Homenageada da 20ª CineBH, cineasta paraguaia conversou com o GeekPop News sobre pertencimento, inteligência artificial e o que pode preservar a singularidade do cinema da região no futuro
Há uma coincidência que aproxima a trajetória de Paz Encina da história da CineBH. Em 2026, enquanto a mostra de Belo Horizonte completa duas décadas, “Hamaca Paraguaya”, primeiro longa-metragem da diretora, também chega aos 20 anos.
Homenageada nesta edição do festival, Encina enxerga o encontro das duas trajetórias como algo especialmente significativo. Mas, em conversa com o GeekPop News, seu olhar esteve menos voltado para a celebração do passado e mais para aquilo que pode garantir a permanência do cinema latino-americano no futuro.
Para a realizadora paraguaia, essa resposta passa por elementos difíceis de reproduzir tecnologicamente: identidade, reconhecimento de si mesmo, sentimento e espiritualidade.
Ao falar sobre a importância de ter seus filmes inseridos no contexto do cinema latino-americano, Encina partiu de uma ideia de pertencimento.
“Sou latino-americana. Claro que quero que meus filmes encontrem um lugar no meu continente e dentro de um espaço do qual também me sinto parte”, afirmou.
Para ela, ser reconhecida dentro dessa cinematografia não é apenas uma questão de circulação internacional. Existe uma relação entre as obras, o território de onde elas partem e a comunidade cultural na qual encontram significado.
A coincidência entre os 20 anos de sua estreia em longas e a vigésima edição da CineBH tornou a homenagem ainda mais simbólica.
“Este ano minha ópera-prima completa 20 anos, a Mostra de Cinema de Belo Horizonte também. Para mim é uma coincidência muito bonita estarmos juntos neste momento”, disse.
O que pode preservar o cinema latino-americano
Ao ser questionada pelo GeekPop News sobre o futuro do cinema da região, Encina colocou a identidade no centro da resposta.
Em um cenário audiovisual cada vez mais atravessado por transformações tecnológicas, a diretora acredita que existe uma dimensão do cinema latino-americano profundamente ligada à maneira como seus povos se reconhecem e expressam suas experiências.
“O cinema latino-americano sempre esteve muito preservado por uma coisa muito pequena e muito poderosa que temos. Eu acredito que é nossa identidade, nossa forma de ser”, explicou.
Essa identidade, para Encina, também depende de algo verdadeiro que permanece nas obras e da capacidade de os próprios latino-americanos se reconhecerem.
A resposta dialoga diretamente com a discussão proposta pela própria CineBH em 2026. Com o tema “Cinema latino-americano, o que será?”, o festival procura olhar para as possibilidades de futuro de cinematografias construídas em realidades políticas, econômicas e culturais bastante diferentes, mas que compartilham desafios de circulação e produção.
Encina evita, entretanto, transformar essa diversidade em uma fórmula. O que parece interessá-la é justamente aquilo que nasce das particularidades de cada lugar.
Inteligência artificial é tecnologia, mas não tem sentimento
A discussão também chegou à inteligência artificial.
Questionada sobre o avanço dessas ferramentas em diferentes cinematografias e sobre a possibilidade de o cinema latino-americano preservar uma autenticidade própria diante dessa transformação, Encina tratou a IA como mais uma tecnologia que chega ao audiovisual.
Ela não demonstrou interesse em negar sua existência. O limite, para a cineasta, está em outra parte.
“Entendo que a inteligência artificial está chegando, mas penso que é mais uma tecnologia. Ela não tem propósito, não tem sentimentos. Nós temos”, afirmou.
É justamente nessa diferença que Encina identifica uma possibilidade de resistência.
Se novas tecnologias conseguem interferir nas formas de produção, criação e circulação das imagens, a experiência humana que dá origem a uma obra ainda ocupa, em sua visão, outro território.
“Penso que isso é o que vai nos preservar.”
A fala coloca a tecnologia menos como adversária e mais como um contraste. Para Encina, o futuro do cinema não depende somente das ferramentas disponíveis para produzi-lo, mas do que existe antes delas: quem cria, de onde cria e aquilo que deseja expressar.


“Acredito muito no espiritual dentro do cinema”
No fim da conversa, quando convidada a deixar uma mensagem ao público, Paz Encina rejeitou a ideia de oferecer uma espécie de resposta definitiva.
Disse não saber se possuía uma mensagem que as pessoas ainda não conhecessem. Mas encontrou uma palavra que atravessa sua maneira de pensar o cinema: espiritualidade.
“Acredito muito no espiritual dentro do cinema”, afirmou.
Para Encina, preservar alguma dimensão espiritual na criação também significa preservar algo essencial das obras.
“Na medida em que tenhamos alguma espiritualidade e nos preservemos, existe alguma coisa no nosso cinema que vai permanecer preservada.”
A resposta ajuda a compreender o pensamento que atravessou toda a entrevista. Quando fala em identidade, sentimento ou espiritualidade, Paz Encina não está tentando estabelecer uma definição para o cinema latino-americano.
Sua preocupação parece estar justamente no contrário.
Em um momento no qual o audiovisual discute novos modelos de produção, circulação e até de criação, a cineasta encontra a permanência do cinema em algo muito anterior à tecnologia: na capacidade de uma obra carregar as marcas, experiências e sensibilidades de quem a realiza.
E talvez essa seja uma das respostas possíveis para a pergunta que a CineBH colocou em sua 20ª edição.
O que será o cinema latino-americano?
Para Paz Encina, antes de qualquer ferramenta que venha pela frente, ele continuará dependendo de reconhecer quem somos.
Entrevista: Mário Guedes, diretamente da 20ª CineBH, em Belo Horizonte.
Foto de capa: Foto Leo Lara/Universo Produção
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