Caracas, o título enganou, mas entregou uma excelente reflexão em sua estreia no Festival Italiano de Cinema

Caracas” é um filme indescritível, ambientado em uma versão de Nápoles que lembra Gotham City, onde realidade e sonho se misturam enquanto explora dois absolutismos: um político e outro religioso. Marco D’Amore, autor do filme, descreve sua obra como “mais que indescritível, é um filme inexplicável“.

Distribuído nos cinemas italianos pela Vision Distribution, este é o segundo longa-metragem de ficção dirigido por D’Amore, conhecido pelo papel icônico de Ciro Di Marzio na série Gomorra. Inspirado no livro “Napoli ferrovia” de Ermanno Rea, a adaptação é resultado de uma colaboração entre D’Amore e o roteirista Francesco Ghiaccio, trazendo à tela o diário existencial de um homem, um escritor renomado que retorna a Nápoles após muitos anos para reconciliar-se com sua vida e com a cidade que tanto ama quanto despreza. O resultado é um filme melancólico que transita por planos temporais diferentes, oferecendo momentos de grande expressividade, mas que pode perder a atenção do público em certos pontos.

Uma imersão em ideologias extremas

Crítica | Caracas: Entre ideologias e sonhos, sob um retrato noturno de Nápoles
Crédito: Divulgação

Logo no início do filme, D’Amore nos leva às entranhas de uma ideologia bárbara, a do racismo da extrema direita, ao mostrar um grupo de skinheads nazistas napolitanos, primeiro em seu refúgio e, em seguida, durante um cruel ataque noturno à comunidade muçulmana da cidade. É aqui que conhecemos Caracas, interpretado por D’Amore, um homem em conflito interno, dividido entre a ideologia fascista e o desejo de paz.

Ele admira o Duce, mas ama uma jovem muçulmana, a problemática Yasmina, interpretada pela atriz francesa de origem tunisiana Lina Camélia Lumbroso. Após um ataque violento, vemos Caracas se converter ao islamismo. A narrativa, então, muda o foco para Giordano Fonte (Toni Servillo), um escritor aclamado, mas em crise existencial e profissional. Aproveitando a oportunidade de um prêmio literário, ele retorna a Nápoles, uma cidade que já não reconhece, e anuncia que pretende desistir de escrever.

Realidade e imaginação: Limites indistintos

Crítica | Caracas: Entre ideologias e sonhos, sob um retrato noturno de Nápoles
Crédito: Divulgação

É nessa versão noturna e úmida de Nápoles, com um horizonte distante da cidade e gangues de crianças em fúria, que o desorientado Giordano cruza caminhos com Caracas e estabelece uma amizade inesperada. Caracas torna-se o guia de Giordano nos becos sombrios da cidade, passando por orfanatos e pontos de drogas.

Apesar das diferenças de idade e classe social, os dois homens compartilham a busca por pertencimento: Caracas procura esse senso de identidade nas gangues fascistas, na espiritualidade e, finalmente, em seu amor por Yasmina, enquanto Giordano tenta se encontrar em seus personagens.

O ritmo do filme é contemplativo, com a música de Rodrigo D’Erasmo presente e envolvente, e a linha entre realidade e imaginação se torna perigosamente tênue. Caracas é real ou vive apenas na mente do escritor? “Às vezes, é melhor não saber”, repete a voz narradora de Giordano no início e no final do filme. “Caracas” é uma obra corajosa, com uma abordagem única de direção e uma mensagem clara: independentemente da ideologia, a luz vem de quem nos estende a mão. Contudo, apesar de sua ousadia, o filme lentamente perde força e pode deixar o espectador à deriva ao longo da trama.

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