Com uma combinação singular de técnicas, Ana, en passant conta uma história sobre luto, memória afetiva e ancestralidade. A jornada de Ana e Alice revela conexões inesperadas entre suas vidas e mostra como as experiências de quem veio antes continuam presentes na formação de cada pessoa.

A primeira coisa que me chamou a atenção em Ana, en passant foi a animação. É diferente de tudo que eu me lembro de ter visto. O filme mistura imagens com aparência de fotografias e desenhos, criando cenas que me lembraram aquelas fotonovelas que a gente montava na escola, com recortes e imagens. Em alguns momentos, parece que a história foi filmada em live action e depois desenhada por cima. O resultado é muito bonito e faz da animação uma parte essencial da experiência.

A trama acompanha Ana, uma mulher negra franco-brasileira criada em Paris. Depois da morte da avó, ela recebe uma carta e uma fotografia que a levam até Belo Horizonte. As pistas deixadas pela avó apontam para uma missão que não é explicada diretamente, mas aparece nas entrelinhas. Aos poucos, Ana se aproxima de um passado que não viveu, mas que também faz parte da história dela.

Em Belo Horizonte, Ana conhece Alice, uma mulher negra, grávida e dançarina. Ela passa por uma fase complicada da gravidez e busca conforto para si mesma, além de tranquilidade para o bebê que está para chegar. A relação entre as duas cresce à medida que se conhecem, e elas descobrem que têm muito mais em comum do que imaginavam. Outros personagens contribuem para a trama, mas o foco está nesse encontro. A avó de Ana também continua presente, em flashbacks e visões, interpretada por Zezé Motta.

Cena de Ana, En Passant na Feira Hippie de Belo Horizonte. Foto: Embaúba Filmes

O filme que vai do luto a superação

O filme fala de luto, perda, esquecimento e recuperação da memória afetiva. Também fala de ancestralidade, sem tratar o passado apenas com melancolia. Há nostalgia, mas existe sobretudo um resgate de vivências e de vínculos. A história de Ana e Alice vai se amarrando aos poucos, conforme as duas reconhecem as conexões entre suas vidas.

Como belo-horizontino, me senti privilegiado ao ver minha cidade representada em uma animação tão bem feita. A obra passa por lugares que não se limitam aos pontos centrais e turísticos, e quem conhece Belo Horizonte pode reconhecer espaços e paisagens da cidade. Fernanda Salgado também é belo-horizontina e hoje mora em Montreal, no Canadá. Essa relação com BH aparece no olhar que ela dedica aos lugares da cidade.

A parte técnica merece atenção porque é difícil separar a forma daquilo que o filme conta. Ana, en passant combina rotoscopia, animação 2D, colagem, animação termossensível e stop motion. A mistura foi muito bem pensada e montada. Fernanda Salgado dirige e assina o roteiro, Camila Kater responde pela animação, Safira Moreira pela fotografia e Paula Santos pela montagem.

O trabalho de voz também é maravilhoso. O elenco reúne Jéssica Pierina, Zezé Motta, Carlos Francisco, FLIP, Odilon Esteves e Felipe Oládélè. As interpretações ajudam a dar vida às personagens e às relações que conduzem a história.

Um filme que vale a pena ser visto nos cinemas

No fim, fiquei pensando em como o passado participa da construção do nosso futuro. Viemos de nossos bisavós, avós e pais, e a maneira como eles construíram suas vidas também influencia a nossa. Ana, en passant olha para essas relações com sensibilidade e mostra como elas ajudam a moldar a identidade de cada um. É uma animação muito bonita, com uma forma visual marcante e uma história que encontra força na memória, nos encontros e na ancestralidade.

Depois de passar por festivais internacionais e receber prêmios, Ana, en passant estreia nos cinemas em 5 de novembro, com distribuição da Embaúba Filmes.

FICHA TÉCNICA
Direção, Argumento e Roteiro | Fernanda Salgado
Direção de Animação | Camila Kater
Produção | Fernanda Salgado, Victor Dias, Diogo Carvalho, Nuno Beato, Emmanuel Quillet e Martine Vidalene
Produção Executiva | Fernanda Vidigal e Alessandra Casado
Fotografia | Safira Moreira
Montagem | Paula Santos
Direção de Arte | Marcella Tamayo
Música | Metá Metá
Som Direto | Maru Santos
Desenho de Som | Vitor Coroa
Gênero | animação, drama
Técnicas | animação 2D, rotoscopia, colagem e stop-motion
Empresas Produtoras | Apiário (Brasil)
Empresas Coprodutoras | Sardinha em Lata, Apiário (Portugal) e Midralgar (França)
Produtoras associadas | Carapiá FIlmes (Brasil) e Filmes de Vagabundo (Brasil)
Distribuição | Embaúba Filmes
Duração | 90 minutos
País e ano de produção | Brasil, Portugal, França, 2026

Pôster do filme Ana en Passant