Existe uma ideia bastante equivocada de que o cinema brasileiro precisa escolher entre o drama social, a comédia popular e algumas produções autorais para encontrar seu espaço. Como se aventura, ficção científica, ação e distopia fossem territórios reservados às grandes produções estrangeiras. “Corrida dos Bichos” chega para dar uma bela rasteira nessa percepção.

O cinema nacional vive um momento particularmente interessante. Depois de anos em que produções brasileiras passaram a conquistar cada vez mais espaço internacional, culminando no reconhecimento histórico de “Ainda Estou Aqui“, existe uma sensação de que o nosso audiovisual voltou a ocupar um lugar de maior confiança e visibilidade. E essa confiança também passa por experimentar. Não basta mais provar que o Brasil sabe fazer grandes dramas. Precisamos mostrar que também sabemos construir mundos, produzir ação, trabalhar com efeitos visuais e contar histórias de gênero sem precisar copiar completamente o modelo hollywoodiano.

É nesse cenário que “Corrida dos Bichos” se torna especialmente importante. O longa dirigido por Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento é uma das apostas mais ambiciosas recentes para a ficção científica brasileira. E não estamos falando apenas de colocar uma história futurista diante das câmeras. O filme precisa construir um Rio de Janeiro completamente diferente daquele que conhecemos, inserir uma sociedade distópica, criar uma competição mortal, trabalhar com cenas de ação e efeitos visuais e ainda encontrar uma identidade própria. Meirelles já havia destacado que produções brasileiras de ação enfrentam uma limitação de orçamento quando comparadas às grandes produções internacionais, tornando a realização desse tipo de projeto um desafio particularmente grande por aqui.

Um filme que quer mostrar que é brasileiro

Bruno Gagliasso e Ísis Valverde em Corrida dos Bichos
Crédito: Prime Video/Reprodução

O mais legal de “Corrida dos Bichos” é que ele não tenta esconder sua identidade brasileira — muito pelo contrário. Em vez de criar uma distopia genérica, o filme transforma o jogo do bicho em uma competição brutal de sobrevivência e coloca o Rio de Janeiro no centro de um futuro devastado pelas mudanças ambientais. É uma ideia que nasceu há cerca de 15 anos, quando Ernesto Solis começou a desenvolver uma história que unisse a cidade e o jogo do bicho em uma fábula futurista.

É inevitável lembrar de Jogos Vorazes, Round 6 e outras histórias em que pessoas pobres são transformadas em entretenimento para uma elite, mas “Corrida dos Bichos” encontra sua própria identidade ao adaptar essa lógica à realidade brasileira. Aqui, os Bichos colocam suas vidas em risco enquanto os Jogadores, milionários, transformam a desigualdade em espetáculo. E talvez esse seja o maior mérito do filme: ele quer ser grandioso, ter ação, efeitos visuais e um universo distópico, mas sem abandonar aquilo que o torna brasileiro. Em vez de Nova York ou Londres, temos o Rio; em vez de uma competição genérica, temos o jogo do bicho. “Corrida dos Bichos” pode não ser perfeito, mas tem coragem de experimentar — e o cinema brasileiro precisa cada vez mais de filmes dispostos a correr esse risco.

Basta olhar para o Brasil e imaginar algumas de suas contradições levadas ao extremo

“Corrida dos Bichos” não está interessado apenas em imaginar como será o futuro tecnológico. O próprio elenco já destacou que o filme olha muito mais para as relações humanas e para o futuro social do que para gadgets e invenções futuristas.

O Rio de Janeiro do longa é uma cidade marcada pela devastação ambiental, pela desigualdade e pela transformação completa de sua paisagem. O mar secou, a cidade mudou e aquilo que poderia ser apenas uma consequência de uma catástrofe climática se transforma em terreno fértil para uma nova estrutura de poder.

