Poucos filmes conseguem despertar aquela sensação gostosa de assistir a um blockbuster de sábado à tarde sem parecer apenas uma coleção de referências. O Fim da Rua (The End of Oak Street) encontra esse equilíbrio. É um filme que olha diretamente para clássicos como Jurassic Park, Os Goonies e Encontros Imediatos do Terceiro Grau, mas faz isso sem tentar copiá-los cena por cena.

Existe algo imediatamente familiar em “O Fim da Rua”. Não porque o filme seja simplesmente uma cópia de Jurassic Park, mas porque ele recupera uma maneira de fazer cinema que parecia ter desaparecido: pegar uma ideia completamente absurda, colocar uma família comum no centro dela e transformar tudo em uma grande aventura de ficção científica, com humor, perigo e um certo encantamento infantil.

Dirigido por David Robert Mitchell, responsável por Corrente do Mal e Under the Silver Lake, e produzido por J.J. Abrams, o longa parece ter sido cuidadosamente desenvolvido para lembrar os grandes blockbusters dos anos 1980 e 1990. E, felizmente, essa nostalgia não funciona apenas como uma coleção de referências. O filme possui personalidade própria e, principalmente, sabe se divertir com a própria premissa.

Uma família comum no meio de uma situação completamente absurda

Cena do trailer de No Fim da Rua mostra
Cena do trailer de No Fim da Rua mostra personagens reagindo ao desconhecido dentro de um carro

Ambientado nos anos 1980, “O Fim da Rua” acompanha Denise e Greg Platt, interpretados por Anne Hathaway e Ewan McGregor, um casal que atravessa uma crise no relacionamento enquanto tenta cuidar dos dois filhos adolescentes. A rotina familiar já não é das mais simples, mas tudo muda quando um misterioso evento cósmico atinge Oak Street e transporta toda a vizinhança para um lugar completamente desconhecido.

O que antes era um típico bairro suburbano americano se transforma em um ambiente irreconhecível, onde a família precisa descobrir como sobreviver e, principalmente, como permanecer unida diante de uma situação que desafia qualquer explicação. Logo fica claro que aquele novo mundo não é apenas estranho, ele é habitado por animais pré-históricos, incluindo dinossauros.

E é justamente aqui que uma comparação inevitável aparece para quem cresceu jogando videogame, a premissa de “O Fim da Rua” lembra bastante a de Dino Crisis. Não porque o filme seja uma adaptação ou porque exista alguma relação oficial entre as obras, mas pela ideia central de colocar personagens comuns em um ambiente isolado e hostil, cercados por dinossauros e obrigados a descobrir como sobreviver enquanto tentam entender o que aconteceu.

A diferença é que, enquanto Dino Crisis mergulha no terror de sobrevivência e transforma os dinossauros em uma ameaça constante, “O Fim da Rua” prefere seguir pelo caminho da aventura familiar, misturando ficção científica, humor, suspense e espetáculo.

Em vez de perder tempo tentando transformar tudo em uma ficção científica excessivamente complicada, David Robert Mitchell coloca uma família relativamente comum no centro de um acontecimento extraordinário e deixa que o choque entre essas duas realidades conduza a história.

Anne Hathaway mostra por que continua sendo uma grande estrela

Anne Hathaway traz uma ótima atuação. Sua Denise poderia facilmente ser apenas a típica mãe de filme de aventura que precisa proteger os filhos enquanto o mundo desmorona ao seu redor. Hathaway, porém, encontra nuances suficientes para transformar a personagem em alguém mais interessante.

Ela está excelente. A atriz consegue equilibrar drama, humor e ação sem fazer nenhuma dessas características parecer deslocada. Existe uma preocupação genuína com a família, mas também há frustração, insegurança e conflitos pessoais que tornam Denise mais humana.

E isso é importante porque, por mais que o filme tenha dinossauros e eventos cósmicos, sua história funciona principalmente porque existe uma família tentando sobreviver. Hathaway consegue vender essa dimensão emocional.

Ela também possui um excelente timing cômico e uma presença de tela que combina perfeitamente com esse tipo de blockbuster. É fácil imaginar sua personagem pertencendo a uma produção dos anos 90, justamente porque a atriz entende que esse tipo de filme não precisa ter vergonha de ser divertido.

Ewan McGregor também está muito bem como Greg. A dinâmica entre os dois funciona e ajuda a transformar a crise conjugal em algo mais interessante do que simplesmente um conflito colocado no roteiro para justificar determinadas decisões.

