A escolha de Zach Cregger para comandar o novo filme de “Resident Evil” (Biohazard) gerou curiosidade imediata e com razão. Depois do impacto de “Noites Brutais” e “A Hora do Mal”, Cregger se consolidou como um nome interessante dentro do terror atual, alguém que entende tensão, ritmo e, principalmente, como subverter expectativas. O problema é que, ao que tudo indica, o projeto que ele está desenvolvendo pode ter pouquíssima conexão real com o universo da franquia e isso levanta um alerta que os fãs conhecem bem.
Pelo que vem sendo discutido, o novo filme deve se apoiar muito mais em uma abordagem autoral, com foco em horror atmosférico e narrativa própria, do que em elementos clássicos da saga. Isso significa deixar em segundo plano, ou até abandonar pilares fundamentais como a Umbrella, conspirações biotecnológicas, personagens clássicos e toda a mitologia construída ao longo dos jogos. No lugar disso, o que sobra, até então é algo mais genérico. Um cenário com zumbis, tensão e sobrevivência. E aqui está o ponto central da questão: isso poderia ser qualquer filme de zumbi.
Só mais um filme bom de zumbis?

Não é um problema fazer um bom filme de zumbi. Muito pelo contrário,o gênero ainda tem muito espaço para inovação. Mas quando você coloca o nome “Resident Evil” na capa, a expectativa muda completamente. A franquia não é apenas sobre mortos-vivos, ela é sobre identidade, sobre personagens reconhecíveis, sobre um universo específico que mistura terror, ação e conspiração corporativa. Tirar isso da equação é, na prática, esvaziar o que torna a marca única.
E é justamente aí que mora o risco. Associar um projeto autoral, que aparentemente caminha em outra direção, a uma franquia com uma base de fãs tão consolidada pode ser um tiro no pé. Porque, para quem não conhece “Resident Evil”, o filme pode funcionar perfeitamente como um terror independente, direto, eficiente e até elogiado. Mas, para quem acompanha a saga, a sensação pode ser de mais uma adaptação que usa o nome sem respeitar o material original, algo que a franquia já enfrentou diversas vezes no cinema.
Adaptação ocorrerá durante os eventos de Resident Evil 2

Em entrevista ao IGN, Zach Cregger revelou que o novo filme se passa durante os eventos de Resident Evil 2, acompanhando a primeira noite do surto do T-Vírus, principal evento da franquia. Ainda assim, a abordagem deixa claro que o longa não pretende seguir o caminho mais tradicional da saga.
O diretor destacou que o foco não estará nos zumbis clássicos, mas sim nas mutações causadas pelo vírus, explorando o horror corporal e criaturas mais bizarras. Segundo ele, são poucas as cenas com mortos-vivos, muitas delas já vistas no próprio trailer, reforçando a ideia de que o filme se afasta do que o público normalmente associa à franquia.
Entre os destaques estão uma figura humanoide perturbadora nos esgotos, inspirada em Meridiano de Sangue, e uma criatura de múltiplos membros que evolui ao longo da narrativa, elementos que apontam para uma experiência mais autoral e menos fiel ao espírito clássico de Resident Evil.
Adaptações anteriores

A franquia “Resident Evil” no cinema, especialmente na fase com Milla Jovovich, mostra bem como algo pode dar muito dinheiro e ainda assim dividir opiniões. Os filmes fizeram enorme sucesso de bilheteria, apostando em muita ação e um estilo mais exagerado, o que agradou o público geral, mas nem tanto os fãs dos jogos.
As tentativas mais recentes de “acertar o tom” também não funcionaram tão bem. Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City (2021) tentou ser mais fiel aos games, mas acabou decepcionando na execução. Já a série Resident Evil: A Série (2022) da Netflix trouxe uma ideia mais moderna, mas não agradou e acabou sendo cancelada rapidamente.
No fim, fica claro um problema recorrente em todas as produções. Resident Evil até funciona como história de zumbis para o público em geral, mas quando não consegue equilibrar bem fidelidade e inovação, acaba frustrando quem realmente quer ver o espírito dos jogos na tela.
Liberdade criativa e o risco de não ser Resident Evil
Temos praticamente um paradoxo. Quanto mais o filme se distancia de Resident Evil, maiores são as chances de ele funcionar como obra isolada e maiores também as chances de rejeição por parte dos fãs. É uma linha fina entre liberdade criativa e descaracterização. E, historicamente, adaptações que ignoram essa diferença costumam pagar caro com isso.
No fim das contas, a pergunta que fica é simples e incômoda. Se o filme não precisa de “Resident Evil” para funcionar, por que usar o nome? Talvez porque a marca ainda carregue um peso comercial enorme. Mas esse mesmo peso vem acompanhado de expectativas igualmente grandes. E ignorá-las nunca foi uma estratégia muito segura.
Se a proposta de Zach Cregger realmente seguir esse caminho, o novo “Resident Evil” pode até se tornar um bom filme de zumbi. Só corre o risco de não ser, de fato, um bom Resident Evil.
Crédito da capa: Divulgação Sony Pictures
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