Elas vem conquistando espaços no cinema de terror sendo pioneiras em diversos aspesctos

Assim como vários espaços no mundo, inicialmente, dominado por homens, o cinema nunca ficou fora disso. Existe uma disparidade entre divulgação de trabalho e espaço para mulheres como diretoras, editoras e roteiristas no cinema. Se pensarmos no cenário do terror, isso é ainda maior. Porém, no início do cinema, as mulheres eram responsáveis por editar os filmes, devido a pouca importância dada a função na época. Depois que os homens descobriam que esse processo, tinha importância para que o filme seja bem feito. Ainda assim, as editoras tinham seus nomes cortados dos créditos ou assinavam com nomes masculinos, sofrendo um apagamento.

Felizmente, nos dias de hoje, mesmo que ainda não seja o ideal, as mulheres tem seus nomes creditados em diversos trabalhos, reconhecidos e premiados. Dessa forma, mostrando a evolução das mulheres no cinema de terror.

As pioneiras do terror

Quando o assunto é pioneirismo, Alice Guy-Blanche preenche todos os requisitos, ela é a primeira mulher a dirigir um filme do cinema francês. E, provavelmente no mundo.  Foi trabalhando na empresa, L. Gaumont et Cie, como secretária que ela se conectou com o universo cinematográfico. Blanche esteve presente na apresentação dos Irmãos Lumière, e ao presenciar essa e outras produções, ela imaginou como seria colocar elementos ficcionais e adicionar narrativas completas. Assim começaram suas produções totalizando mais de mil filmes. Entre eles The Pit and the Pendulum, de 1913 uma adaptação do conto de Edgar Allan Poe, The Monster and the Girl, em 1914 e The Vampire de 1915.

Um filme que marcou o cinema, é Metrópolis dirigido por Fritz Lang, mas uma mulher é a responsável por essa história. Thea Von Harbou, esposa de Lang, é autora do livro que inspirou a obra, e também escreveu o roteiro ao lado do marido. Sendo importante para o sucesso da produção de ficção científica distópica que conta com elementos de terror.

Mary Shelley e o Monstro

Mary Shelley, autora de "Frankenstein"
Mary Shelley, autora de “Frankenstein”. Crédito: Reprodução

Outro nome pioneiro, que não pode ficar de fora, é da autora Mary Shelley, responsável pelo monstro clássico, Frankenstein. O monstro criado por Shelley uniu medo, ciência e a ética humana, sendo um marco que passa por predoução até os dias de hoje. O Livro de 1818, teve uma adaptação em 1931, dirigido por James Whale, ganhou uma nova versão em 1935, a Noiva Frankenstein com Christopher Lee. Em 1974, Mel Brooks lançou o Jovem Frankenstein, 20 anos depois, Kenneth Branagh dirigiu Frankenstein de Mary Shelley, adaptação fiel ao texto original com Robert DeNiro na pele do monstro. E o mais recente lançado em 2025, por Guillermo del Toro, com Oscar Issac e Mia Goth.

Além dos textos, direção, os designers e ilustradores são essenciais para filmes de terror. São eles que dão forma aos monstros que aterrorizam os espectadores. Assim como, Frankenstein, O Monstro da Lagoa Negra faz parte dos Monstros clássicos da Universal Pictures. E também tem uma mulher importante em sua produção, Millicent Patrick foi a responsável pelo design original da Criatura. Considerada a primeira mulher a criar um monstro em filme de Hollywood. A primeira versão foi modelada com base em uma estatueta do Oscar®. Porém, este modelo foi reformulado de tal forma que o resultado do traje de borracha e látex manteve pouca semelhança com o prêmio.

Durante anos tentaram novas produções para o retorno da Criatura, mas acabou não saindo do campo das ideias. No entanto, em 2017, a criação de Millicent Patrick serviu de inspiração para Guillermo del Toro, no filme A Forma da Água.

Entre mocinhas e vilãs

As mulheres foram retratadas no cinema, muitas vezes como uma donzela em perigo, algo que mudou com o passar dos anos. Principalmente, quando existe a visão masculina e feminina sobre essas personagens. Desde o início do cinema, as mulheres retratadas por homens, possuem uma visão patriarcal sobre sua função na sociedade. Nos filmes de terror, elas normalmente eram vítimas dos vilões, obsessão de monstros, até se tornarem sobreviventes.

