Reportagem produzida por Beatriz Azevedo e Maria Paula Lima, sob supervisão de Mário Guedes

Entre recomendações, algoritmos e comunidades de leitores, o TikTok passou a influenciar a descoberta de histórias e a forma como livros chegam ao público.

Antes de chegar às prateleiras de uma livraria, um livro pode aparecer primeiro na tela do celular, ganhar uma indicação e em pouco tempo alcançar milhares de leitores. Com o crescimento do TikTok no Brasil, esse percurso ganhou novos caminhos. No fim de 2025, a plataforma alcançava 80,3% da população brasileira com 18 anos ou mais, segundo dados do DataReportal.  

Esse alcance transformou a rede social em um dos espaços onde leitores descobrem o que vão ler, compartilham opiniões e recomendam novas histórias. O fenômeno ganhou até um nome próprio: BookTok, comunidade formada por criadores e leitores que produzem conteúdos sobre livros, como indicações, resenhas e comentários no Tiktok.

A influência dessas comunidades também já aparece no mercado editorial. Uma pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL), realizada pela Nielsen BookData, apontou que 65% dos consumidores de livros acompanham algum criador de conteúdo sobre livros ou literatura nas redes sociais. Além disso, em 2025, o TikTok foi patrocinador master da Bienal do Livro Rio e levou ao evento espaços e ativações voltados ao BookTok.

No entanto, o caminho entre uma recomendação e a compra de um livro envolve mais do que um vídeo viral. Hoje,
leitores, criadores, algoritmos e editoras disputam a atenção de um público que descobre livros pelas redes.

Uma nova forma de encontrar livros

Sarah Mendes no estande da DarkSide durante a Bienal do Livro, no Rio de Janeiro.
Foi pelo BookTok que Sarah Mendes descobriu seus novos livros favoritos. Na Bienal do Livro, ela continua em busca da próxima leitura. | Créditos: Arquivo pessoal

As redes sociais já ocupam um espaço importante no caminho entre o leitor e o próximo livro. Segundo dados da CBL e da Nielsen BookData, 22% dos consumidores de livros que acompanham lançamentos apontam criadores de conteúdo nas redes sociais como uma das formas de descobrir novas obras. A recomendação, nesse caso, não funciona apenas como uma sugestão. Ela pode colocar um título no radar do leitor, despertar a curiosidade e até influenciar a decisão de incluí-lo na lista de leitura.

Esse processo também muda a maneira como o público pesquisa antes de escolher uma obra. Em vez de depender apenas da sinopse, da capa ou das informações disponíveis nas livrarias, o leitor pode recorrer às experiências de outras pessoas para descobrir detalhes sobre a história, o estilo do autor e até possíveis motivos para não gostar do livro.

É o que acontece com a fluminense Ana Luíza Guimarães. Entre a faculdade de Direito e o estágio, ela encontrou no TikTok uma maneira prática de descobrir novos títulos e pesquisar sobre eles antes de decidir o que ler. Para ela, a plataforma funciona como uma espécie de filtro: além de apresentar histórias que ainda não conhecia, ajuda a entender se determinada obra realmente combina com seus interesses.

“Agora é muito fácil descobrir se um livro tem alguma coisa que te desagrade ou não. É só pesquisar o nome no TikTok que você já tem um monte de informações sobre o plot, o autor ou autora, o tamanho do livro, basicamente tudo.”

Depois da leitura, a relação com as redes pode assumir outro sentido. Aos 21 anos, a carioca Sarah Mendes encontrou no BookTok uma forma de acompanhar os livros além da última página. Para ela, uma experiência marcante de leitura é motivo para dividir com os amigos. “Geralmente compartilho os livros porque tive uma experiência catártica com eles”, conta.

Os relatos mostram como o BookTok pode acompanhar diferentes momentos da experiência literária. A plataforma ajuda a descobrir uma obra, oferece informações antes da escolha e, depois da leitura, abre espaço para que o leitor compartilhe a própria experiência.

O que faz um livro viralizar?

Segundo a pesquisa “BookTok Brasil e as novas experiências literárias”, desenvolvida pelo Reglab, alguns elementos aparecem com frequência entre os livros que conquistam maior visibilidade na plataforma. O laboratório realiza pesquisas sobre tendências e comportamentos no ambiente digital, analisando como as novas tecnologias influenciam hábitos e experiências.

Na estética das capas, o levantamento identifica o uso frequente de cores saturadas ou contrastantes, tipografias que remetem a fontes manuscritas e ilustrações “cartoonizadas”, com elementos relacionados à narrativa. 

