Texto por Luhan Pacheco, Agatha Cristina e Beatriz Azevedo

As creepypastas surgem do fenômeno da internet enquanto as lendas urbanas são consagradas pela tradição oral

Durante décadas, histórias de assombração e personagens assustadores fizeram parte da infância de milhões de pessoas. Assim, sejam narradas por familiares, amigos ou colegas de escola, as famosas lendas ajudavam a transmitir ensinamentos para as crianças, mesmo que de forma assustadora. 

Por exemplo, bastava um adulto mencionar o homem-do-saco para muitas crianças ficarem em alerta. A história do desconhecido que circulava pelas ruas levando embora quem não obedecia aos pais marcou a infância de diferentes gerações e ganhou versões variadas em várias regiões do país. 

Hoje, no entanto, com a expansão da internet e das redes sociais, a tradição de contar histórias migrou para o ambiente digital. Dessa forma, as histórias se adaptaram para novos formatos, como as creepypastas.

O horror como válvula de escape 

"A perna cabeluda"
“A perna cabeluda” | Crédito: Reprodução/ Acervo Diário de Pernambuco

Para o jornalista Roberto Beltrão, idealizador do projeto “Recife Assombrado” na capital pernambucana, as histórias de terror continuam sendo um grande sucesso entre todas as idades. Isso porque, elas ajudam os telespectadores a lidarem com seus próprios medos de forma controlada.

“Por trás de toda narrativa há um medo social ou pessoal. Histórias de zumbis, por exemplo, costumam ser alegorias políticas sobre a divisão de pessoas sãs e loucas. Quanto mais difícil a convivência social e maior o sentimento de desamparo, mais as pessoas são atraídas pelo terror, porque ele traduz muito das angústias que vivemos no cotidiano e a ficção ajuda as pessoas a lidarem com isso”, concluiu o jornalista.

Nesse sentido, a lenda urbana também pode ser uma maneira de traduzir sentimentos complexos e lidar com assuntos que a sociedade ainda não está pronta para debater diretamente. Roberto Beltrão cita como exemplo a lenda da “Perna Cabeluda”, conto popular que nasceu de uma notícia publicada pelo Diário de Pernambuco durante o regime militar. 

Na época, a matéria foi escrita de forma sensacionalista e supostamente “fictícia” para burlar a censura que os jornais sofriam na cidade do Recife.

“A matéria do Diário de Pernambuco de 1975 era sensacionalista e, em meio às sequências de matérias, uma testemunha afirmou ter visto uma “perna cabeluda”. O jornalista Raimundo Carreiro criou uma ficção sobre isso e a história ganhou corpo, transformando um fato inicial em algo muito maior através de visões, preconceitos e questões culturais.”

Mais do que apenas uma história de terror fictícia, a “perna” também passou a ser utilizada como código para que os jornalistas pudessem denunciar agressões policiais sem sofrer represálias do regime militar.

Dessa forma, a lenda urbana se constrói no imaginário coletivo a partir das sobreposições de narrativas variadas. Ela nasce de um boato ou fato concreto, ganhando novos contornos a partir de sua disseminação.

“É uma história não documentada, mas presente no imaginário popular, que fala muito sobre a própria sociedade. Embora a lenda possa perder o sentido original conforme a sociedade muda, preservá-la é preservar a memória coletiva”, concluiu Roberto Beltrão.

A evolução da contação de história de lendas urbanas

Em 2024, a lenda do Homem do Saco foi adaptada aos cinemas | Crédito: Divulgação
Em 2024, a lenda do Homem do Saco recebeu adaptação aos cinemas | Crédito: Reprodução

Muito antes da popularização da internet, as lendas urbanas circulavam principalmente pela oralidade. Eram histórias passadas de geração em geração, muitas vezes associadas a uma região, cidade ou comunidade específica. Além disso, essas narrativas ajudavam a preservar aspectos culturais e fortalecem a identidade coletiva.

