Com combates brutais, uma história inédita e uma excelente representação do mutante mais selvagem da Marvel, a Insomniac entrega uma aventura intensa, mas que não consegue escapar de alguns problemas de repetição e linearidade
Wolverine é um dos personagens mais amados da Marvel. Isso é fato. Com décadas de histórias nos quadrinhos, participações marcantes no cinema e uma personalidade que mistura brutalidade, sarcasmo e vulnerabilidade, Logan conquistou uma legião de fãs que há muito tempo esperava por uma aventura solo à altura de sua importância. Quando “Marvel’s Wolverine” foi anunciado, em setembro de 2021, durante um evento da PlayStation, a expectativa foi imediata. Afinal, o projeto estava nas mãos da Insomniac Games, responsável pelo sucesso de Marvel’s Spider-Man, e prometia apresentar uma interpretação mais violenta e visceral do universo dos super-heróis. Mas o caminho até o lançamento esteve longe de ser tranquilo.
Depois de um longo período sem novidades oficiais, o jogo acabou envolvido em uma das maiores crises de segurança da indústria, quando um ataque hacker contra a Insomniac, em dezembro de 2023, resultou no vazamento de mais de 1,6 terabyte de informações, incluindo materiais de desenvolvimento, imagens, vídeos de gameplay e detalhes da história. O episódio expôs conteúdos ainda inacabados e trouxe preocupações sobre o futuro da produção, além de comprometer informações pessoais de funcionários do estúdio.
Mais tarde, com a divulgação de novos trailers e cenas de gameplay, vieram outras discussões: desde a violência explícita, considerada por muitos uma representação necessária do personagem, até críticas à jogabilidade, comparações com outros títulos da Sony e debates que ultrapassaram o próprio jogo, transformando as redes sociais em um campo de batalha. Entre expectativas gigantescas, vazamentos e polêmicas, Logan finalmente chegou ao PlayStation 5 carregando uma responsabilidade considerável: provar que poderia protagonizar uma das grandes experiências de super-heróis da geração.
Esqueça a jogabilidade de “Marvel’s Spider-Man”

Existe uma diferença enorme entre controlar um super-herói e realmente sentir que você está na pele dele. Em “Marvel’s Spider-Man“, a Insomniac Games conseguiu fazer os jogadores experimentarem a liberdade de atravessar Nova York balançando entre os prédios. Agora, com Marvel’s Wolverine, o desafio é completamente diferente: transformar a fúria, a brutalidade e os conflitos de Logan em uma experiência que faça justiça a um dos personagens mais complexos da Marvel.
Lançado exclusivamente para PlayStation 5 em setembro de 2026, Marvel’s Wolverine abandona boa parte da estrutura de mundo aberto dos jogos do Homem-Aranha e aposta em uma aventura de ação mais linear, cinematográfica e violenta. E essa mudança faz bastante sentido. Afinal, Wolverine não é um herói que precisa sobrevoar uma cidade para salvar pessoas. Ele é um sobrevivente marcado por décadas de sofrimento, com um passado fragmentado e uma capacidade assustadora de transformar qualquer confronto em um verdadeiro massacre.
Desenvolvido pela Insomniac Games, o título entrega momentos de ação impressionantes, personagens conhecidos dos quadrinhos e uma interpretação bastante interessante de Logan. Entretanto, algumas escolhas de design impedem que a aventura alcance todo o potencial que seu protagonista merece.
Uma história marcada por violência, mistérios e o passado de Logan
A narrativa apresenta uma versão do universo Marvel na qual os X-Men ainda não foram estabelecidos como equipe. Logan já possui uma longa trajetória de violência, mas continua tentando compreender quem realmente é e o que aconteceu durante os anos que não consegue recordar.
A história começa com o envolvimento do mutante com o Time X, uma equipe que reúne personagens como Mística e Dentes-de-Sabre. O grupo está relacionado a Nathaniel Essex, figura importante na trajetória de Logan e peça central de uma trama envolvendo o desaparecimento, a perseguição e a exploração de outros mutantes.
O principal antagonista inicial está ligado a Bolivar Trask, empresário que utiliza seus recursos para capturar e realizar experimentos com indivíduos dotados de habilidades especiais. A perseguição aos mutantes funciona como pano de fundo para uma narrativa que explora preconceito, manipulação, sobrevivência e os limites da violência.