E então surge a Corrida. Um espetáculo em que os ricos apostam e os pobres correm. Uma frase simples, mas que resume praticamente todo o filme. “Corrida dos Bichos” é, antes de qualquer coisa, uma história sobre pessoas transformando a desigualdade em entretenimento.

E é a partir dessa ideia bastante simples que o filme constrói sua aventura.

Uma ideia simples que sabe onde quer chegar

Cena de Corrida dos Bichos
Cena de “Corrida dos Bichos” | Crédito: Prime Video/Divulgação

Corrida dos Bichos acompanha Mano (Matheus Abreu), um jovem que lidera um grupo rebelde contrário à competição. O problema é que sua posição muda completamente quando sua irmã, Dalva (Thainá Duarte), é colocada como garantia em uma aposta.

Para salvá-la, Mano precisa fazer aquilo que passou a vida combatendo: entrar na Corrida dos Bichos. E aqui está uma das maiores virtudes do roteiro. A história é simples. Muito simples. Mas é por isso que funciona.

Em vez de transformar a trama em um labirinto de explicações sobre como aquele mundo chegou até ali, o roteiro entende que o público não precisa de um PowerPoint de duas horas sobre a formação daquele futuro. O filme apresenta as regras necessárias, mostra as consequências e coloca Mano dentro daquele sistema.

O restante fica por nossa conta. E eu gostei muito disso. A ficção científica não precisa explicar absolutamente tudo para ser interessante. Às vezes, deixar algumas perguntas sem resposta é muito mais eficiente do que entregar uma explicação artificial apenas para fechar todas as pontas.

O filme não explica completamente o que aconteceu com aquele mundo, não detalha cada aspecto da transformação do Rio e tampouco entrega todas as respostas sobre a estrutura daquele sistema. Existem lacunas.

Mas são lacunas interessantes. Porque deixam a sensação de que existe muito mais história naquele universo do que aquela que estamos acompanhando.

E, considerando que Fernando Meirelles já mencionou a possibilidade de outros dois filmes caso a produção tenha sucesso, essa escolha acaba parecendo ainda mais consciente. Não é uma história incompleta. É uma história que sabe que pode continuar.

E, sinceramente, quero saber muito mais sobre esse mundo futurista e os desdobramentos do ocorrido no primeiro filme.

Um elenco de peso

Corrida dos Bichos
Grazi Massafera e Rodrigo Santoro no filme | Crédito: Prime Video/Divulgação

Outro ponto que merece destaque é o elenco. Matheus Abreu assume a responsabilidade de carregar boa parte da narrativa e consegue construir um Mano que funciona por não ser um herói invencível. Ele é alguém colocado em uma situação extrema e obrigado a sobreviver dentro de um sistema que sempre odiou.

Thainá Duarte também funciona bem como Dalva, principalmente na relação com Mano, que dá ao protagonista uma motivação emocional para entrar na competição.

E então temos um verdadeiro desfile de nomes conhecidos: Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Bruno Gagliasso, Grazi Massafera, Seu Jorge, João Guilherme, Silvero Pereira e Anitta, entre outros. O elenco ajuda a dar ao filme aquela sensação de grande produção, mas nem todos os personagens recebem o mesmo cuidado. Destaque para a participação da rapper Azzy, que faz o papel de uma das competidoras no filme. Embora apareça pouco, sempre mostra grande presença e carisma.

E aí chegamos a um dos problemas do longa. Com tantos personagens e um universo tão grande para apresentar, alguns deles acabam subaproveitados. Existem figuras que despertam curiosidade, mas desaparecem rapidamente ou não recebem desenvolvimento suficiente para que suas decisões tenham o mesmo peso dos protagonistas.

É aquela velha maldição do elenco grande: você coloca um monte de gente interessante em cena e depois percebe que não existe tempo suficiente para dar atenção a todo mundo.

E a Anitta?

Corrida dos bichos Annita
Crédito: Prime Video/Divulgação

Sim, precisamos falar dela. Anitta funciona melhor do que eu esperava. Isso não significa que ela seja a melhor atriz do elenco, porque não é. Sua falta de experiência dramática aparece em alguns momentos, principalmente quando precisa dividir cenas mais intensas com atores que possuem uma trajetória muito maior.

