Festival CineBH reuniu mais de 18 mil pessoas em Belo Horizonte e promoveu debates sobre circulação, financiamento e novas formas de produção audiovisual

A 20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte e o 17º Brasil CineMundi chegaram ao fim após seis dias de programação gratuita na capital mineira. Ao todo, os eventos reuniram mais de 18 mil pessoas, com 102 filmes de 18 estados brasileiros e 13 países.

Ao longo da programação, foram realizadas 69 sessões, sendo 48 comentadas, distribuídas por oito espaços de Belo Horizonte. Entre eles estavam o Cine Humberto Mauro, o Cine Theatro Brasil, o Cine Santa Tereza, o Cine Belas Artes, o Centro Cultural Minas Tênis, o Teatro Sesiminas e o Cine Petrobras na Praça da Liberdade.

Além dos números desta edição, a trajetória dos eventos também revela a dimensão alcançada pelo projeto. Ao longo de suas 20 edições, a CineBH chegou a 1.751 filmes exibidos em 1.216 sessões. O festival também beneficiou mais de 50 mil alunos pelo programa Cine-Expressão – A Escola Vai ao Cinema e certificou mais de 3.800 participantes em ações de formação audiovisual.

Já o Brasil CineMundi apresentou 486 projetos brasileiros de longa-metragem em 17 edições. Nesse período, o encontro promoveu 3.074 reuniões de negócios e contribuiu para que 158 projetos chegassem à finalização e ao lançamento comercial.

Cinema latino-americano ganha espaço

A trajetória da CineBH também acompanha uma preocupação com a circulação e a construção de espaços para o cinema latino-americano. Segundo Raquel Hallak, diretora-geral da Universo Produção, a mostra nasceu justamente a partir da preocupação com a circulação do cinema em Minas Gerais. Nos últimos cinco anos, portanto, o festival consolidou uma identidade latino-americana.

Nesse processo de ampliação, a edição de 2026 também marcou a estreia da mostra competitiva Horizonte, voltada a diretores e diretoras em seus primeiros longas. Por sua vez, a mostra Território passou a reunir realizadores em diferentes momentos de suas trajetórias.

Além disso, a ampliação das mostras competitivas para 12 filmes, somada à presença de mais convidados internacionais e à participação do público local, também foi apontada como parte do amadurecimento do festival.

Cooperação para além das fronteiras

Essa discussão sobre identidade latino-americana também se estendeu ao Seminário Internacional Entre Imagem – CineBH + CineMundi 2026. O encontro começou em 23 de setembro com o debate “Cinema Latino-americano: o que será?“. Na ocasião, a discussão abordou as diferentes identidades culturais e territoriais presentes na América Latina. Ao mesmo tempo, analisou como o cinema pode responder às transformações políticas e sociais do continente.

Dentro desse contexto, a crítica e programadora chilena Marisol Águila destacou modos de produção menores, coletivos e alternativos. Segundo a discussão apresentada no seminário, essas formas de organização podem criar novas estéticas e, além disso, questionar modelos construídos a partir de perspectivas coloniais. Na mesma linha, o programador Álvaro Arroba destacou o papel da curadoria na valorização de obras que desafiam modelos tradicionais de produção e linguagem.

Entre os exemplos desse movimento esteve a cineasta Clarisa Navas, com “O Príncipe de Nanawa”, exibido na Mostra Olhares das Argentinas. Da mesma forma, Paz Encina, homenageada da edição ao lado de Conceição Evaristo, defendeu um cinema interessado em permanecer no tempo.

Depois da exibição de “Exercícios de Memória” (2024), Encina também participou de uma masterclass. Durante o encontro, a cineasta falou sobre atenção, presença e memória. Atualmente, ela segue desenvolvendo dois novos projetos, um documental e outro ficcional.

Coprodução como caminho para circulação

Seminário internacional - O cinema latino-americando no mundo: Que internacionalização queremos?
Seminário internacional – O cinema latino-americando no mundo: Que internacionalização queremos? | Créditos: Reprodução/ Foto Leo Fontes/Universo Produção

A busca por maior integração entre os países latino-americanos também apareceu no debate “O cinema latino-americano no mundo: que internacionalização queremos?“, realizado em 24 de setembro. Na conversa, Paulo de Carvalho, Diego Castillo, Ivette Liang, Julia Alves e Monica Delgado discutiram alternativas para produção e circulação de filmes. Entre os pontos levantados, esteve a necessidade de encontrar caminhos mais próximos das condições materiais e das características de cada obra.

