Estagiária sob supervisão de Julia Gabriela e Mario Guedes.

João Carlos Bueno Abitante disputa o torneio em São Paulo e defende respeito, previsibilidade e acessibilidade nos jogos

Competir em Pokémon Trading Card Game exige estratégia, atenção e leitura rápida do adversário. Para João Carlos Bueno Abitante, contador, empreendedor e competidor de Pokémon TCG, a mesa de jogo também se tornou um espaço para falar sobre inclusão nos games.

Integrante da TATOYS TEAM e fundador do Autista Empreende, João está no espectro autista e vai participar do 2027 Pokémon Latin America International Championships, conhecido como LAIC. O evento acontece de 20 a 22 de novembro de 2026, no Distrito Anhembi, em São Paulo, com disputas de Pokémon TCG, Pokémon Champions e Pokémon GO.

Embora seja realizado em 2026, o campeonato aparece nas páginas oficiais da Pokémon Championship Series como parte da temporada 2027. No caso de João, a participação vai além da busca por resultado: ela coloca em evidência o que pode tornar campeonatos de jogos mais acessíveis para pessoas neurodivergentes.

Competir também é ocupar espaço

Para João, inclusão não significa facilitar a competição. O ponto central está em permitir que jogadores autistas possam competir com respeito, comunicação clara e um ambiente menos hostil às suas necessidades.

“Quando uma pessoa autista chega a uma mesa de competição, ela não deixa de ser autista. Algumas situações que parecem simples para outras pessoas podem representar uma dificuldade muito maior. Respeitar o espaço, a comunicação e as particularidades de cada competidor não diminui a competitividade. Pelo contrário, torna o ambiente mais justo e permite que cada jogador possa mostrar o seu potencial”, afirma João.

Em campeonatos presenciais, a experiência de um jogador envolve muito mais do que a partida. Barulho, mudanças de mesa, avisos rápidos, pressão de rodada, contato com adversários e interação com juízes fazem parte da rotina.

Para pessoas autistas, previsibilidade e comunicação objetiva podem fazer diferença antes mesmo da primeira carta ser colocada em jogo. Esse cuidado não muda o desafio competitivo, mas ajuda o jogador a participar com mais segurança.

“Eu não quero ser tratado como alguém que precisa de uma competição mais fácil por ser autista. Quero poder competir. O que precisamos é de respeito e compreensão. Às vezes, uma comunicação mais objetiva, um pouco mais de previsibilidade ou simplesmente evitar determinados comportamentos na mesa já faz uma diferença enorme”, completa.

Pokémon como ponte

TATOYS TEAM irá competir no LAIC
Crédito: Divulgação

A relação de João com Pokémon também passa pela psicoterapia. Ana Clara Lucas Coura, psicóloga que acompanha João, explica que o interesse pelo jogo partiu dele e ajudou a criar um espaço possível de convivência.

“Socializar não significa colocar uma pessoa autista, à força, em situações que não fazem sentido para ela. No caso do João, o desafio na psicoterapia era encontrar um espaço de convivência possível e significativo, que estivesse dentro da realidade dele e partisse de algo que já despertava seu interesse”, explica Ana Clara.

Segundo a psicóloga, o jogo deixou de ser apenas uma atividade e se tornou uma forma de construir vínculos com autonomia. No caso de João, a socialização passou a acontecer dentro de um universo que já fazia sentido para ele.

Essa perspectiva evita transformar a história em uma narrativa de superação. O foco está no direito de ocupar espaços, disputar torneios e ser reconhecido como competidor, sem que o autismo seja ignorado ou tratado como obstáculo absoluto.

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