Preocupações incluem possíveis impactos sobre a concorrência, liberdade criativa e a diversidade das produções

A Paramount Skydance concluiu nesta terça-feira, dia 6, a aquisição da Warner Bros. Discovery no valor de U$110 bilhões, criando um dos maiores grupos de entretenimento do mundo. A nova companhia, chamada de Skydance, reúne sob o mesmo grupo marcas como Paramount Pictures, Warner Bros., HBO, CBS, CNN, Nickelodeon, MTV e Discovery. 

A operação, diante de sua grandiosidade, naturalmente levanta questionamentos em todo o setor produtivo de Hollywood. A união dessas duas grandes empresas pode aumentar a sua concentração de mercado, reduzir a concorrência e dar à nova companhia maior poder de negociação com profissionais, o que representa não apenas um risco para as produções, como também para quem consome esses produtos. E é justamente esse impacto que começa a ser acompanhado a partir de agora.

Como começou a aquisição?

Em 2025, a Paramount foi adquirida pelo grupo Skydance Media, liderado por David Ellison, em uma transação de cerca de US$8 bilhões. A união já representava uma tentativa da empresa de fortalecer a competitividade diante da concorrência dos streamings.

Do outro lado, a Warner Bros. Discovery enfrentava dificuldades financeiras depois da união entre Warner Media e Discover, feita em 2022. A partir dessa junção, a companhia acumulou cerca de US$33 bilhões em dívidas, o que fez com que o seu então CEO, David Zaslav, colocasse a Warner à venda.

A movimentação chamou a atenção de outras gigantes do entretenimento e, em 2025, a Netflix apresentou uma proposta pela Warner, avaliada inicialmente em cerca de US$72 bilhões. A Paramount Skydance, porém, elevou a oferta e acabou vencendo a disputa, em uma negociação de quase US$110 bilhões, considerando o valor da operação e as dívidas assumidas.

Nem tudo é tão simples quanto parece…

Antes que a operação fosse concluída, a aquisição enfrentou resistência na Justiça americana. 12 estados dos Estados Unidos entraram com uma ação para tentar impedir a operação, alegando que a união entre Paramount e Warner Bros. Discovery poderia aumentar a concentração no mercado e reduzir a concorrência no setor de entretenimento — em outras palavras, construir um monopólio na indústria cinematográfica.

O negócio também foi contestado pelo sindicato dos roteiristas nos Estados Unidos, o Writers Guild of America (WGA), e por profissionais da indústria cinematográfica. A entidade e artistas manifestaram preocupação com os efeitos da concentração sobre os trabalhadores de Hollywood, especialmente em relação ao número de empregos ofertados e menos opções para o público. A oposição ao negócio também foi expressa em uma carta aberta contra a fusão, que reuniu mais de 5,5 mil assinaturas, incluindo as de artistas e cineastas como Mark Ruffalo, Lin-Manuel Miranda, Glenn Close e JJ Abrams.

Depois de alguns meses, no dia 30 de setembro de 2026, um acordo encerrou a ação movida pelos 12 estados e retirou um dos principais obstáculos jurídicos à conclusão da aquisição. Para seguir com a aquisição, a Skydance concordou em ter um volume mínimo de lançamentos cinematográficos anuais, que estabelece 30 filmes por ano nos dois primeiros anos após a fusão e 32 filmes anuais nos três anos seguintes.

Já o acordo com o WGA estabelece três pontos principais: o pagamento de US$ 17,5 milhões ao fundo de saúde do sindicato, reembolso dos custos jurídicos da ação estimados em US$ 6 milhões e um compromisso de não realizar demissões de funcionários representados pela WGA na CBS News, empresa jornalística da Paramount, por cinco anos. Mesmo assim, o Writers Guild of America declarou que continuava acreditando que a operação poderia prejudicar a indústria cinematográfica.

A Disney, por exemplo, já adquiriu diversas empresas neste modelo de negócio, como a Marvel e a Lucasfilm (Créditos: Reproução/Wikimedia Commons)

É o fim do cinema?

Embora o acordo de fusão entre a Warner Bros. e a Paramount deixe claro a posição do novo estúdio em não encerrar os lançamentos teatrais, ainda existem muitos questionamentos de como realmente a nova operação vai funcionar e como pode afetar as produções futuras.

Após a conclusão do negócio, David Ellison anunciou que vai manter dois dos lotes de filmagens dos estúdios em operação, mas com funções diferentes. O complexo da Warner Bros., em Burbank, na Califórnia, será dedicado principalmente às produções cinematográficas, enquanto o da Paramount Pictures, em Los Angeles, concentrará as operações de televisão e streaming da Skydance.

Segundo informações da revista americana Variety, o executivo fez o anúncio durante uma conversa com jornalistas no estúdio da Paramount, horas após a conclusão da fusão. 

No que diz respeito ao controle de exibição, o Cinema United, principal entidade de exibidores dos Estados Unidos, estima que a nova companhia será responsável por cerca de 40% do calendário de estreias no país. Por outro lado, as autoridades regulatórias avaliaram que a operação não representa riscos reais para a concorrência.

A preocupação, no entanto, não se limita à concentração do mercado, mas também envolve os possíveis impactos da fusão sobre a liberdade criativa e a diversidade das produções. Com uma nova companhia, a pressão por resultados financeiros é ainda maior, o que deve favorecer franquias consolidadas e projetos com retorno comercial seguro nos próximos anos. 

O receio ainda se baseia em discussões sobre outras aquisições de Hollywood, como a compra da Lucasfilm pela Disney, em 2012. Desde então, parte dos fãs criticam decisões criativas relacionadas à franquia “Star Wars”, atribuindo a mudança de direção da empresa à queda da qualidade da franquia por conta do aumento de produções. 

Ainda é cedo para determinar como a fusão entre Warner e Paramount afetará as escolhas artísticas da Skydance, mas o equilíbrio entre rentabilidade e diversidade criativa deve ser um dos pontos centrais do debate sobre o futuro do setor.

Créditos da capa: Reprodução/Wikimedia Commons