O roteiro também trabalha a relação de Logan com personagens importantes de seu universo, especialmente Jean Grey, Mística e Dentes-de-Sabre. São relações que ajudam a apresentar diferentes lados do protagonista: o homem desconfiado, o companheiro difícil, o sobrevivente traumatizado e a criatura que parece encontrar na violência sua maneira mais natural de resolver conflitos.
A presença de Jean Grey merece atenção. Sua relação com Logan oferece momentos mais íntimos e ajuda a equilibrar a personalidade explosiva do personagem. Já Dentes-de-Sabre traz rivalidade, provocação e uma relação muito mais profunda do que uma simples disputa entre inimigos.
O problema é que, apesar de apresentar boas ideias, a narrativa nem sempre consegue desenvolver todos os seus conflitos com a mesma força. Existem momentos emocionalmente interessantes, mas algumas revelações e determinados caminhos do roteiro são previsíveis. A história funciona, mas não chega a provocar o mesmo impacto que os melhores momentos de “Marvel’s Spider-Man 2”.
O combate é a verdadeira estrela da produção

Wolverine precisa ser brutal, e a Insomniac entendeu muito bem isso. Diferentemente de Peter Parker, que utiliza agilidade, inteligência e seus lançadores de teia para controlar os adversários, Logan é praticamente uma arma viva. Suas garras de adamantium estão no centro da experiência, e o combate transmite a sensação de controlar um personagem extremamente perigoso.
Os confrontos combinam ataques rápidos, esquivas, aparadas, habilidades especiais e finalizações violentas. Logan pode avançar contra grupos de inimigos, interromper ataques e usar sua força para transformar os adversários em verdadeiros pedaços de carne. Um dos maiores acertos é justamente fazer com que a violência não seja apenas um recurso visual, mas parte da identidade do personagem.
Wolverine não é um herói que precisa derrotar seus inimigos apenas com socos. Quando perde o controle, suas garras fazem o trabalho de maneira bastante explícita. A Insomniac abraça essa característica e entrega uma experiência muito mais sangrenta do que a vista em seus jogos anteriores.
Outro elemento importante é o fator de cura, que influencia diretamente os combates e permite que Logan sobreviva a situações fatais para qualquer personagem convencional. O sistema de fúria também aumenta a intensidade dos confrontos, liberando ataques especiais capazes de causar estragos consideráveis.
Apesar disso, o combate apresenta limitações. Por mais satisfatório que seja, sua estrutura pode se tornar repetitiva ao longo da campanha. Os confrontos são visualmente impressionantes, mas a variedade de possibilidades não acompanha o mesmo ritmo. Faltou mais liberdade e profundidade estratégica para manter a experiência sempre renovada.
É divertido, violento e combina perfeitamente com Wolverine. Ainda assim, um pouco mais de complexidade poderia transformar esse sistema de combate em uma verdadeira referência dentro do gênero.
Uma aventura diferente de Spider-Man

Uma das decisões mais importantes da Insomniac e ao mesmo tempo “polêmica” foi abandonar o mundo aberto tradicional. Quem espera encontrar uma experiência semelhante à dos jogos do Homem-Aranha pode se decepcionar. “Marvel’s Wolverine” apresenta uma estrutura predominantemente linear, com fases direcionadas, momentos cinematográficos, pequenas áreas de exploração e objetivos bem definidos.
A campanha percorre diferentes regiões do mundo, incluindo a natureza canadense, Tóquio e Madripoor. Essa variedade ajuda a renovar o visual da aventura e evita que a experiência fique limitada a um único ambiente.
A exploração existe, mas não é o grande destaque. O jogador pode encontrar itens, materiais de aprimoramento, segredos e atividades opcionais. Entre elas estão as “Portas do Pesadelo”, desafios que misturam combate e movimentação, oferecendo recompensas relacionadas às memórias perdidas de Logan.
Os sentidos aprimorados também aparecem durante a exploração, permitindo identificar rastros, ouvir conversas e encontrar elementos importantes do cenário.
Ainda assim, a liberdade é bastante limitada. Existem barreiras invisíveis, caminhos previamente determinados e situações nas quais o jogo deixa claro que você deve seguir exatamente a rota planejada pelos desenvolvedores.
É uma escolha que funciona para manter o ritmo cinematográfico, mas também reduz a sensação de descoberta. A impressão é que a Insomniac poderia ter aproveitado melhor os ambientes e oferecido mais atividades capazes de enriquecer a experiência.
