Marcelo Galvão retoma os personagens de Colegas em uma nova aventura marcada por amizade, humor e perigo
Em Os Colegas e o Herdeiro, o diretor Marcelo Galvão retoma os personagens de Colegas (2022) em uma aventura que mistura amizade, humor e perigo. Produzido pela Gatacine em coprodução com a Globo Filmes, o longa acompanha um grupo de amigos que foge do instituto para reencontrar Stallone, que vive no Uruguai em meio a uma disputa pela herança de um hotel. Durante a viagem clandestina a bordo de um avião de carga rumo a Punta del Este, o grupo cruza o caminho de contrabandistas de pedras preciosas e transforma uma simples visita em uma perigosa jornada. O filme estreia nos cinemas em 13 de agosto.
A partir dessa premissa, Marcelo Galvão conduz os personagens por situações que exploram temas como amizade, autoconfiança, amadurecimento e inclusão. A proposta funciona como uma aventura familiar leve e acessível, mas também abre espaço para questionamentos sobre a forma como o roteiro desenvolve seus personagens e conduz a narrativa. Entre os acertos e as limitações da produção, Os Colegas e o Herdeiro encontra sua força justamente na tentativa de colocar a representatividade no centro de uma história de aventura.
Chegando com pé na porta
O filme já chega dizendo a que veio. A inclusão é o seu estandarte, que começa a ser erguido já nos primeiros segundos. A introdução fica por conta da voz de Marçal Souza, produtor executivo do filme, que faleceu antes da estreia. Além disso, sua deficiência visual o impedia de acompanhar a obra da maneira convencional.
A partir daí, somos capturados pela condução sensível e atenta que Marcelo Galvão imprime à narrativa. O diretor coloca pessoas com deficiência no centro da aventura sem transformar suas características em um simples recurso narrativo. Ainda assim, a produção apresenta limitações que interferem no resultado final. Em alguns momentos, principalmente nas transições entre as aventuras do grupo, o filme perde força e deixa evidente a falta de um roteiro mais bem amarrado.
Apesar disso, ‘Os Colegas e o Herdeiro’ consegue construir uma história sobre amizade e autoconfiança. Ao longo da viagem, cada personagem encara uma jornada pessoal de amadurecimento. O grupo precisa lidar com os perigos da viagem, mas também com seus próprios medos e inseguranças.

Porém, peca abordagem rasa
Entretanto, apesar da bandeira inclusiva e da classificação voltada para crianças, senti falta de uma abordagem mais profunda. O filme apresenta personagens com diferentes deficiências, mas nem sempre consegue desenvolver suas individualidades para além delas. Um exemplo disso é Magrelo, que tem o diagnóstico de autismo como uma característica bastante presente em sua construção. Mesmo fazendo parte do grupo, ele parece mais isolado dos demais.
Essa escolha chama atenção porque a proposta do filme parece justamente mostrar que a deficiência não limita a capacidade de viver aventuras, criar vínculos e tomar decisões. Porém, quando o roteiro não desenvolve determinados personagens com a mesma atenção, ele acaba criando uma contradição. A inclusão está presente, mas nem todos os personagens recebem o mesmo espaço para mostrar quem são.
Por outro lado, o humor funciona melhor quando nasce das situações vividas pelo grupo. O filme evita, na maior parte do tempo, transformar as deficiências dos personagens em motivo de piada. Assim, a aventura consegue manter um tom leve sem abandonar completamente a proposta de representatividade.
Quando o roteiro perde o ritmo

Por não ter assistido a ‘Colegas (2022)’, não posso comparar diretamente a evolução dos personagens entre os dois filmes. Ainda assim, ‘Os Colegas e o Herdeiro’ apresenta lacunas que afetam seu desenvolvimento mesmo quando analisado de forma independente.
O roteiro estabelece rapidamente o objetivo da viagem, mas demora para desenvolver os conflitos que surgem pelo caminho. A aventura ganha novos obstáculos, porém nem todos recebem o tempo necessário para criar tensão. Como consequência, algumas situações parecem surgir apenas para movimentar a história até o próximo acontecimento.
Esse problema também interfere no ritmo. O filme apresenta uma premissa que poderia render uma aventura bastante dinâmica, mas algumas passagens se alongam mais do que deveriam. Em determinados momentos, a narrativa parece esperar pelo próximo grande acontecimento em vez de construir gradualmente o caminho até ele.
Ainda assim, o elenco consegue manter a energia do grupo. A química entre os personagens sustenta boa parte da experiência e ajuda a preservar o tom leve da produção. É justamente essa relação de amizade que faz o filme funcionar melhor quando deixa a aventura em segundo plano e se concentra nas relações entre os personagens.
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Vale a pena assistir ‘Os Colegas e o Herdeiro’?
Se você procura um filme leve para assistir com toda a família, vale a pena. ‘Os Colegas e o Herdeiro’ consegue abrir espaço para conversas importantes sobre a inclusão. Para os pais, a sessão também pode ser uma boa oportunidade para abordar assuntos como síndrome de Down e transtorno do espectro autista (TEA) com os pequenos.
No entanto, o filme poderia ir além. A representatividade está no centro da produção, mas o roteiro nem sempre acompanha essa ambição. Faltam personagens mais desenvolvidos, conflitos melhor construídos e um ritmo mais consistente.
Mesmo com essas limitações, Marcelo Galvão entrega uma aventura familiar que valoriza a amizade e coloca pessoas com deficiência no centro da narrativa. Os Colegas e o Herdeiro talvez funcione melhor como uma porta de entrada para discutir inclusão do que como uma história especialmente complexa. Ainda assim, sua proposta tem valor e encontra força justamente ao mostrar que esses personagens também podem ocupar o centro de uma grande aventura.
Imagem de capa: Divulgação/ Gatacine e Globo Filmes
Os Colegas e o Herdeiro
Ficção, Brasil, 2026
Direção: Marcelo Galvão
Roteiro: Marcelo Galvão
Elenco: Amélia Bittencourt (in memoriam), Ariel Goldenberg, Breno Viola, Cristiano Lourenço, Deto Montenegro, Gabriel D. Lazzari, Henrique Fernandes, João Vitor de Paiva Bittencourt, Luiza Godoi, Marcelo Naz, Marcos Contreras, Phil Miler, Rafaela Fontanetti, Rita Pokk
Participação Especial: Fafy Siqueira
Produção: Rafael Yoshida e Marcelo Galvão
Produtora Associada: Aleksandra Zakartchouk
Produção Executiva de Desenvolvimento: Cláudia da Natividade e Mario Peixoto
Direção de Produção: Taty Behar
Produção de Elenco: Neusa Romano e Andreia Cosenza
Figurino: Carol Scortegagna
Maquiagem: Val Oliveira
Direção de Arte: Zenor Ribas
Direção de Fotografia: Rodrigo Tavares, AIP e Eduardo Makino
Som Direto: Gabriela Bervian
Desenho de Som e Mixagem: Pedro Lima
Música Original: Ed Côrtes
Montagem: Marcelo Galvão
Produção Executiva: Marçal Souza e Rafael Yoshida
Distribuidora: H2O Films
Produção: Gatacine em coprodução com Globo Filmes

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