Apresentado no Festival de Berlim, filme reflete sobre gênero, desigualdade e futuro pelo olhar de meninas do sertão do Piauí.
A Fabulosa Máquina do Tempo é o novo filme da diretora Eliza Capai. O documentário, que estreou internacionalmente no 76º Berlinale, conta a história de um grupo de meninas e da cidade de Guaribas (PI) através dos relatos das crianças. Com distribuição da Descoloniza Filmes, o longa chega aos cinemas brasileiros em 30 de julho.
O cenário da produção é o sertão do Piauí. A cidade de Guaribas foi cenário de teste para o começo do programa de assistência do governo federal Bolsa Família. Enquanto as meninas mostram o seu dia a dia, trazem relatos de suas famílias que possibilitam a comparação do passado e o presente daquela região.
A vida no interior do nordeste brasileiro ainda não é algo simples. Apesar carência extrema ter deixado de existir, esta nova geração ainda lida com questões deixadas pelas anteriores. O cenário ainda é bastante machista e, cada vez mais, conservador com a forte presença de igrejas evangélicas, expoentes da onda neopentecostal vista por todo o território nacional.
A máquina do tempo das crianças
É interessante ver o paralelo que a narrativa constrói entre a Guaribas da época dos pais de cada menina e como ela está agora. Muitos daqueles que hoje são adultos, já estiverem no lugar das crianças e adolescentes, mas as opções eram outras. Muitos deles abriram mão de suas juventudes para fugir da criação rígida de seus pais ou simplesmente para casarem.
No tempo presente, as 14 meninas apresentam as diferenças entre elas e seus pais. As protagonistas percebem já percebem que o mundo as enxerga de forma diferente. Enquanto os pais, irmãos e amigos vivem de forma livre, elas precisam estar presente nas tarefas domésticas e ajudar a cuidar dos irmãos. E essa é a parte que mais aperta o coração.

Ver meninas tão jovens com idades entre 10 e 13 anos, ou até menos, com medo de crescerem é doloroso. Como alguém nascida na região metropolitana de uma cidade no sudeste, não me lembro de ter medo de crescer. Na verdade, sempre sonhei em ser adulta e poder ter minha vida, os sonhos sempre foram importantes. Entretanto, esse não é o caso de ‘A Fabulosa Máquina do Tempo’. Em Guaribas, as crianças temem pelo fim da infância, a chegada da puberdade é um verdadeiro pesadelo e significa o fim dos sonhos.
O reflexo do machismo e da sociedade patriarcal é tão forte que as meninas temem se tornarem adolescentes. Elas são felizes com a vida simples de criança e temem que o olhar do mundo mude. Infelizmente, elas sabem que a sexualização vai acontecer de forma inevitável.
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Vale a pena assistir ‘A Fabulosa Máquina do Tempo’?
Sim, vale a pena. Assistir ‘A Fabulosa Máquina do Tempo’ é importante para enxergar um outro Brasil, este que ainda insiste em existir. Apesar da narrativa quase que lúdica, o filme aborda temas bastante importante para nós enquanto sociedade moderna, nos quais ainda precisamos avançar.
Ainda que pareça atrasada em relação ao restante do país, Guaribas (PI) avançou significativamente ao longo do tempo. Todas as personagens deste filme participam do programa de assistência social federal, o que as distancia da dura realidade de fome e miséria que seus antecessores viveram.
A obra de Eliza Capai choca pela doçura e simplicidade com que aborda temas tão complexos e duros tendo crianças como pontos focais da história. Além disso, a direção consegue mostrar que mesmo esse lugar remoto ainda sofre outra influência, da internet. O contraste entre a vida dura, o conservadorismo e a cultural popular estão sempre ali presentes. A Fabulosa Máquina do Tempo estreia em 30 de julho de 2026.
A Fabulosa Máquina do Tempo
Documentário, Brasil, 72 min, 2025
Direção: Eliza Capai
Roteiro: Daniel Grinspum e Eliza Capai
Elenco: Alice, Ana, Ana Vitoria, Joice, Laiane, Larissa, Laura, Lorenna, Manu, Manuellinha, Safira, Sophia, Thaemmy, Thabata
Produção Executiva: Mariana Genescá
Direção de Fotografia: Carol Quintanilha
Montagem: Daniel Grinspum e Eliza Capai
Direção de Produção: Clarice Rios
Ass. de Produção exec.: Jac Melo
Desenho de Som: Daniel Turini
Supervisão de Som: Marília Mencucini
Som Direto: Luisa Lemgruber
Trilha Sonora Original: Décio 7 com participação especial de Juliana Linhares
Mixagem: Julia Teles
Colorista: Maisa Joanni
Coord. de Pós: João Gila
Desenho de Créditos e Cartaz: Joana Amador e Fiteiro
Distribuidora: Descoloniza Filmes

Imagem de capa: Divulgação / Descoloniza Filmes
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