A escritora Paula Rodrigues, autora da saga de romances O Império Fürgson, contou em entrevista exclusiva ao GeekPop News, como acontece a sua  produção literária e os desafios enfrentados no mercado editorial independente. A autora compartilhou seu universo ficcional e analisa o cenário atual para os escritores que buscam visibilidade e conquistar novos leitores. A autora sempre divulga e fala sobre seu trabalho em seu perfil oficial no Instagram. Confira a entrevista com Paula Rodrigues.

Para começar, queremos conhecer você melhor! Você pode se apresentar para os nossos leitores? 

Claro! Me chamo Paula Rodrigues, além de escritora, sou atriz, cantora e publicitária. Sou mãe de uma garotinha de 3 anos, sou apaixonada pelo mundo geek e pop, sou crítica de cinema, apaixonada por RPG e principalmente pela Era Vitoriana e vampiros. É o meu tipo de leitura favorito e me trouxe grandes inspirações. 

Recentemente, você esteve na FliMinas. A feira foi não apenas um momento de exposição, mas de interação com os leitores. Como foi essa experiência? 

Foi a minha segunda participação em uma feira literária como autora independente. Na minha primeira vez, levei apenas meus livros e marcadores de página, mas agora, para o FliMinas, eu consegui me preparar melhor, trazendo toda uma experiência imersiva ao universo do meu livro, levando marcadores de página diferenciados. 

Foi um momento de compartilhar e conhecer outras histórias, não apenas nos livros, mas também de outros autores independentes. O que mais gosto nessa troca é o quanto conseguimos agregar à carreira do outro, dando dicas de gráficas, editoras, do que levar para a mesa nas próximas edições, como atrair a atenção de mais pessoas para conhecer a sua obra… tudo isso é único e o presencial é muito mais gratificante e gera mais conexão e empatia do que o online, que muitas vezes pode virar uma bagunça ou ser mal interpretado. 

Algo que eu gostaria de pontuar é o quanto o Plin foi ótimo para nós, eles nos ajudaram e nos deram um suporte sensacional, algo que não havia sentido antes. Nos deu um espaço, um pertencimento, foi muito bom mesmo ter alguém para cuidar dos independentes e nos dar voz, com tanto carinho, cuidado e dedicação. 

Uma sugestão para as próximas edições seria otimizar a circulação do público, já que o posicionamento do nosso estande teve um fluxo menor de pessoas, o que acabou sendo um desafio para a nossa visibilidade. Mas o meu lado publicitário não desiste nunca e consegui chamar a atenção das pessoas. Muitos levaram “O Império Fürgson” para casa, o que me deixou extremamente feliz. Por isso, esse ponto foi apenas uma observação sobre o que pode ser melhorado numa próxima edição. 

Vamos falar sobre a saga “O Império Fürgson”. De onde veio a inspiração para criar esse universo? De onde veio a ideia do nome, que é muito marcante? 

Minha grande inspiração foi “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen. Ela que trouxe a minha paixão pela Era Vitoriana e logo em seguida não posso esquecer de “Anna Karenina” de Leon Tolstói, que me inspirou na questão do drama social. A saga “O Império Fürgson” nasceu da ideia de ter uma mulher no poder na Era Vitoriana, algo inimaginável para a época, mas ainda dentro da realidade do período, trazendo grandes conflitos para a protagonista. 

Além disso, eu queria sair do básico de sempre ser um romance vitoriano, quis trazer os problemas sociais que as pessoas que pensavam fora do óbvio poderiam enfrentar, como a mulher no poder, o dinheiro conseguir mudar as regras, as ambições, as pessoas com sonhos reprimidos, as máscaras sociais, a homossexualidade, entre outros… 

Escolhi esse título por essa razão, um nome forte, Fürgson transmite poder e era isso que eu queria que o Sr. Fürgson transmitisse. Ele tem um ar prepotente, dominador e misterioso, o que dá poder a ele é o dinheiro, o status, o sobrenome e não a força física. 