Assim, é possível notar que cada localidade possui seus próprios mitos, que refletem medos, crenças e experiências compartilhadas por seus moradores. Com o avanço das tecnologias digitais, o processo de circulação dessas histórias mudou significativamente. 

Para Giovanna Rubbo, escritora e pesquisadora do horror na literatura, a oralidade é como a mãe da narrativa. Dessa forma, explica que a prática de contação de histórias através da fala surgiu bem antes dos livros e da escrita:

“Atuar como contadora de histórias de terror já me levou a diversos espaços, de bibliotecas a cemitérios, bares e feiras esotéricas, com os mais variados públicos, e o que sempre me impressionou é a troca de experiências. Eu acho que uma das coisas mais legais dos eventos presenciais é abrir espaço para que as pessoas façam comentários ou mesmo falem sobre suas próprias experiências.”, explica a pesquisadora.

Atualmente, uma narrativa criada em qualquer parte do mundo pode alcançar milhões de pessoas em poucos dias. Dessa forma, o alcance se tornou global, reduzindo as fronteiras que antes limitavam a disseminação das lendas. Existe uma grande diferença na forma que as histórias de terror são contadas digitalmente.

“Podemos até deixar um comentário, mas não é a mesma coisa. Talvez o coletivo afaste o medo que um ouvinte poderia sentir se estivesse em casa, sozinho, ouvindo aquela mesma história. Mas as histórias de terror não têm o medo ou o susto como únicos objetivos. Elas também podem causar repulsa, humor, desconfiança e até mesmo reflexões sobre nós, como seres humanos, e a sociedade em que vivemos.”, conclui Giovanna.

Mesmo que não seja tão comum encontrar rodas de histórias, ainda existem muitos projetos com o intuito de manter a tradição da oralidade viva. São esses espaços que permitem que as pessoas voltem a socializar e criem a coletividade a partir das histórias.

“Também temos projetos incríveis como o “Pílulas Sombrias”, “Patrimônio Funerário SP” e “O que te assombra?”, realizando necroturismo pelos cemitérios da cidade, resgatando lendas e fatos históricos. Acredito que também existam muitos outros trabalhos de guerrilha pelas histórias de assombração pelo Brasil.”

Creepypasta e a modernidade na contação de história

Slenderman, clássica creepypasta
Slenderman, clássica creepypasta | Crédito: Reprodução/Internet

Para começar a compreender o fenômeno das creepypasta precisamos olhar para suas palavras de origem. O termo é a junção de “creepy”, que pode ser visto como “bizarro” ou “aterrorizante” e “pasta” que vem de “copypasta”, próximo ao ato de copiar e colar certo texto entre fóruns online. 

E com isso posto, temos as “creepypasta” como histórias bizarras partilhadas tantas vezes no ambiente online que se tornam virais. Essa prática teve início nos anos 2000 em um período mais simples da internet onde os blogs e fóruns reinavam como forma de contato social. A autoria dessas histórias, por sua vez, tem no anonimato sua maior marca, algo que agrega no horror delas, já que não se sabe de suas origens. 

As creepypastas se tornam uma versão moderna das clássicas lendas urbanas, visto que todos os aspectos das lendas estão presentes nelas. Dentre eles, a prática de compartilhar entre outros, agora feita em fóruns online e que são uma forma moderna de transmissão oral . Bem como o lado misterioso, sombrio e até fabulesco que carregam, muito disso devido às lições que trazem.

Um outro aspecto sobre elas é a natureza moderna de sua formação, que se reflete em algumas delas trazer personagens de desenhos ou videogame, como “O suicídio de Lula Molusco” ou a “BEN Drowned”.

A creepypasta enquanto folclore digital

Backrooms e o folclore digital
Backrooms e o folclore digital | Crédito: Divulgação/Youtube

Uma outra ótica a qual se pode ver as creepypasta, para além do aspecto superficial da internet, é como forma de folclore digital. Na aldeia digital das redes, essas narrativas, por partirem de diversos lugares, trazem dúvida sobre a nossa própria realidade.  Algo que, de acordo com Roberto Beltrão:

A creepypasta trabalha com o conceito de “zona crepuscular”, que desafia o senso de realidade: a pessoa fica na dúvida se aquilo é invenção ou se pode ser verdade. E é justamente nessa dúvida que as creepypastas ganham força e é o que explica sua tremenda difusão.

