e não o seu comportamento abusivo.

Priscilla e Elvis
Imagem: Reprodução

No fim, Priscilla é um filme esteticamente muito bonito, com ótimas atuações e um roteiro propositalmente desconfortável. A sensação que fica no final é agridoce. E esse é o grande porém de basear um filme como esse em uma obra auto-biográfica. Diante de cenas tão revoltantes, o espectador se vê questionando o que é real e o que pode ter sido distorcido por esse prisma enviesado e pela adoração da protagonista por Elvis, apesar de tudo que passou.

Priscilla já está disponível nos cinemas brasileiros.

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