Seminário Internacional Entre Cinemas reuniu produtores e crítica para discutir circulação de filmes, coproduções e alternativas aos grandes festivais durante CineBH
A internacionalização do cinema latino-americano não precisa depender apenas dos grandes festivais e mercados internacionais. Essa foi uma das questões centrais discutidas no Seminário Internacional Entre Cinemas, realizado nesta quinta-feira (24), durante a 20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte e o 17º Brasil CineMundi.
O debate “O cinema latino-americano no mundo: que internacionalização queremos?” reuniu os produtores Diego Castillo, da Colômbia, Ivette Liang, de Cuba e Colômbia, Julia Alves, do Brasil, e a crítica peruana Monica Delgado. Ademais, a conversa foi conduzida por Paulo de Carvalho, produtor e colaborador do Brasil CineMundi.
Entre os principais temas estiveram as políticas de coprodução, os espaços de formação, os festivais e as possibilidades de circulação dos filmes para além dos circuitos tradicionais.
Internacionalização pode começar dentro da América Latina
Para os participantes, ampliar a presença do cinema latino-americano no exterior não significa necessariamente buscar primeiro os grandes festivais europeus.
Ivette Liang, que atua no laboratório Nuevas Miradas, da Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños, destacou a importância das redes de contato e das coproduções entre países latino-americanos. Assim, a produtora citou a Colômbia como exemplo de país com políticas públicas mais consolidadas para o audiovisual.
Para ela, fortalecer essas conexões pode criar novas possibilidades para projetos que ainda precisam de apoio para sair do papel. Além disso, a proximidade cultural também aparece como um elemento importante nesse processo. “Compartilhamos cultura, idioma, o portunhol, uma história que nos une”, afirmou Liang durante o encontro.
A proposta amplia a discussão sobre internacionalização para além da relação tradicional entre a América Latina e os grandes centros europeus. Desse modo, países da própria região podem funcionar como parceiros de produção, circulação e formação de público.
Coproduções criam novas possibilidades para os filmes
A produtora brasileira Julia Alves também defendeu que a internacionalização pode acontecer sem que os profissionais precisem necessariamente deixar seus países para buscar parceiros. Assim, a produtora destacou a importância do Brasil CineMundi em sua própria formação profissional e afirmou que encontros desse tipo permitem construir conexões entre produtores e projetos.
“Internacionalizar nem sempre é sair de onde se está, mas receber.”
Para a produtora, políticas de incentivo e fundos voltados à cooperação podem aproximar países que não possuem uma tradição consolidada de parceria no audiovisual. Esse tipo de estratégia também pode gerar combinações menos previsíveis entre profissionais, produtoras e mercados. A circulação internacional, nesse sentido, começa ainda durante o desenvolvimento dos projetos.
Grandes festivais não são a única porta de entrada
Outro ponto discutido durante o seminário foi a importância de repensar o peso dos grandes festivais internacionais na trajetória de um filme. O produtor e diretor de arte Diego Castillo chamou atenção para a necessidade de compreender as lógicas da indústria sem necessariamente seguir todas elas.
“Precisamos entender lógicas da indústria, mas nem sempre obedecê-las.”
Segundo o produtor, festivais como Berlim, Cannes e Veneza possuem grande prestígio, mas eventos menores também podem proporcionar uma relação mais próxima entre as obras e seus públicos.
Além disso, a crítica peruana Monica Delgado seguiu uma linha semelhante ao discutir o papel dos festivais menores. Para ela, esses espaços podem oferecer uma experiência mais próxima dos filmes e de seus processos de criação.
A discussão coloca em questão uma lógica de circulação baseada apenas na conquista de espaços considerados centrais pela indústria. Dependendo das características de cada obra, outros circuitos podem oferecer condições diferentes de recepção e diálogo com o público.
A circulação também depende de onde o filme estreia


A estratégia de distribuição foi outro ponto abordado por Julia Alves. A produtora citou “Nosso Segredo”, longa de estreia de Grace Passô, como exemplo das diferenças que podem existir entre a repercussão internacional e a recepção no próprio país de origem.