A manipulação social se torna muito mais forte do que a física e é por isso que Claire, a protagonista, ganha tanto poder. Ela mostra que a sabedoria, a estratégia, está acima de qualquer força bruta. E tudo isso por causa do novo sobrenome que ela ganha ao se casar com o Sr. Fürgson. 

E em quem ou no que você se inspirou para criar sua protagonista? 

Como havia mencionado anteriormente, sou apaixonada pela Era Vitoriana, gosto do figurino, das casas, da simplicidade da vida sem eletrônicos para se comunicar. Um período em que declarar o amor vai muito além de um emoji, é uma emoção, é um gesto, o toque das mãos arrepia, um olhar intenso… essa simplicidade que falta nos tempos modernos, isso me encanta. 

Esse período é romântico, dramático e repleto de desejo, ele é intenso e genuíno. Claire, a protagonista, não foi pensada em alguém específico, mas pela personalidade dela, posso dizer que ela tem uma junção de Elizabeth (Orgulho e Preconceito) e Anna Karenina e tem uma pitada de mim, acho que todo autor deixa um pouco de si em seus protagonistas. 

Mas eu vejo a Claire como uma garota que ganhou sua própria vida, ela é intensa, ela ama com lealdade e fervor, ela se entrega de uma forma emocional e depois racional, ela entende o que é amar, ela entende que o amor não é como os livros que ela lê, ele vai além, se mostra no cuidado, no interesse em entender o que o outro gosta, na amizade. 

Ela é ingênua, mas ao mesmo tempo forte, ela precisa amadurecer, mas ainda é uma garota apaixonada pelas belezas do mundo, apaixonada por tudo o que o período vitoriano tem para oferecer. Ela é questionadora e ela muda, ela cresce, ela entende o amor, entende como o mundo funciona, ela é forjada e se reconhece como uma mulher poderosa. 

Você já escreveu ou planeja escrever outros gêneros? 

Eu tenho um outro livro, de drama/terror psicológico (mais drama do que terror) que escrevi antes do O Império Fürgson, mas decidi mudá-lo, não queria um infanto-juvenil comum para ele, queria algo mais intenso, um pouco mais bizarro. 

É totalmente fora da minha zona de conforto, mas não vejo esse livro como algo inocente, eu quero que ele choque os leitores, quero que seja intenso e, de certa forma, perturbador… mas enquanto eu estiver com O Império Fürgson na minha mente, está difícil pausar e dar lugar para Victoria (a protagonista do meu outro livro). 

Mas fora isso, já escrevi Fan Fics de X-Men (7 livros), Piratas do Caribe (4 livros) e Quarteto Fantástico (2 livros). As pessoas acompanhavam minhas obras semanalmente e isso me motivou a escrever e lançar os meus livros autorais. Minhas FanFics você encontra no link na minha bio do Instagram. 

Atualmente, vivemos um crescimento de publicações independentes, impulsionado por plataformas digitais e redes sociais. Como você enxerga o momento atual da literatura independente no Brasil?

Gosto muito da forma como os autores independentes têm sido apoiados, tanto pelas plataformas quanto pelo público. Achei uma ótima oportunidade para se contar histórias. Muitas pessoas têm muito a nos acrescentar, a contar e têm chances de se tornar o próximo best-seller, porém, sinto que o Brasil ainda precisa avançar muito com o cuidado com a leitura. 

Tenho observado vários incentivos, isso é maravilhoso, porém, falta a visibilidade, falta esse cuidado com as obras nacionais. Acho que quando o Brasil entender que obras nacionais podem ser lucrativas para eles é que darão o devido valor, existem muitas obras boas que ainda não foram descobertas, mas apenas plataformas internacionais que geram a possibilidade do livro chegar a outros países. 

Fico feliz com a Bienal, o FliMinas, mas precisam realmente abrir espaço para os autores independentes, o espaço ainda é pequeno, ainda gera medo para investir um cuidado especial, mas sinto que o Plin está aí para nos ajudar com essa conquista, com essa visibilidade do independente. 

