Dirigido por Genki Kawamura e coescrito com Kentaro Hirase, “Exit 8” surge em um momento curioso do terror contemporâneo, um momento em que o medo não vem mais apenas de monstros ou assassinos, mas de espaços vazios, silenciosos e estranhamente familiares. A estética dos chamados “espaços liminares” tomou conta da internet nos últimos anos, alimentando fóruns, vídeos e creepypastas que transformam corredores desertos, escritórios abandonados e estacionamentos infinitos em verdadeiros pesadelos existenciais. Nesse cenário, fenômenos como as Backrooms deixaram de ser apenas curiosidades virais para se tornarem uma linguagem própria do horror moderno, um tipo de terror que não grita, mas sussurra, repetindo padrões até quebrar a percepção de realidade.
É exatamente desse imaginário que “Exit 8” bebe. Baseado no cultuado jogo homônimo da Kotake Create, o filme parte de uma premissa que, à primeira vista, parece pequena demais para sustentar um longa: um homem preso em um corredor de metrô infinito precisa encontrar anomalias para escapar. Mas o que poderia ser apenas um exercício de estilo se transforma em algo muito mais inquietante. Kawamura entende que o verdadeiro horror aqui não está no que aparece, mas no que se repete, na sensação de déjà vu constante, na dúvida corrosiva sobre o que mudou (ou se algo realmente mudou) e na paranoia crescente de estar preso em um espaço que imita a realidade com precisão quase cruel.
O terror dos “não-lugares”

Existe algo profundamente desconfortável em espaços vazios, repetitivos e sem identidade e “Exit 8” entende isso melhor do que deveria. A internet já explorou esse tipo de inquietação com creepypastas e jogos ambientados em escritórios abandonados e corredores infinitos, mas aqui essa estética ganha uma forma mais refinada e sufocante. O metrô deixa de ser apenas cenário e se transforma em uma prisão conceitual, um espaço liminar onde a lógica começa a falhar aos poucos, quase sem aviso.
Os corredores revestidos de azulejos brancos, iluminados de maneira fria e quase clínica, parecem se dobrar sobre si mesmos em um ciclo interminável. A sensação é menos física e mais mental, como se o protagonista estivesse preso dentro de um pensamento que nunca chega ao fim, repetindo padrões até perder qualquer referência de realidade.
É justamente nesse ponto que o filme se conecta com a tradição do terror japonês. Assim como em “O Chamado” e “Ju-On: O Grito”, o medo não nasce de sustos fáceis, mas da sugestão, do silêncio e da percepção incômoda de que algo está fora do lugar. Em vez de atacar diretamente, o filme observa, repete e desgasta, criando uma atmosfera que se infiltra devagar, mas permanece muito depois que tudo termina.
Uma história mínima, uma angústia máxima
O protagonista, creditado apenas como “Homem Perdido” (Kazunari Ninomiya), carrega o filme quase sozinho e faz isso com uma crescente sensação de desgaste emocional que é quase palpável. Antes mesmo de entrar no labirinto, sua vida já está à beira do colapso: uma possível paternidade inesperada, um cotidiano sufocante e um episódio de covardia moral que ecoa ao longo da narrativa.
Quando ele se vê preso no corredor, o terror não vem de monstros ou violência explícita, mas da repetição. Ele anda, observa, volta. Anda de novo. Algo muda, ou será que não? Um pôster ligeiramente diferente, uma luz piscando fora de ritmo, um rosto que parece… errado. O filme exige do espectador o mesmo estado mental do protagonista: atenção absoluta. Você não apenas assiste, você é obrigado a vigiar e participar do filme.
Direção e roteiro: menos é mais, e dessa forma, mais perturbador

