Recentemente, Anne Hathaway provocou uma grande comoção no mundo literário. A autora anunciou sua participação na adaptação de “Yesteryear: Bons Tempos”, de Caro Claire Burke, antes mesmo do lançamento da obra. O anúncio então fez com que leitores de todo o mundo quisessem pôr as mãos na obra e entender o que fez com que Hathaway se interessasse tanto.

Na obra, Burke conta a história de Natalie, uma mulher religiosa que usa suas redes sociais para divulgar um modelo de vida que ela considera como o tradicional. Em sua fazenda, ela mostra a rotina com os filhos e o marido perfeito, até que um dia ela acorda e descobre que está no passado, sendo obrigada a realmente viver tudo aquilo que ela pregava na internet, mas que não era tão real assim.

Yesteryear: Bons Tempos

O livro intercala a vida da Natalie antes de se encontrar no passado e a vida dela agora. O primeiro capítulo mostra a vida que ela divulga nas redes sociais. Uma fazenda perfeita e moderna, mas criada para passar a sensação de nostalgia. Filhos perfeitos, o marido dos sonhos e uma paisagem de causar inveja. No entanto, logo no início já descobrimos que nem tudo é tão perfeito assim.

Natalie conta com a ajuda de duas babás, uma produtora e diversos funcionários para comandar a fazenda. A vida tradicional é apenas uma fachada, algo que ela criou e que realmente acredita ser verdade, mesmo quando todos parecem dizer o contrário.

O presente

Um belo dia, Natalie acorda e descobre que sua casa está bem diferente. As paredes não têm mais cor, os eletrodomésticos sumiram e seu celular aparentemente nunca nem existiu. Seu marido parece ser a mesma pessoa, mas ela não reconhece as quatro crianças que a chamam de mãe.

Desesperada, Natalie tenta entender o que aconteceu enquanto busca formas de fugir, mas, em seu íntimo, ela sabe que está presa ali para sempre. Obrigada a lavar as roupas à mão, fazer pães do zero e ser subserviente, ela não tem voz. Precisa obedecer ao marido que é bruto e cuidar das crianças por quem ela nada sente.

Assim, aos poucos, Natalie descobre que o que acreditava ser um sonho, ser um dom divino, é, na realidade, uma grande provação onde seus desejos não importam. Ali, ela é apenas uma serva da vontade do marido e da filha mais velha, Mary, que toma conta da casa e não permite que a mãe ande fora da linha, mesmo que isso signifique usar de medidas extremas.

A evolução de Natalie

Natalie começa se apresentando como uma mulher carismática e preocupada com a família, mas a verdade é que ela é bem diferente disso. Narcisista, a única pessoa com quem se preocupa de verdade é ela mesma. Ela sabe que não pode contar com o marido, que não consegue ser útil em nada, e não tem amigos. A família jamais entenderia sua forma de pensar, então, resta apenas lutar por si mesma.

Nos momentos da vida moderna, ela era uma mulher que sabia se safar de qualquer situação, manipulando tudo e todos. Com uma personalidade fria e a forma dura de lidar com tudo, ela não sente amor nem pela própria filha. Apesar de criticar as outras mulheres da sua idade, até mesmo a irmã, ela transborda de inveja, mas esconde tudo embaixo da sua falsa felicidade.

Já na outra realidade, ela não consegue resolver nada sozinha. Com zero poder, Natalie é uma mulher reduzida à vontade dos outros. Acreditando que isso é uma provação divina, ela encontra na fé um motivo para justificar todas as suas ações. Natalie segue sendo uma mulher fria e ainda se sente superior, acreditando que Deus teria criado toda uma experiência para que ela se reconecte consigo mesma. 

Impressões sobre o livro

É uma leitura indigesta. Normalmente leio livros em que os personagens principais não são tão dúbios assim, mas essa característica existe apenas no início. Natalie começa me fazendo ter empatia em alguns momentos e querendo sacudi-la em outros, mas, com a passagem do tempo, a empatia vai se esgotando e no fim resta apenas incredulidade.

O que eu achei que seria uma crítica ao movimento trad wife vai bem além disso. O livro promove uma reflexão sobre como os movimentos religiosos podem cegar as pessoas a ponto de elas mesmas não enxergarem os próprios erros e como a sociedade está disposta a engolir qualquer discurso de perfeição para escapar da realidade. Natalie acredita verdadeiramente que é uma boa pessoa por viver em uma fazenda como no passado, quando, na verdade, se aproveita dos outros e finge viver uma vida perfeita para provar que as mulheres modernas estão enganadas enquanto secretamente as inveja. 

Admito que tive um grande problema com a resolução. A explicação do motivo pelo qual ela volta ao passado é um pouco bizarra demais para mim. Apesar de fazer todo o sentido, fiquei chocada com como tudo chegou naquele ponto. No fim, é uma leitura que vale muito a pena. Definitivamente merece todo o hype.

Imagem de capa: Reprodução Editora Rocco