Há quem diga que o autor independente hoje tem muito mais liberdade. Você sente que o espaço para novos autores cresceu ou ficou mais concorrido? 

Sinto que ele está lotado sim, mas a desigualdade está na parte financeira, pois custear um livro e bater promoções malucas de livrarias que vendem livros a dez reais é surreal para nós. Porém, acho que os autores precisam se acalmar e entender o mercado. Por exemplo, o meu nicho. A Era Vitoriana nem estava em alta desde que Bridgerton foi lançado na Netflix. Depois do fenômeno Bridgerton, o meu nicho, de romance vitoriano, ficou mais relevante, mas ainda assim, poucas pessoas do independente escrevem sobre ele. 

O que eu vejo mais em alta são fantasias, conteúdos hot (aqueles para maiores de 18), escritas estilo novelas mexicanas, tramas de romance bem básicas e clichês. Não que isso seja ruim, muito pelo contrário, eles são os de maior venda na Amazon, mas acaba que se torna um mercado saturado e os leitores consomem uma escrita, muitas vezes, mal revisada, mal elaborada e acabam classificando o independente dessa forma, como algo feito de qualquer jeito e mal editado. 

Nem todos são assim e eu acho que essa oportunidade de vender o seu livro físico, da pessoa pegar e ver que ele se parece com um livro de editora internacional, isso traz uma relevância para o seu livro e te destaca no mercado. A concorrência sempre vai existir, em qualquer nicho, você precisa criar o seu diferencial, porque se você for na onda do que todo mundo vai, aí você realmente não verá vantagem em ser apenas “mais um” escritor no mundo independente. 

Alguma dica para os autores independentes?

Uma dica que eu gosto de dar para meus colegas é: escreva algo pensando na pessoa que vai consumir. Se for um livro muito grande e você for independente, é difícil uma pessoa arriscar levar um livro imenso de um autor desconhecido. E se for ruim? E se eu não gostar da história? 

Por isso transformei O Império Fürgson em uma saga de 4 livros, um livro só ninguém ia arriscar levar para casa, mas levar o primeiro e conhecer a história, sempre traz as pessoas de volta me pedindo o segundo livro e já tem pessoas enlouquecidas querendo o terceiro. Não é fácil fazer uma saga, não é fácil manter seu leitor interessado até o quarto livro, mas é uma forma de sua história ser conhecida, vista e ouvida por mais pessoas. 

 Qual foi o maior desafio psicológico ou prático que você precisou superar até aqui? 

O primeiro desafio foi o medo. Medo de ninguém gostar da minha história, medo de ninguém gostar do que acontece em Valar, medo de Claire se tornar uma protagonista que ninguém quer saber a história dela, medo dos livros encalharem. 

Esse foi o maior desafio psicológico que tive que enfrentar, entender que os números são pequenos, mas com esforço, dedicação e principalmente tempo, eles crescem. O passo é de formiga, mas ele vai ganhando forma e sempre me emociono ao olhar para trás e poder celebrar meus 130 exemplares físicos vendidos. 

Olhando assim, não parece um número grande, mas quando você para e pensa que eu vendo apenas versões físicas até o momento e que eu sou uma autora que está sendo conhecida agora no universo literário, 130 se torna um número gigante, se torna uma conquista enorme e que me alegra muito. 

Gosto de contar essa história porque, para mim, ela é inspiradora. Quem me acompanha sabe quantos anos sonhei, planejei e criei O Império Fürgson. Tive uma leitora beta e ela ficava me cobrando a continuação da história, e ela só tinha lido até o capítulo 5 do primeiro livro. 

Tudo começa com uma pessoa, uma fagulha e, com essa fagulha, vendi 30 exemplares logo no primeiro mês de vendas. Esse foi o outro desafio, continuar mantendo a minha história interessante, focar, fazer ela crescer, dar vida e destino aos meus personagens de uma forma que a história não se perca. 