O visual é digno de uma produção cinematográfica
Visualmente, Marvel’s Wolverine é impressionante. A Insomniac demonstra novamente seu domínio técnico no PlayStation 5, com cenários detalhados, iluminação muito bem trabalhada, expressões faciais convincentes e animações que ajudam a transmitir o peso dos confrontos.
A violência também recebe atenção especial. As garras atravessam os adversários, os impactos são intensos e os ambientes frequentemente terminam cobertos pelo resultado das batalhas.
O design de Logan merece destaque. Sua aparência transmite a personalidade de alguém que passou boa parte da vida enfrentando situações extremas. Não temos apenas um super-herói musculoso com garras metálicas, mas um personagem cuja expressão, postura e movimentação revelam muito de sua trajetória.
As diferentes localidades também ajudam a construir a identidade visual da aventura. Madripoor, especialmente, oferece uma atmosfera interessante, enquanto os ambientes naturais canadenses reforçam o contraste entre a tranquilidade da paisagem e a violência que acompanha o protagonista.
No PS5, o jogo oferece opções gráficas que priorizam desempenho ou qualidade visual, com recursos adicionais no PS5 Pro. O DualSense também contribui para a experiência, utilizando vibrações e gatilhos adaptáveis para aproximar o jogador dos impactos e das ações de Logan.
É uma produção tecnicamente muito competente e que demonstra o cuidado do estúdio com a apresentação.
Atuações e personagens dão personalidade à aventura

Outro ponto positivo está no elenco de vozes e nas interpretações dos personagens. Liam McIntyre assume a responsabilidade de dar vida a Logan e entrega uma atuação que consegue transitar entre a agressividade, o sarcasmo e os momentos de vulnerabilidade. É importante lembrar que Wolverine não é apenas um personagem raivoso. Por trás de sua aparência ameaçadora existe alguém que carrega perdas, traumas e uma dificuldade enorme de estabelecer vínculos. A interpretação consegue transmitir essas contradições.
Troy Baker também participa do elenco como Nathaniel Essex, enquanto Jean Grey e Dentes-de-Sabre ajudam a construir relações importantes para o desenvolvimento da história.
O cuidado com as expressões faciais e a captura de movimentos complementa esse trabalho. Os momentos mais tranquilos, nos quais Logan conversa com outros personagens, são importantes justamente porque oferecem um contraponto à violência constante. Afinal, para que o jogador sinta o peso da brutalidade de Wolverine, também precisa compreender o homem que existe por trás das garras.
O que poderia ser melhor?
Apesar das qualidades, “Marvel’s Wolverine” não está livre de problemas. A repetição dos confrontos, a progressão de habilidades pouco profunda e a exploração limitada acabam comprometendo parte da experiência. Embora o combate seja extremamente satisfatório, faltou maior variedade para manter o mesmo entusiasmo ao longo da campanha. A narrativa também poderia explorar melhor seus personagens e conflitos, especialmente diante da rica mitologia que envolve Logan.
Ainda assim, a Insomniac acerta ao construir uma aventura que respeita a personalidade do mutante. A decisão de abandonar o mundo aberto de Spider-Man funciona bem, permitindo uma experiência mais concentrada na ação e nos conflitos do protagonista. “Marvel’s Wolverine” não representa o melhor trabalho do estúdio, mas entrega aquilo que os fãs esperavam há anos: controlar um Logan brutal, resistente e marcado pelo próprio passado. Suas garras não são apenas armas, sua violência não é um detalhe estético e sua história vai muito além da busca por vingança. E, convenhamos, poucas coisas são tão satisfatórias quanto ouvir aquele clássico som das garras de adamantium sendo liberadas antes de uma boa briga.
Que venha logo um “Marvel’s Wolverine 2” para expandir a experiência e trazer mais personagens clássicos nessa saga fantástica e complexa do nosso amado Logan.
Ficha técnica “Marvel’s Wolverine“
- Desenvolvedora: Insomniac Games.
- Distribuidora: Sony Interactive Entertainment.
- Plataforma: PlayStation 5.
- Lançamento: 15 de setembro de 2026.
- Gênero: Ação e aventura.
- Modo: Um jogador.
- Protagonista: Logan (Wolverine).
- Duração aproximada: 20 horas para a campanha, podendo variar conforme a exploração.
Crédito da capa: Divulgação Sony Interactive Entertainment.
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