Durante a Segunda Guerra Mundial, Fatih Akin constrói um drama silencioso sobre infância, sobrevivência e as marcas invisíveis deixadas pelo fim do conflito.
Em Uma Infância Alemã, o diretor Fatih Akin retrata a vida em um país em conflito através do olhar de uma criança. Baseado nas memórias de Hark Bohm, o filme acompanha a rotina de sobrevivência de um menino de 12 anos que descobre que o encerramento do conflito, da Segunda Guerra Mundial, não encerra necessariamente seus efeitos. Com distribuição da Imovision, a obra estreia no Brasil em 25 de junho.
Este é um drama que desloca o olhar do campo de batalha, caminhando para as marcas deixadas no cotidiano e na formação de quem cresceu à sombra da guerra. Dessa forma, somos guiados pela jornada de Nanning (Jasper Billerbeck) que vive com dois irmãos menores, sua mãe (Diane Kruger) e sua tia. Como muitas crianças naquele tempo, o garoto se divide entre a escola e o trabalho no campo para ajudar em casa.
Desde muito cedo ele assume o papel de provedor da casa, já que seu pai está diretamente inserido nos conflitos armados. Além da pressão de crescer rápido, ele luta para se ver inserido na sociedade da Ilha de Amrum, mas acaba isolado por sua ligação familiar com o Terceiro Reich.
Memórias de um campo de batalha silencioso
Assim como qualquer outra criança, Nanning não se importa tanto com os conflitos. Sua única preocupação é com o retorno de seu pai para casa e com a comida que precisa colocar na mesa. Quanto antes aquela situação acabar, melhor. Para uma criança da sua idade, entender as complexidades de uma guerra mundial é uma tarefa muito abstrata. Da mesma forma que assimilar a razão de seus vizinho não gostarem da sua família.
A história de sua família começou muitas décadas antes, mas o peso dela cai sobre as costas daquele que ainda nem tem maturidade o suficiente para absorver. Injustiça ou não com aquela criança, seu destino está selado. Com a queda do regime, o pouco prestígio ou respeito que as pessoas tinham com Nanning e sua mãe se esgota. A balança social se inverte e agora eles estão abaixo do fundo, se é que isso é possível.

Enquanto a ilha inteira comemora, a criança não entende como sua mãe fica tão triste. Tudo o que ele quer é vê-la feliz. Primeiro, o menino acha que a felicidade dela depende do retorno de seu pai. Depois, ele decide que tudo o que ela precisa é um pão branco com manteiga e mel, algo raro porque todos os mantimentos eram destinados ao campo de batalha. Mas nem isso era capaz de curar sua mãe, uma das poucas a sua volta que torcia pelo sucesso de Hitler.
Um criança não nasce cruel, mas o ambiente a torna
Adaptando um pouco a máxima de Thomas Hobbes, ao longo da narrativa somos apresentados ao processo de “adultização” do personagem. Além de provedor da casa, ele precisa ser um homem forte, responder a seus deveres cívicos e se provar aos demais cidadãos. Alguns exemplos práticos acontecem quando Nanning é obrigado a caçar para comer, aquela mesma criança que se apavorou ao ver um cadáver na praia.
Para se impor digno de respeito a criança tenta de tudo. E esse processo é muito doloroso, criança nenhuma merecia passar por algo parecido. Acredito que essa indignação seja o objetivo de Fatih Akin, ainda mais quando pensamos no mundo contemporâneo. É extremamente repugnante e criminoso que ainda existam crianças vivendo nas mesmas condições que Nanning e Bohm estiveram.
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Vale a pena assistir ‘Uma Infância Alemã’?
Se você gosta de filme com essa temática histórica, vale a pena. ‘Uma Infância Alemã’ provoca uma profunda reflexão sobre os caminhos que a humanidade traça, principalmente agora num período cheio de conflitos bélicos. Com o ponto de vista de uma criança, é difícil de o mais bruto dos adultos não se compadecer.
Viver em um país em conflito é cruel e desumano. É isso que esse filme esfrega na cara do público. Ademais, é impressionante como o pequeno Jasper Billerbeck engole as cenas com uma delicadeza gigantesca. O ator mirim traz todas as sensações necessárias para os diálogos, apesar de acompanhado por um elenco especial com atores como Diane Kruger, ele carrega o filme com maestria.
Esse filme gabarita muitos elementos técnicos, além do elenco, a direção e a fotografia são singulares. Mesmo que seja um longa com nomes não tão familiares para o público brasileiro, assisti-lo não fará você se arrepender. Uma Infância Alemã estreia nos cinemas em 25 de junho de 2026.
Imagem de capa: Divulgação / Imovision
Uma Infância Alemã
Drama, Alemanha, 93 min, 2025
Direção: Fatih Akin
Roteiro: Fatih Akin e Hark Bohm
Elenco: Laura Tonke, Jasper Billerbeck, Lisa Hagmeister, Kian Köppke, Lars Jessen, Detlev Buck, Jan Georg Schütte, Matthias Schweighöfer e Diane Kruger
Produção: Fatih Akin e Herman Weigel
Direção de Fotografia: Karl Walter Lindenlaub
Direção de Arte: Seth Turner
Montagem: Andrew Bird
Música: Hainbach
Som: Joern Martens
Classificação Indicativa: 12 anos

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