Lançado em 1974, “Carrie, a Estranha” voltou ao centro das conversas com a estreia da série de Mike Flanagan na Prime Video, em 7 de outubro. A plataforma liberou os oito episódios de uma só vez e nos primeiros dias, a produção chegou ao topo dos rankings, segundo o FlixPatrol.
Summer H. Howell vive Carrie White e Samantha Sloyan interpreta a mãe, Margaret. Porém, o interesse vai além da novidade, o primeiro romance publicado por Stephen King fala da humilhação coletiva, isolamento e controle dentro de casa. Mais de 50 anos depois esses temas soam bastante atuais.
O Livro que lançou Stephen King
King escreveu “Carrie” no início dos anos 1970, quando dava aula de inglês e morava em um trailer no Maine. Ele chegou a jogar as primeiras páginas no lixo, achando que não prestavam. Sua esposa, a também escritora Tabitha King, as resgatou e o incentivou a continuar.
A editora Doubleday publicou o romance em 5 de abril de 1974, com adiantamento de US$2500. A venda dos direitos da edição em brochura rendeu US$400 mil, valor dividido meio a meio entre King e a editora. Foi esse dinheiro que o ajudou a deixar a sala de aula e viver da escrita. O que começou como um conto abandonado virou o ponto de partida da carreira do escritor.
A história se passa em 1979, na cidade fictícia de Chamberlain, no Maine. Carrie White tem 16 anos, vive isolada e é alvo de chacota dos colegas. O livro mistura a narrativa com recortes de jornal, cartas, depoimentos e trechos de estudos, e por isso o leitor percebe logo no início que uma tragédia aconteceu e passa a leitura tentando entender como.
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Bullying: A Crueldade que vira rotina
No início da obra, Carrie tem a primeira menstruação no vestiário da escola. Sem entender o que acontece, ela entra em desespero e acredita que está sangrando até morrer. Enquanto isso os colegas riem e jogam absorventes sobre ela. A humilhação se soma às agressões que sofre por causa da aparência, das roupas e das crenças religiosas da família.
Mas o romance não responsabiliza apenas quem pratica o bullying. Sue Snell se arrepende e tenta reparar o que fez, enquanto Chris Hargensen transforma a punição escolar em motivo para se vingar. A violência também depende de quem assiste e de quem não consegue ou não tenta impedi-la.
Nas adaptações, esse mecanismo ganha novas formas. No filme de 2013, dirigido por Kimberly Peirce, a cena do vestiário é gravada e compartilhada na internet. Já na série de Mike Flanagan, o cyberbullying integra a narrativa desde o início, com as redes sociais prolongando a perseguição para além dos muros da escola. A tecnologia não muda a essência da humilhação retratada por King, mas amplia seu alcance: O que antes acontecia diante dos colegas pode se espalhar para um público muito maior e continuar circulando mesmo depois que a vítima deixa aquele ambiente.
Fanatismo religioso e a casa que vira prisão
Em casa, Carrie enfrenta outro tipo de violência. A mãe, Margaret White, é uma cristã fundamentalista que vê pecado em quase tudo. Ela nunca explicou à filha o que é menstruação. Quando a menina chega assustada do colégio, Margaret a acusa de ter pecado e a tranca em um armário para rezar.
O alvo da história, portanto, é o extremismo que isola e machuca a garota, e não a fé em si. Margaret mantém um culto próprio dentro de casa e acredita proteger a filha, mesmo a ferindo. O silêncio sobre o corpo feminino pesa tanto na trama quanto às agressões.
A série mexe nessa relação. Em entrevista ao Estadão, Flanagan afirmou que quis uma Margaret que não odeia a filha, e sim que quer protegê-la. O fanatismo dela, segundo o diretor, é mais político e lembra as teorias da conspiração que nascem na internet. Enquanto Carrie vive longe das redes, a mãe enxerga o mundo por um recorte muito específico de informações.
Por que ler o livro?
Mesmo com a série, o romance de Stephen King continua sendo a porta de entrada mais direta para a história. No Brasil, a Editora Suma publicou a obra. O terror do livro não vem apenas dos poderes de Carrie, mas da combinação entre humilhação e isolamento, e de como esses temas continuam atuais. Por isso, a história segue sendo relida e readaptada mais de cinco décadas depois.
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