Existe um tipo muito específico de terror que não precisa de criatura, trilha estrondosa ou sequer uma história tradicional para funcionar. Ele se infiltra devagar, quase educadamente, até que você percebe que já está desconfortável, e não sabe exatamente por quê. “The Exit 8” pertence exatamente a essa categoria. E faz isso de forma a ser irritante.

A premissa é tão simples que, em mãos erradas, viraria um experimento esquecível. Você está preso em um corredor de metrô aparentemente infinito. Não há contexto, não há explicação, não há sequer um personagem definido. Apenas uma regra clara, quase burocrática: se notar uma anomalia, volte; se tudo parecer normal, siga em frente. O objetivo? Encontrar a saída número oito. Só que esse “só isso” é justamente onde o jogo começa a te desmontar.

Desenvolvido pelo estúdio japonês independente KOTAKE CREATE, praticamente um projeto autoral, e publicado pela PLAYISM, “The Exit 8” foi lançado originalmente em 29 de novembro de 2023 para PC (via Steam), marcando sua estreia como um fenômeno indie inesperado. Com o sucesso viral, o jogo rapidamente se expandiu para outras plataformas: chegou ao Nintendo Switch em 2024, depois ao PlayStation 4 e PlayStation 5, e posteriormente ao Xbox Series e até dispositivos móveis, com versões para iOS e Android lançadas em 2025. Hoje, ele está disponível praticamente em tudo, de consoles a celular, consolidando-se como um daqueles raros indies que começam pequenos, mas ganham o mundo na base de ideia forte e execução afiada.

O gameplay da dúvida

The Exit 8 game foto 1
Crédito: Divulgação / KOTAKE CREATE

O grande trunfo de “The Exit 8” está na forma como ele manipula a percepção. O corredor é sempre o mesmo, iluminação fria, paredes limpas, placas repetidas, uma estética quase estéril. Só que, a cada passagem, algo pode estar diferente. Às vezes, é algo gritante. Outras, uma mudança quase imperceptível. Um detalhe mínimo. Um erro que talvez nem seja erro.

E é nesse intervalo entre o que você acha que viu e o que realmente viu que o jogo constrói sua tensão. Sem HUD poluído, sem instruções constantes, sem trilha guiando emoção. O silêncio aqui não é ausência ele é uma ferramenta. Ele amplifica cada passo, cada dúvida, cada hesitação. Você começa confiante. Depois atento. Depois paranoico. E, eventualmente… exausto de desconfiar até da própria sombra.

No PlayStation 5, o game ganha uma camada extra de imersão que eleva ainda mais a proposta minimalista do jogo. A ausência de carregamentos e a fluidez constante fazem com que os loops aconteçam de forma quase hipnótica, sem qualquer quebra que “lembre” o jogador de que aquilo é só um jogo. Mas o destaque mesmo fica por conta do DualSense: os feedbacks sutis de vibração acompanham seus passos e pequenas interações, criando uma sensação física desconfortável que combina perfeitamente com a atmosfera. Não é algo espalhafatoso, pelo contrário, é discreto e preciso, como tudo em “The Exit 8”. O resultado é uma experiência ainda mais sensorial, onde até segurar o controle parece fazer parte da tensão psicológica, como se o jogo estivesse, aos poucos, saindo da tela e invadindo o seu espaço.

O corredor como entidade e um terror que sussurra

The Exit 8 game foto 2
Crédito: Divulgação / KOTAKE CREATE

Poucos jogos conseguem transformar cenário em personagem com tanta eficiência. Aqui, o corredor não é só pano de fundo, ele é a experiência. O conceito de “espaço liminar” é explorado com uma precisão quase cirúrgica. Tudo parece normal demais, organizado demais, limpo demais… e é justamente isso que incomoda. O ambiente não te agride, ele te observa. Passivo, silencioso, esperando você errar.E quando algo muda, não é só uma alteração visual. É uma quebra na sua confiança.

“The Exit 8” não quer te assustar com jumpscares baratos. Ele quer algo pior: te cansar psicologicamente. A tensão nasce da repetição e da expectativa. Do medo de deixar passar algo. Do medo de ver algo que não existe. E, principalmente, da dúvida constante.

Quando o jogo exagera em algumas anomalias, o impacto não vem do absurdo em si, mas do contraste com o restante da experiência, que é contida, silenciosa, quase clínica. É como se o jogo soubesse exatamente até onde pode ir e brincasse com esse limite.

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Jogo curto, mas cirúrgico

The Exit 8 game foto 3
Crédito: Divulgação / KOTAKE CREATE

Essa abordagem minimalista é brilhante, mas não é universal. Quem busca narrativa, progressão ou variedade pode se frustrar rápido. O jogo não explica nada e não tem interesse nenhum em explicar.

Além disso, a repetição é parte essencial da proposta, mas pode cansar dependendo do seu nível de paciência. Você está, essencialmente, revisitando o mesmo espaço várias vezes, apostando tudo na sua percepção. Para alguns, isso é genial. Para outros, pode parecer limitado.

Existe uma decisão extremamente inteligente aqui: a duração. “The Exit 8” não se estende além do necessário.

Em poucos minutos, ou até cerca de uma hora, dependendo da sua atenção, ele entrega tudo o que se propõe. Não sobra gordura, não há enrolação. É uma experiência compacta, quase como um experimento interativo que termina exatamente quando precisa terminar.

Vale a pena jogar “The Exit 8”?

No fim, “The Exit 8” é uma prova elegante de que o terror mais eficaz não é aquele que grita, é o que sussurra e te atormenta por mais tempo.

Ele não entrega um medo imediato, mas uma inquietação persistente. Uma dúvida que continua ecoando mesmo depois que você fecha o jogo. Aquela sensação estranha de olhar para um lugar comum e pensar: “isso sempre esteve assim?”

E quando um jogo consegue fazer você questionar a própria percepção fora da tela… bom, aí ele já ganhou.

Crédito: Divulgação / KOTAKE CREATE