Um dos exemplos desse fenômeno é a capa do romance “A Hipótese do Amor”, escrito por Ali Hazelwood. O fundo azul-escuro e vibrante cria contraste com o título, destacando ele nas redes. Enquanto isso, as ilustrações na capa incorporam elementos como béqueres, em referência ao laboratório de biologia onde parte da trama se passa. 

Outro ponto destacado é a busca por histórias que permitam aos leitores se reconhecerem nas narrativas. Esse movimento aparece no interesse por diferentes formas de representatividade, com personagens negros, PCD e LGBTQIA+.

No BookTok, essa identificação também pode ajudar a aproximar determinadas obras do público. É o caso dos livros do escritor brasileiro Vitor Martins, conhecido por romances com protagonismo LGBTQIA+. Em “Quinze Dias”, por exemplo, o autor aborda temas como amadurecimento, descoberta e relações afetivas, elementos que dialogam com experiências de parte do público jovem.

Livros de romance viram fenômeno no BookTok

Entre os conteúdos literários que circulam na plataforma, o romance encontra espaço ao abordar relações, conflitos e experiências que podem ser reconhecidas ou imaginadas pelos leitores. Além disso, a proximidade com situações do cotidiano favorece a identificação com os personagens e ajuda a aproximar essas histórias do público.

Essa conexão também pode ser potencializada pela própria linguagem das redes sociais. Assim, histórias de amor permitem destacar rapidamente conflitos, relações e características dos personagens, criando pontos de identificação que podem ser apresentados em vídeos curtos.

O romance não aparece necessariamente de forma isolada. Desse modo, o gênero costuma se combinar com fantasia, ficção histórica, suspense e outras categorias, ampliando as possibilidades de apresentação de uma obra e permitindo que diferentes comunidades encontrem pontos de interesse na mesma história.

Como os autores transformam tendências em divulgação

Escritora Amanda Zaccaro
Amanda Zaccaro é autora de romances que misturam fantasia e romance. | Créditos: Reprodução/Instagram

Mas a história não é o único fator. A forma como um livro é apresentado também pode determinar se ele chama a atenção nas redes. Para a escritora de ficção cristã Karen Fernandes, o TikTok se tornou um canal importante para a divulgação dos autores. “Existe muito essa busca dos escritores pelo que está dando certo no momento. Mas acredito que um conteúdo bem posicionado e com os ganchos emocionais certos sempre traz bons resultados, afirma. 

Amanda Zaccaro, escritora brasileira e autora best-seller da Amazon, também utiliza elementos populares entre os leitores para apresentar seus livros. Suas obras misturam fantasia e romance, gêneros que podem ser difíceis de resumir em poucas palavras. Desse modo, para facilitar essa identificação, a autora recorre às chamadas “tropes literárias”, expressões usadas para descrever dinâmicas, relações e situações recorrentes nas histórias.

“‘O Dilúvio de Ophelia’ é um livro único e bem diferente do que encontramos de hypado no mercado. Ainda assim, eu várias vezes uso tropes como ‘ele se apaixona primeiro’ ou ‘amor proibido’ para fazer a divulgação do livro. Isso gera familiaridade com o leitor e é mais um argumento para convencê-lo.”

Quem decide o que você lê?

A ascensão do BookTok também traz um debate acerca de uma possível homogeneização do mercado editorial. A lógica da viralização pode estimular criadores de conteúdo a repetir formatos e fórmulas que já conquistaram grande alcance.

Para entender como esse fenômeno acontece, é preciso observar o funcionamento de um dos principais elementos responsáveis por interferir no que aparece para cada usuário: o algoritmo. Assim, no caso do TikTok, as interações de cada pessoa com determinados tipos de conteúdo ajudam a definir quais publicações semelhantes serão recomendadas.

Essa lógica pode reduzir o espaço para histórias que fogem das tendências do momento. Desse modo, se determinados formatos conquistam mais visibilidade e vendas, títulos diferentes podem encontrar mais dificuldade para receber investimento, divulgação e espaço nas prateleiras.

Entretanto, vale ressaltar que o efeito do BookTok não é uniforme. Na verdade, o impacto das comunidades pode variar dependendo do perfil de cada um. Para a escritora Amanda Zaccaro, ainda existe espaço no mercado para todo tipo de escritor e gênero literário, apesar da influência dos algoritmos

“Temos a impressão que um tipo de livro é mais falado do que outro, mas isso é porque as redes sociais nos levam a ter essa impressão. Os algoritmos são treinados para nos trazer aquilo o que mais consumimos, então vivemos em uma bolha. Mas é só sair um pouco desse ambiente para perceber que tem todo tipo de gente lendo e falando sobre todo tipo de livro”

A observação da escritora aponta para uma diferença entre o que aparece com frequência na tela e o que, de fato, representa todo o mercado editorial. O conteúdo recomendado pelo algoritmo é construído a partir do comportamento de cada usuário. Por isso, duas pessoas podem ter experiências completamente diferentes dentro da mesma plataforma. 