O filme ganhou notoriedade no Festival de Berlim, mas teve uma trajetória diferente no Brasil. Para Alves, a experiência levanta uma possibilidade: em determinados casos, uma estreia nacional pode ajudar a criar uma base de público antes de alcançar outras audiências.
A ideia amplia a noção de internacionalização. Em vez de representar apenas a saída de um filme para outros territórios, o processo também pode envolver o fortalecimento de sua circulação dentro do próprio país.
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Internacionalização também envolve políticas públicas
A crítica Monica Delgado trouxe ainda a discussão sobre o papel do Estado na circulação internacional do cinema. Ao falar sobre o Peru, Delgado apontou dificuldades relacionadas à preservação e à circulação de narrativas ligadas à memória do país. Nesse contexto, políticas de internacionalização podem ter efeitos que ultrapassam o mercado audiovisual.
Assim, a circulação de filmes também pode contribuir para ampliar o contato de diferentes públicos com histórias, memórias e perspectivas produzidas fora dos circuitos dominantes.
Por isso, o debate não ficou restrito à busca por novos mercados. Os participantes também discutiram quais filmes conseguem circular, quais histórias encontram espaço e quais estruturas são necessárias para que diferentes cinematografias latino-americanas tenham continuidade.
Documentários enfrentam desafios específicos de circulação
As discussões continuaram durante o debate “Documentário em circulação: mercados, festivais e novas redes”, realizado no início da tarde. Com mediação de Ivan Melo, o encontro reuniu Luiz González Zaffaroni, diretor executivo do DOCSP, o documentarista Marcos Pimentel, a diretora executiva Paola Castillo Villagrán e Walter Tiepelmann, diretor do FICBA – International Documentary Film Festival.
O grupo discutiu as particularidades da circulação de documentários e os desafios de encontrar públicos fora dos festivais. Para Paola Castillo Villagrán, os festivais representam apenas uma parte do caminho percorrido por um filme. “Vemos uma parte muito pequena de um espectro maior de divulgação e circulação dos filmes”, afirmou. Assim, a fala aponta para um problema que vai além da distribuição. Mesmo depois de passar por festivais e mercados, muitos filmes ainda precisam encontrar novas formas de chegar ao público.
O que acontece com os filmes depois dos festivais?
A permanência dos filmes depois do circuito de festivais também apareceu entre as principais preocupações do segundo debate. Walter Tiepelmann chamou atenção para a quantidade de produções que não conseguem encontrar novas janelas de exibição depois desse primeiro percurso.
O desafio se torna ainda maior diante da disputa pela atenção do público. Para o diretor, é necessário pensar em novas formas de criar proximidade entre os filmes e espectadores que estão cada vez mais dispersos entre diferentes plataformas e possibilidades de entretenimento.
Assim, a discussão reforça que internacionalizar um filme não significa apenas colocá-lo em um festival estrangeiro. Desse modo, também é necessário pensar no que acontece depois: como a obra continua circulando, encontra novos públicos e constrói uma trajetória que não termine com o encerramento de uma mostra.
Cinema latino-americano busca novas rotas
Os debates do Seminário Internacional Entre Cinemas apontaram para uma internacionalização menos concentrada nos grandes centros da indústria audiovisual. Coproduções entre países latino-americanos, políticas públicas, laboratórios, festivais menores e novas redes de circulação aparecem como alternativas para ampliar o alcance das produções.
Além de buscar um único caminho para a internacionalização, os participantes defenderam a necessidade de considerar as características de cada filme e os públicos que podem receber essas obras.
Serviço
20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte
17º Brasil CineMundi – Encontro Internacional de Coprodução
- Quando: 22 a 27 de setembro de 2026
- Entrada: programação gratuita
- Local: Belo Horizonte (MG)
Mais informações estão disponíveis no site oficial da CineBH.
Créditos da capa: Leo Fontes/Universo Produção
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