E agora o meu maior desafio é finalizar a saga, ela precisa terminar no quarto livro, mas ainda estou batalhando para saber como cada um irá finalizar o seu destino. 

Quais são os seus próximos projetos literários? O que os seus leitores podem esperar? 

Meu livro mais recente é “Escolhas”, que é o terceiro livro da Saga O Império Fürgson. Esse é meu livro favorito da saga porque carrega a essência desse universo todo e aborda todas as temáticas que mencionei anteriormente com maior profundidade. É um livro intenso, cheio de paixão, desejo, amadurecimento e descoberta de si. 

Pretendo também criar novas coisas no Baile dos 100 Leitores, que foi um canal que criei no WhatsApp e no Instagram chamado Leitores Vorazes (dá para encontrar todos os links no meu perfil do Instagram). Terão muitas novidades no universo de Valar, além de contos de RPG que estou criando, que é bem diferente. 

Um deles foi um Dark Fantasy Pirata (que acho que já dá para sentir um pouco do que esperar para o outro livro de drama psicológico que estou escrevendo) e o outro está em produção, mas será algo mais voltado para Vampiros na era Medieval. 

Acho que quero deixar aqui com vocês duas informações para os leitores sobre o que eles podem esperar dos próximos lançamentos. O nome do livro de drama psicológico, ele se chama “O Corpo de Victoria” e conta a história de uma garota que viaja por mundos alternativos em busca das partes de um corpo de uma pessoa. Se ela encontrar todas as partes, ela conseguirá salvar essa pessoa no mundo real. 

E a outra novidade é o quarto livro da saga, ele irá abordar uma temática iniciada em “Escolhas”, a homossexualidade  na era vitoriana. Um casal que confesso que não estava nos meus planos iniciais. Mas esse personagem ficou tão radiante depois dessa descoberta na vida dele que achei sensato abordar essa temática extremamente sensível naquela época. 

Qual é o conselho que você daria para os escritores que estão começando agora? 

Não desistam! Os números podem ser pequenos, mas se desistir agora, eles nunca vão crescer, a descoberta não chega e sua história não é ouvida. Não tenha pressa, não se cobre ter várias publicações, faça no seu tempo, faça com cuidado, com carinho, pesquise, crie algo que será memorável, que as pessoas vão pedir por mais. 

Nada na pressa fica bom. Até grandes escritores renomados, na pressa de finalizar suas obras, acabam estragando uma ideia inicial que estava tão bem elaborada e bem amarradinha. Saiba que seu tempo vai chegar e vai chegar com tudo. 

Teste sua escrita com fanfics, pesquise bem, sinta-se a vontade para escrever. Escreva sem medo. Não precisa ficar bonito, meu livro passa por 5 revisões antes de ser lançado e todas são essenciais para que a história tenha coerência e seja fluida, intensa e apaixonante, transmitindo tudo o que eu quero que o leitor sinta. 

Tenha revisor, cuide da sua obra, invista no seu bebê (como chamo meus livros). Proteja seu conteúdo, tenha ISBN, ficha catalográfica, tudo isso atribui credibilidade. Parece um longo caminho, mas o processo é o que torna tudo ainda melhor. Você irá valorizar a sua obra de tal forma que os leitores também vão, pode ter certeza disso. 

Esse espaço é seu! Deixe uma mensagem para os nossos leitores! 

Primeiro, gostaria de agradecer por essa oportunidade, fico muito feliz pelo interesse em minhas obras e na minha trajetória. Espero que possa inspirar outros escritores que têm esse sonho e que eu também tinha e ainda tenho. 

Testei por tanto tempo, tantas vezes e hoje, estou no caminho para alcançar o meu grande sonho e todos vocês fazem parte desse caminho. Continuem sonhando e deem os passos para conquistá-los, mesmo que sejam passos curtos, mas nunca parem de caminhar.

Imagem de capa: Divulgação

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