Genki Kawamura entende que a força do conceito está justamente na sua limitação. Em vez de expandir demais o universo, erro comum em adaptações de jogos, ele abraça a repetição como linguagem. Cada “loop” funciona como uma fase, como no jogo original, mas também como um degrau na deterioração psicológica do personagem.
Ao expandir a lógica do jogo para o cinema, o diretor não tenta “aumentar” a história com explicações ou excessos narrativos. Pelo contrário, ele mergulha ainda mais fundo na simplicidade da proposta, transformando cada detalhe, uma luz piscando, um cartaz ligeiramente diferente, um rosto que parece fora do lugar, em combustível para uma tensão que cresce de forma silenciosa e implacável. O resultado é um terror elegante e sufocante, que não depende de sustos fáceis, mas da ideia muito mais perturbadora de que talvez não exista saída, ou pior, de que a saída sempre esteve ali, mas você simplesmente não consegue vê-la.
Há um controle impressionante de ritmo. O filme sabe quando desacelerar, quando insistir, quando quebrar a expectativa. E quando quebra, faz isso de forma quase cruel. A ausência de explicações claras não é uma falha, é parte da proposta. Aqui, entender demais seria enfraquecer a experiência e o impacto do filme.
Embora profundamente original na execução, “Exit 8” dialoga com outras obras de forma elegante. Há ecos do hotel labiríntico de “O Iluminado” além de ter uma conversa com Matrix, especialmente na ideia de falhas na realidade e na percepção de que algo está fundamentalmente errado, mas impossível de explicar completamente.
Fotografia e atmosfera: o terror do cotidiano
Visualmente, o filme é frio, preciso e quase hipnótico. A repetição dos corredores, das portas, das placas, tudo contribui para criar uma familiaridade sufocante. Em pouco tempo, aquele espaço passa a ser tão conhecido quanto desconfortável, como se você também estivesse preso ali.
E talvez esse seja o maior trunfo do filme: ele transforma o espectador em cúmplice. Você começa a procurar anomalias. Começa a duvidar do que viu. Começa a se perguntar se algo mudou mesmo ou se foi impressão. Quando o filme te coloca nesse estado, ele já venceu.
Por baixo da estrutura de “jogo”, “Exit 8” esconde uma leitura mais densa. O ciclo infinito, as regras arbitrárias, a repetição diária, tudo ecoa a vida moderna. O conceito de “não-lugar”, encontra aqui uma representação quase literal que são espaços de passagem onde ninguém pertence, onde ninguém deixa marca.
A possível paternidade do protagonista adiciona outra camada e faz nossa cabeça explodir. E se esse labirinto não for apenas físico, mas emocional? E se a saída não for um lugar, mas uma decisão? O filme nunca responde diretamente, e é melhor assim.
Vale a pena assistir “Exit 8”?
“Exit 8” é o tipo de filme que não vai agradar todo mundo, e nem tenta. Sua proposta minimalista, repetitiva e deliberadamente ambígua pode afastar quem espera respostas claras ou sustos convencionais. Mas para quem entra no jogo, a experiência é profundamente imersiva e inquietante.
É um terror elegante, frio e inteligente, que substitui o medo imediato por uma ansiedade persistente. Um filme que não grita, sussurra, repete e insiste até você começar a duvidar de si mesmo. E quando você percebe, já está preso no corredor também.
“Exit 8” estreia dia 30 de abril nos cinemas.
Crédito da capa: Divulgação / Toho
“Exit 8” (8番出口, Japão, 2025, 1h 35min)
Direção: Genki Kawamura
Roteiro: Kotake Create, Kentaro Hirase, Genki Kawamura
Elenco Principal: Kazunari Ninomiya, Yamato Kochi, Naru Asanuma
Produtor: Yuto Sakata, Kenji Yamada, Akito Yamamoto, Taichi Ito, Yoshihiro Furusawa, Minami Ichikawa, Genki Kawamura, Taichi Ueda
Produção: Story Inc., AOI Pro.
Fotografia: Keisuke Imamura
Música: Shouhei Amimori, Yasutaka Nakata
Classificação:
Distribuição: Paris Filmes.

═════════════════════════════════════════════════════════════
🩸 Para mais textos, análises e notícias sombrias sobre o mundo do terror, siga o Geek Sinistro nas redes sociais e não perca nenhuma novidade arrepiante.
