Com elenco afiado, a produção retrata como ambição e poder se entrelaçam em um universo onde lealdade é sempre negociável

Em Os Donos do Jogo, a Netflix reconstrói o submundo do jogo do bicho e as disputas que moldaram parte do poder no Brasil. Com base em pesquisa detalhada e referências reais, a série revela como a ambição e a influência transformaram a contravenção em um império de poder e violência.

A história acompanha Profeta (André Lamoglia), um jovem do interior do Rio de Janeiro que chega à capital determinado a conquistar espaço na alta cúpula do jogo do bicho. Sem proteção ou influências, ele aposta apenas na própria ambição para ascender em um universo dominado por velhos chefes e novas alianças. Além disso, ao longo do caminho, Profeta se une a Mirna (Mel Maia), herdeira de uma das famílias tradicionais do jogo, que perde seu lugar de destaque para a irmã (Giulia Buscacio) e o cunhado (Xamã). A dupla ainda cruza o caminho de Leila Fernandez (Juliana Paes), esposa de um dos bicheiros mais poderosos (Chico Díaz), que também passa a articular seus próprios movimentos contra os chefões.

Os Donos do Jogo
Quatro famílias centrais, e rivais disputam o controle do império da contravenção em Os Donos do Jogo | Crédito: Aline Arruda/Netflix

As donas no jogo, na verdade, são elas

Os Donos do Jogo funciona como um grande tabuleiro de poder, e as mulheres ocupam posições decisivas. Leila é a grande dama, estrategista silenciosa que conhece as regras melhor do que ninguém. Mirna joga às claras, movida pela impulsividade e pela ambição de assumir o controle. Já Suzana, articulada e calculista, avança com malícia e precisão.

Elas não apenas orbitam o poder masculino, mas são parte essencial da engrenagem que o sustenta. Suzana dá direção à força bruta de Búfalo. Enquanto Mirna impede que Profeta confunda desejo com ambição, lembrando-o de que, naquele jogo, só sobrevive quem aprende a mover as peças certas.

Mirna (Mel Maia) e Suzana (Giullia Buscacio) seguem caminhos opostos na luta pelo poder em Os Donos do Jogo
Mirna (Mel Maia) e Suzana (Giullia Buscacio) seguem caminhos opostos na luta pelo poder em Os Donos Do Jogo.  Foto: Divulgação Netflix

Poder, traição e família

A série também expõe mecanismos amplamente reconhecíveis na vida real — como heranças criminosas, pactos de silêncio, conivência de setores públicos e o uso da força para garantir negócios. É justamente esse diálogo com o noticiário que confere autenticidade à obra e desperta reflexões sobre o país que ela representa.

É impossível não traçar paralelos com outra produção recente: o documentário Vale o Escrito, da Globoplay. Que aborda as disputas entre bicheiros do Rio de Janeiro e a rivalidade familiar entre as irmãs Shanna e Tamara Garcia, filhas do contraventor Waldomiro Paes Garcia, o Maninho.

Já em Os Donos do Jogo cada personagem também é associado a um animal que simboliza sua essência dentro da narrativa. Búfalo se conecta a um cachorro, Mirna a um tigre, Profeta a uma águia, Galego a um leão e Leila a uma borboleta. Esses símbolos reforçam o jogo de forças e instintos que move a série, evidenciando o quanto a natureza de cada um interfere nas escolhas e no destino que os aguarda.

Vale a pena assistir Os Donos do Jogo?

Os Donos do Jogo apresenta um texto corajoso. É nos diálogos que a trama se desenrola, revelando tanto as ambições quanto as violências mais brutais de seus personagens. Entre momentos de tensão, surgem tiradas que aliviam o peso do drama, como “quem vive do suor dos outros é sauna”, “ninguém é seu amigo, nem as pessoas da sua família”, “quem cria cobra um dia amanhece picado”, “erva daninha, se não corta, espalha”, entre outras.

A série certamente vai gerar discussões sobre quem é quem nessa história e inevitáveis comparações com fatos reais. O roteiro pode não trazer grandes inovações sobre o universo do jogo do bicho e suas ramificações. Mas mantém ritmo constante e entrega um retrato convincente das engrenagens do poder — e de como ele é capaz de corroer até os laços mais íntimos.

No fim, Os Donos do Jogo não busca heróis nem vilões, mas pessoas tentando sobreviver à máquina que elas mesmas ajudaram a construir. E é justamente nessa ambiguidade que reside sua força.

Imagem de capa: divulgação Netflix



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