De “League of Legends” a “Call of Duty”, jogos que nasceram no PC e nos consoles ganharam versões para celulares e mostram como o mobile se tornou uma plataforma estratégica para a indústria

Durante anos, uma grande franquia de videogame parecia ter um endereço definido. Alguns títulos pertenciam aos consoles, enquanto outros nasceram no PC. O celular ficava associado principalmente a jogos menores, desenvolvidos especificamente para eles.

No entanto, esse cenário mudou. Cada vez mais, empresas estão levando franquias consolidadas para smartphones. E esse movimento não acontece apenas com adaptações simples. Em muitos casos, os estúdios precisam repensar controles, interface, desempenho e até a estrutura dos jogos para que uma experiência criada para outra plataforma funcione no mobile.

O fenômeno revela uma mudança maior na indústria: as franquias estão deixando de ser pensadas para uma única plataforma.

O celular virou uma extensão

O crescimento do mobile ajuda a explicar por que as empresas estão cada vez mais interessadas nesse espaço. De acordo com dados da Newzoo, o segmento movimentou US$ 103 bilhões em receita em 2025, cerca de 55% de todo o mercado global de games. A consultoria também estimou 3 bilhões de jogadores mobile no período.

Esse tamanho transforma o celular em uma plataforma estratégica para franquias que já possuem reconhecimento. Em vez de depender apenas do público de consoles e computadores, as empresas podem levar personagens, universos e mecânicas conhecidas para jogadores que têm o smartphone como principal dispositivo para jogar.

Para o público, isso também muda a forma de descobrir essas franquias. Um jogador pode conhecer “Call of Duty”, “Minecraft” ou “League of Legends” pelo celular antes mesmo de experimentar suas versões de PC ou console. O mobile passa, assim, a funcionar como uma nova porta de entrada para universos que já existem há anos.

Adaptar não significa simplesmente transportar

Jogador testa Wild Rift em smartphone no estande da Samsung, na BGS 2025
Game Test de League of Legends: Wild Rift, no estande da Samsung, durante a BGS 2025 | Crédito: Gabriel Brito de Souza

Existe, porém, uma diferença importante entre levar um jogo para o celular e simplesmente disponibilizar sua versão original em outro aparelho. “League of Legends: Wild Rift” é um exemplo disso. A Riot Games desenvolveu o jogo pensando especificamente nos dispositivos móveis. A experiência precisou considerar controles por toque, interface reduzida e partidas adequadas ao novo formato.

“Diablo Immortal” seguiu uma lógica semelhante. A Blizzard afirma que o título foi seu primeiro jogo construído desde o início para mobile. Assim, a própria equipe precisou adaptar elementos da interface quando levou o jogo posteriormente para PC. Esses casos revelam um padrão: a franquia permanece reconhecível, mas a experiência precisa se adaptar à plataforma.

O smartphone não oferece teclado, mouse ou controles físicos da mesma maneira que um computador ou console. A tela também é menor e os aparelhos apresentam diferentes níveis de desempenho. Por isso, uma adaptação bem-sucedida precisa preservar a identidade do jogo sem ignorar as características do novo dispositivo.

A franquia também passa a circular entre plataformas

A expansão para o mobile não precisa terminar no smartphone. Pelo contrário, algumas empresas passaram a utilizar essas versões como parte de uma estratégia multiplataforma.

O jogo “Diablo Immortal” chegou ao PC com cross-play e progressão compartilhada. A Blizzard explicou que a decisão também levou em consideração a expectativa de que jogadores de PC tentassem utilizar emuladores para jogar a versão mobile. Em vez disso, o estúdio criou uma experiência oficial para o computador.

“Call of Duty: Mobile” mostrou que uma franquia tradicional de console e PC poderia alcançar uma escala enorme no celular. O jogo ultrapassou 35 milhões de downloads nos primeiros três dias após o lançamento, segundo dados divulgados pela Activision. Desse modo, o sucesso ajudou a demonstrar que o mobile poderia funcionar não apenas como complemento, mas como uma das principais portas de entrada para uma franquia.

Quem joga no celular?

Riot Games e Wild Rift na BGS 2025
Os jogadores exclusivos de celular tem nome: mobile gamers | Créditos: Divulgação/Riot Games e Wild Rift na BGS 2025

O crescimento das adaptações também acompanha a consolidação de um público próprio: os mobile gamers. Eles não são apenas jogadores de console ou PC que eventualmente usam o celular. Para uma parcela desse público, o smartphone é a principal ou até a única plataforma de jogos.

Isso influencia a maneira como essas pessoas descobrem e consomem franquias, pois muitas vezes não há contato com a versão original. Essa relação também ajuda a explicar por que as adaptações precisam ser pensadas para o mobile. O público espera controles intuitivos, partidas adequadas ao formato e uma experiência que funcione dentro das características do smartphone, não repetição de mecânica de outras plataformas.

Com isso, os mobile gamers deixam de ser apenas um público adicional para as grandes franquias. Eles passam a fazer parte da estratégia de expansão desses universos e, principalmente entre a nova geração de jogadores, ajudam a consolidar o celular como uma plataforma própria dentro da indústria dos games.

O que as empresas ganham com esse movimento?

O principal ganho para as empresas está no alcance. Uma franquia já conhecida chega ao celular com personagens, universos e uma comunidade formada. Em vez de apresentar uma propriedade nova, o estúdio leva algo que o público já conhece para uma plataforma mais acessível.

Esse movimento também muda a forma como o jogador entra em contato com essas produções. Quem não possui um console ou um computador potente pode conhecer uma franquia pelo smartphone e, depois, explorar outros títulos em diferentes plataformas. Assim, os jogos se tornam mais acessíveis, uma vez que no fim de 2024, 4,4 bilhões de pessoas já usavam seu próprio smartphone para acessar a internet móvel, segundo a GSMA.

Uma indústria menos presa às plataformas

A chegada dessas franquias ao celular não significa que PC e consoles perderam espaço. Pelo contrário, o movimento mostra que as empresas estão deixando de tratar cada plataforma como um território separado. A mesma franquia pode oferecer experiências diferentes em cada dispositivo e, ainda assim, manter uma identidade comum.

Essa lógica também muda o valor de uma adaptação mobile. O objetivo não é necessariamente reproduzir no smartphone tudo o que existe no console ou no PC. A proposta pode ser criar uma experiência pensada para aquele formato, enquanto mantém o jogador conectado ao mesmo universo.

Para as empresas, isso amplia o alcance das franquias e cria novas possibilidades de relacionamento com o público. Já para os jogadores, significa encontrar os mesmos universos em momentos e dispositivos diferentes.

Por fim, o resultado é uma indústria cada vez menos presa à ideia de que cada jogo pertence a uma única plataforma. Para uma geração acostumada a alternar entre smartphone, PC e console, a diferença entre esses espaços tende a ficar menos rígida. Assim, o jogo pode nascer em uma plataforma, conquistar público em outra e continuar a mesma franquia em várias telas.

Créditos da capa: Magnific

Estagiária sob supervisão de Julia Gabriela.