Uma das primeiras personagens femininas do cinema de terror, foi Christine Daaé em “O Fantasma da Ópera” (1925). Ela é a jovem cantora perseguida pelo misterioso Fantasma, típica mocinha correndo perigo.

Sadie Frost e Winona Ryder
Dácula de Bram Stoker (1992) / Crédito: Reprodução IMDb

Nos anos 1930, outras personagens femininas ganharam destaque, como Mina Harker em “Drácula“(1931) e Elizabeth em “Frankenstein” (1931), reforçando o papel da mulher como vítima ou objeto de desejo do monstro. Permanecendo assim, das décadas de 20 a 50, já a partir dos anos 60 ganharam aspectos psicológicos mais intensos, mas ainda continuavam sendo mocinhas, e até mesmo acabavam morrendo no meio da trama como Marion Crane em “Psicose” (1960). Ou como em “Bebê de Rosemary” (1968), onde a protagonista, Rosemary sofre com manipulação e paranoia. Mantendo um pouco a imagem de mulher frágil.

A introdução da Final Girl

Essa imagem passa por alguma mudança nesse sentido, a partir da aparição da Final Girl. Essa personagem conhecida por ser uma moça jovem, ingênua e pura que precisa sobreviver o mal, sendo a personagem sobrevivente. A primeira Final Girl, Laurie Strode, surge em “Halloween” (1978), abrindo espaço para novas personagens e mudanças em suas personalidades.

Como Nancy de “A Hora do Pesadelo” (1984) que enfrenta o monstro, indo em direção do perigo, sem precisar de um herói para salvá-la. Assim como Ellen Ripley interpretada por Sigourney Weaver em “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979) que é a grande heroína da saga.

Mulheres criando para mulheres

As mudanças nas personagens nos filmes de terror, são nítidas em diversas produções como Sidney Prescott, em Pânico. Começando o filme como uma mocinha indefesa, mas ao decorrer do seu arco, ela vai amadurecendo e se torna uma sobrevivente forte e amada pelos fãs.

Bem antes de Sidney, uma personagem forte foi Carrie White, de “Carrie – A Estranha”, mas ela também é uma figura do imaginário masculino. Uma garota considerada estranha, com uma mãe extremamente religiosa, que acaba se vingando de todos que a causaram algum mal. Outra personagem de Stephen King, vale a menção, Annie Wilkes, uma vilã interpretada por Kathy Bates em “Louca Obsessão” ela é uma fã obcecada por um autor, que acaba por sequestrar e tortura-lo. Uma personagem forte, com dilemas internos capaz de crueldade, fugindo totalmente do estereótipo da donzela indefesa.

As Jovens Vilãs

A icônica Samara de "O Chamado"
A icônica Samara de “O Chamado” | Crédito: Reprodução/IMDB

Samara Morgan, a vilã de “O Chamado” (2002) adaptação do livro japonês, Ring. A jovem com poderes psíquicos, aterroriza pessoas após a morte através uma fita. Ela não tem muitas falas no filme, mas sua imagem aterrorizante e a história da personagem impactou os fãs de terror. Outra jovem vilã, Esther (Isabelle Fuhrman), do filme “A Órfã” roubou a cena como uma menina que tinha um segredo perverso e coloca toda uma família em perigo.

Com o olhar feminino no roteiro de Diablo Cody e direção de Karyn Kusama, temos Jennifer em “Garota Infernal“, interpretada por Megan Fox, dentro de um personagem que exala sensualidade sem excessos, mas utiliza dessa arma para matar garotos. Quando passou por um ritual satânico e ser possuída por um demônio. O filme tem como foco a amizade entre garotas e como a vida da Jennifer foi totalmente revirada por causa da ambição de um grupo de homens buscando fama.

O terror com visão feminina, aborda temas mais profundos e uma mensagem, como fica claro, em “A Substância” de Coralie Fargeat com Demi Moore e Margaret Qualley. Em que o desejo de permanecer jovem, acaba criando um monstro, abordando como a ditadura da beleza e juventude impacta a vida das mulheres na indústria audiovisual, e de modo geral.

Pelo desenvolvimento do cinema e a participação das mulheres fica nítida a diferença em como as personagens são criadas e desenvolvidas. Antes eram vítimas, sensualizadas e indefesas. Hoje são sobreviventes, vilãs que não precisam de um homem como salvador.  

Créditos da capa: Substância/ Reprodução