Mas também não acho justo transformar sua participação no grande problema do filme. Ela cumpre sua função, tem presença e combina com o tipo de personagem que interpreta. Além disso, sua participação ajuda a colocar o filme diante de um público que talvez normalmente não procurasse uma ficção científica brasileira.

E existe ainda a releitura de “Bichos Escrotos”, dos Titãs, na voz da cantora, que combina perfeitamente com a proposta do longa. É fato que Anitta não é o motivo para assistir a “Corrida dos Bichos”. Mas também está longe de ser um motivo para não assistir.

Onde o filme tropeça

Apesar de todos os méritos, “Corrida dos Bichos” está longe de ser perfeito. O principal problema está naquilo que é também uma de suas maiores qualidades: a simplicidade do roteiro.

Em determinados momentos, ela funciona muito bem. Em outros, deixa a sensação de que o filme poderia ir além. O universo criado é muito interessante, mas algumas regras daquela sociedade são apresentadas de maneira rápida demais. Gostaria de entender melhor como aquela estrutura de poder funciona, como a Corrida se tornou tão importante e até onde vai o controle dos Jogadores.

Alguns personagens também mereciam mais desenvolvimento. Há conflitos que poderiam ser aprofundados e relações que parecem ter potencial para produzir consequências muito maiores. O ritmo também oscila.

O filme funciona melhor quando está colocando seus personagens em situações de perigo ou explorando aquele mundo. Algumas passagens entre esses momentos são mais previsíveis e dão a impressão de que a narrativa está seguindo um caminho bastante seguro.

Esse é o maior problema de “Corrida dos Bichos”. Eem alguns momentos, ele parece ter uma ideia muito maior do que o próprio filme consegue desenvolver. Só que, curiosamente, isso também é o que me deixa interessado em uma continuação.

Corrida dos bichos foto 4
Crédito: Prime Video/Divulgação

Vale a pena assistir “Corrida dos Bichos”?

Vale a pena assistir a “Corrida dos Bichos”, principalmente para quem gosta de ficção científica, distopias e histórias de sobrevivência e quer ver o cinema brasileiro ocupando espaços tradicionalmente dominados por Hollywood. Não espere uma ficção científica extremamente complexa ou cheia de explicações: o filme aposta em uma aventura distópica direta, com ação, crítica social, tensão e uma identidade brasileira bastante marcante.

Apesar de algumas limitações, como personagens que poderiam ser mais desenvolvidos e um universo que deixa muitas perguntas em aberto, seus acertos pesam mais. “Corrida dos Bichos” não entrega todas as respostas porque claramente existe espaço para continuar essa história e termina despertando vontade de conhecer mais daquele mundo. Não é perfeito, mas é corajoso, mistura referências conhecidas com elementos profundamente brasileiros e mostra que nosso cinema também pode se arriscar em produções grandiosas.

“Corrida dos Bichos” está disponível no Prime Video.

Crédito da capa: Prime Video/Divulgação

“Corrida dos Bichos” Brasil, 2026, 2h 04min) – Ficção científica / Ação / Distopia

Direção: Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento
Roteiro: Ernesto Solis, Eva Klaver, Marco Abujamra e Rodrigo Lages
Elenco Principal: Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Bruno Gagliasso, Grazi Massafera, Seu Jorge, Anitta (participação especial), João Guilherme, Silvero Pereira, Thainá Duarte Leandro Firmino, Azzy
Produtor: Andrea Barata Ribeiro, Vinicio Espinosa, Fernando Meirelles
Produção: O2 Filmes, Amazon Prime Video
Fotografia: Gustavo Hadba
Música: Antonio Pinto
Classificação: 16 anos
Distribuição: Amazon Prime Video

Corrida dos bichos poster
Crédito: Prime Video/Divulgação

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