Algo que expande sua eficiência e faz um paralelo interessante com as lendas urbanas, visto que mesmo que caminhem por uma vertente diferente, ainda impactam como as lendas.

“No passado, as pessoas duvidavam menos das histórias porque confiavam na fonte (um parente não mentiria); hoje, a dúvida gerada pela internet pode tornar as histórias mais assustadoras e impressionantes. Curiosamente, a internet hoje é 80% vídeo, o que é uma nova forma de oralidade que, embora venha de fontes desconhecidas, gera sentimentos profundos de concordância ou dúvida total”

A natureza moderna das creepypastas

Creepypasta de "Ben Drowned"
Creepypasta de “Ben Drowned” | Crédito: Reprodução/Youtube

Um outro aspecto essencial das creepypastas vem de sua natureza moderna que nos ajuda a entender como pensam as pessoas, mas isso vai além. Giovanna Rubbo, em entrevista ao Geek Pop News, comenta:

“Particularmente, adoro o mundo das creepypastas e acho que elas oferecem informações muito relevantes para entendermos quais são os medos, angústias e receios da sociedade atual.”

Como espelho da sociedade atual, essas tramas ganham força e encontram formas tão plurais de narrar suas histórias. E, seja pelo uso de vídeos, imagens ou apenas textos que esse tipo moderno de narrativa se dissemina e ganha força a ideia de “lenda urbana moderna” para alguns.

Tanto nas adaptações para cinema quanto em histórias longas, as creepypastas aprofundam outros aspectos, como Roberto Beltrão menciona:

“Exemplos como as Backrooms ou a história de Sete Além revelam angústias da sociedade contemporânea, como o medo de estar enclausurado, sem rumo ou sem contato com o meio externo. É uma evolução do imaginário popular coletivo para o meio digital. E é nesse cenário que as creepypastas são cristalizadas no imaginário popular.”

Leia também: Dia do Folclore: como as lendas brasileiras influenciam a literatura infantil

O medo como elemento central

Seja de forma presencial ou digital, as histórias de terror continuam apresentando as mesmas características responsáveis por encantar o público. Ainda que a contação de histórias “olho no olho” tenha preferências, o online cria uma atmosfera que também pode ser importante para os usuários. Para Giovanna, a prova é o seu projeto “Contos de Pandora”:

“No Contos de Pandora, projeto do qual sou cofundadora, eu e a minha parceira, Malu Paixão, conseguimos manter nossas atividades com a contação de histórias gravando vídeos e fazendo lives, em um momento em que as pessoas precisavam da arte para se distraírem de terrores reais, muitas vezes enfrentando situações de luto e isolamento.”

Mesmo que as formas mudem e novas tecnologias passam a integrar a experiência, a essência continua a mesma. As histórias, sejam de terror ou não, existem para se compartilhar e reinventar. Assim, provam que a força de uma boa narrativa está em sua capacidade de conectar pessoas através do tempo – e agora, através da distância.

“Eu acredito que as crianças e adolescentes de hoje continuam tentando invocar a Loira do Banheiro, ao mesmo tempo em que compartilham creepypastas, com vídeos e imagens criados por Inteligência Artificial. Essa é a beleza das narrativas, elas sempre podem se adaptar.”, conclui Giovanna Rubro.

E assim, mesmo que através de novos meios como o digital, a transmissão de lendas, contos ou creepypastas deve continuar existindo e se adaptando. Isso porque, apesar de tudo, todos estes são formas de partilhar tanto a cultura quanto vivências. E essas, sempre se renovam, ao passo em que também relembram o passado.

Foto de capa: Crédito: Diego Herculano

Não perca nossas publicações!

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.


Descubra mais sobre Portal GeekPop News

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.