A discussão continuou no debate Documentário em circulação: mercados, festivais e novas redes. Desta vez, os participantes discutiram os desafios específicos enfrentados pelo cinema documental, principalmente em relação à distribuição e à construção de públicos. Além disso, a conversa abordou a dificuldade de manter filmes em circulação depois da passagem pelos festivais. Diante desse cenário, o setor busca novas formas de criar proximidade com espectadores e, consequentemente, ampliar as possibilidades de exibição.

Novos caminhos para financiar o cinema

Para além da circulação, a programação também discutiu alternativas para o financiamento do audiovisual independente. A mesa “Além dos fundos: novos ecossistemas de financiamento para o cinema independente” propôs, assim, uma visão mais ampla do setor. Nesse debate, os participantes destacaram que, além da produção, são necessários investimentos em formação, distribuição, exibição e preservação. A preservação, em especial, ganhou atenção diante dos desafios históricos enfrentados pelo Brasil na manutenção de sua memória cinematográfica.

Na sequência, a mesa “Coprodução internacional: entre parceria, financiamento e criação” voltou a discutir as possibilidades de colaboração entre países latino-americanos. A produtora Lei González apresentou o cenário da República Dominicana, onde a indústria audiovisual é sustentada em grande parte por incentivos fiscais. Além disso, ela destacou iniciativas voltadas à ampliação das conexões internacionais do país.

Por sua vez, Renata Pelizon, secretária de Financiamento Adjunta da ANCINE, afirmou que o plano de metas da agência para o audiovisual, previsto para começar em 2026, prioriza a internacionalização por meio de acordos de coprodução. Segundo Pelizon, também estão em discussão novas cooperações com países como França, China, Turquia, Líbano, Geórgia e México. Paralelamente, o objetivo inclui fortalecer acordos já existentes com Portugal, Argentina e Uruguai.

Ainda de acordo com as informações apresentadas durante o seminário, o Fundo Setorial do Audiovisual deverá lançar um edital de R$ 50 milhões para coproduções.

Mulheres ampliam espaços no audiovisual

Outro eixo importante da programação foi o protagonismo feminino. Ao longo do Seminário Internacional, duas mesas reuniram profissionais para discutir autonomia, trajetórias, relações de trabalho e presença das mulheres nos espaços de criação e decisão.

A primeira conversa, realizada em 24 de setembro, teve como tema “Trajetórias, escolhas e conquistas de espaços”. Participaram Sara Silveira, Tania Anaya, Cíntia Domit Bittar e Bruna Linzmeyer.

Entre os assuntos discutidos esteve, sobretudo, a necessidade de construir estruturas materiais e legais capazes de garantir a permanência das mulheres no mercado audiovisual. Já a mesa “Novas perspectivas, novas relações, novos caminhos”, realizada no dia 26, reuniu Anita Rocha da Silveira, Denise Vieira, Cíntia Lima e Leandra Leal.

Dessa vez, as realizadoras falaram sobre modelos de trabalho mais horizontais, baseados em escuta, diálogo e colaboração. Além disso, denunciaram estruturas hierárquicas e abusivas presentes nos sets e relacionaram as formas de produção às possibilidades estéticas e narrativas do cinema.

O festival também exibiu “Ana, en passant” (2026), de Fernanda Salgado, apontado como o segundo longa de animação dirigido por uma mulher em Minas Gerais e o primeiro dirigido por uma mulher negra. Outro destaque foi “Sexa” (2025), primeira experiência de Glória Pires na direção.

20 anos de memória

A edição também marcou a preservação da própria trajetória da CineBH e do Brasil CineMundi. Ao final do evento, foram lançados dois livros que registram esse percurso: “Territórios do cinema: 20 anos CineBH”, organizado por Cleber Eduardo, e “O cinema brasileiro no mundo: 17 anos Brasil CineMundi”, organizado por Pedro Butcher e Lia Bahia.

As publicações reúnem textos de autores e autoras convidados e, dessa maneira, refletem sobre os caminhos percorridos pelo cinema brasileiro e latino-americano ao longo das últimas décadas.

A 20ª CineBH e o 17º Brasil CineMundi integram o Cinema sem Fronteiras 2026, programa internacional de audiovisual idealizado pela Universo Produção. A iniciativa também reúne a Mostra de Cinema de Tiradentes e a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto.

Créditos da capa: Leo Lara/Universo Produção