Editoras tentam acompanhar os novos leitores

Céfara, editora executiva da Buzz Editora
Céfara Moraes grava conteúdo para as redes da Buzz durante a Bienal do Livro. | Créditos: Reprodução/Nuno Henrique

Em 2025, 18% dos adultos brasileiros compraram pelo menos um livro nos 12 meses anteriores, o equivalente a cerca de 3 milhões de novos compradores. No mesmo período, as vendas das editoras ao mercado cresceram 3,3% em termos reais em relação a 2024. Os dados são, respectivamente, do Panorama do Consumo de Livros, da CBL e Nielsen BookData, e da pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, realizada pela CBL e pelo SNEL com apuração da Nielsen BookData.

Os números ajudam a dimensionar um mercado que ganhou novos leitores ao mesmo tempo em que as redes sociais passaram a ocupar um espaço maior na descoberta de títulos. Para Céfara Moraes, editora executiva da Buzz Editora, essa mudança já é percebida na relação entre leitores e livros. “As redes sociais passaram a ter um peso muito maior na descoberta de livros, principalmente entre o público jovem”, afirma.

Na avaliação de Céfara, porém, a influência das redes não se resume à divulgação. “O leitor quer conversar sobre a história, criar teorias, defender personagens e compartilhar a experiência de leitura”, compartilha. Para determinados gêneros, segundo ela, essa conversa pode ser tão importante para a descoberta de um livro quanto os canais tradicionais.

A experiência da Buzz com o selo NEON, voltado ao público jovem, é um exemplo desse movimento. Durante a Bienal deste ano, “Até que a morte nos contrate”, de Andresa Rios, “Sonho e Pesadelo”, de Marina Dutra, e “Altarin”, de Nicole Oliveira, ocuparam, respectivamente, os três primeiros lugares entre os títulos mais vendidos da editora naquele contexto, somando mais de 4 mil exemplares. De acordo com Céfara, as três autoras possuem comunidades digitais engajadas, e a editora observou a conversa nas redes se transformar em procura pelos livros.

Uma nova cadeia de descoberta

A influência digital, porém, não se limita aos livros que já estão em evidência. O BookTok também pode recuperar títulos antigos e ampliar o repertório de quem chega à plataforma em busca da próxima leitura. No estudo “BookTok Brasil e as novas experiências literárias”, o Reglab identificou a circulação de obras de filosofia e ensaios, além da redescoberta de clássicos como Machado de Assis e Dostoiévski. A pesquisa também aponta que o fenômeno já alcança as livrarias físicas, onde livros associados às tendências da plataforma ganham destaque em vitrines, displays e espaços de curadoria.

Esse movimento muda a própria ideia de lançamento. Um livro não depende apenas do momento em que chega às prateleiras para encontrar seus leitores. Uma publicação pode reabrir o interesse por uma obra anos depois, enquanto uma recomendação entre leitores pode levar um título de um nicho específico para uma audiência muito maior. O caso de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, que voltou a despertar interesse entre leitores jovens após circular no TikTok, mostra como esse processo pode aproximar obras clássicas de públicos que talvez não chegassem a elas pelo caminho escolar ou editorial tradicional.

Mais do que criar sucessos, portanto, o BookTok altera o caminho pelo qual os livros encontram seus leitores. A editora continua responsável por publicar e divulgar uma obra, mas já não controla sozinha sua circulação. Criadores apresentam, leitores validam, comunidades ampliam a conversa e o algoritmo ajuda a decidir quais dessas conversas chegam a mais pessoas.

É nessa combinação que está uma das principais mudanças trazidas pelas redes ao mercado editorial: a descoberta deixou de acontecer apenas diante de uma estante ou de uma campanha de lançamento e passou a acontecer também no fluxo cotidiano das redes. Uma leitura pode começar com um vídeo de poucos segundos, ganhar força nas recomendações de outros leitores e terminar, novamente, em uma livraria. No meio desse caminho, quem ajuda a escolher o próximo livro não é mais uma única voz, mas uma rede inteira de pessoas e plataformas.

Créditos da capa: Reprodução/Sydney Wolfe