Dinossauros com mais ciência e menos “monstro genérico”

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Crédito: Divulgação / Warner Bros. Pictures

Um dos aspectos que mais gostei em “O Fim da Rua” é que o filme não parece preso àquela visão antiga dos dinossauros como enormes répteis escamosos.

E isso merece elogio. Durante décadas, o cinema criou uma imagem muito específica dos dinossauros. Hoje, porém, sabemos que diversas espécies, especialmente entre os terópodes, possuíam penas ou estruturas semelhantes a plumagem. As pesquisas paleontológicas das últimas décadas mudaram bastante nossa compreensão sobre a aparência desses animais.

Os dinossauros apresentados em “O Fim da Rua” possuem características que dialogam muito mais com o conhecimento científico contemporâneo. Isso não significa que a produção abandone a fantasia ou transforme seus animais em uma aula de paleontologia. Muito pelo contrário, eles continuam sendo assustadores, enormes e cinematográficos.

A diferença é que o design das criaturas tenta respeitar aquilo que hoje sabemos sobre esses animais. E isso torna tudo ainda mais interessante.

Porque existe uma ideia equivocada de que colocar penas em um dinossauro necessariamente faz com que ele pareça menos ameaçador. O filme demonstra exatamente o contrário. Um animal pré-histórico emplumado pode ser tão estranho e assustador do que a versão tradicionalizada pelo cinema.

É uma escolha que também ajuda a diferenciar “O Fim da Rua” de outras produções recentes de dinossauros. No filme os animais não são apenas atrações de parque temático. Eles fazem parte daquele ambiente e contribuem para a sensação de que aquela família realmente foi parar em um mundo que não deveria existir para eles.

Um filme que parece ter escapado dos anos 90

O maior elogio que eu possa fazer a “O Fim da Rua” é que ele parece um filme que poderia ter sido lançado nos anos 90.

Existe uma energia muito particular em produções daquela época. Filmes como Jurassic Park, Os Goonies, Gremlins e até algumas aventuras de ficção científica de Steven Spielberg conseguiam combinar espetáculo com personagens que realmente pareciam estar vivendo uma aventura. “O Fim da Rua” recupera parte desse espírito.

A trilha de Michael Giacchino também contribui bastante para essa sensação e a direção de Mitchell encontra espaço para humor, tensão e momentos de encantamento, mantendo o filme em um ritmo bastante acessível.

o filme é bastante divertido, e não estou falando de um “divertido apesar dos problemas”. Existe uma intenção clara de proporcionar uma aventura leve, estranha e nostálgica e, nesse objetivo, o filme acerta bastante.

Crédito: Divulgação / Warner Bros. Pictures

Vale a pena assistir “O Fim da Rua”?

Sim. “O Fim da Rua” não pretende revolucionar o cinema de dinossauros. Também não é uma nova versão de Jurassic Park, apesar das comparações serem inevitáveis. O que ele faz é recuperar uma fórmula que Hollywood parecia ter esquecido: uma história original, personagens carismáticos, uma ideia absurda e muita vontade de entreter.

O cuidado com os dinossauros também merece destaque. A produção entende que atualizar a aparência desses animais não significa diminuir o espetáculo. Pelo contrário, torna o mundo pré-histórico ainda mais interessante.

É claro que existem problemas. Algumas explicações poderiam ser mais desenvolvidas, certas decisões narrativas parecem convenientes demais e o roteiro não consegue aproveitar todas as possibilidades de sua premissa.

Mas, eu me diverti bastante. “O Fim da Rua” é aventura, ficção científica, dinossauros, família, caos suburbano e uma dose generosa de nostalgia. Parece um blockbuster dos anos 90 que ficou perdido no tempo, o que, considerando a história, é praticamente a melhor descrição possível.

“O Fim da Rua” está em cartaz nos cinemas.

Crédito da capa: Divulgação / Warner Bros. Pictures

O Fim da Rua (The End of Oak Street) (Estados Unidos, 2026, 1h 40min) – Aventura/Ação/Ficção Científica

Direção: David Robert Mitchell
Roteiro: David Robert Mitchell
Elenco Principal: Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella, Christian Convery
Produtores: J.J. Abrams, Hannah Minghella, Jon Cohen, Matt Jackson, David Robert Mitchell e Tommy Harper
Fotografia: Michael Gioulakis
Música: Michael Giacchino
Classificação: 14 anos
Distribuição: Warner Bros. Pictures

O Fim da rua poster mini
Crédito: Divulgação / Warner Bros. Pictures

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