Era uma vez minha mãe… quantas histórias poderiam começar assim? E talvez seja justamente esse o maior acerto de Era Uma Vez Minha Mãe, dirigido por Ken Scott, transformar algo íntimo e universal em uma narrativa que, mesmo específica, ecoa em qualquer espectador. Porque falar de mães é falar de ausência, presença, conflito e, sobretudo, de marcas que atravessam a vida inteira.
A história de Roland Perez… pela sua ótica
O filme nos apresenta Roland Perez, um advogado francês que nasceu com uma deformidade no pé que o impedia de andar. A partir daí, acompanhamos sua trajetória sob a ótica dele mesmo, em um recorte que atravessa diferentes fases da vida, da infância ao auge profissional. E aqui já fica evidente que Scott não busca o caminho mais simples, a narrativa é fragmentada, emocionalmente guiada e, por vezes, até caótica, como a própria memória costuma ser.
Interpretado na fase adulta por Jonathan Cohen, Roland carrega uma melancolia constante. Não é uma atuação que impressiona pela técnica, mas há uma entrega honesta nas dores, nas angústias e nos ressentimentos de um homem moldado por uma proteção extrema. É justamente nessa camada que o filme encontra sua tensão mais interessante, o amor que protege também aprisiona.
E se Roland é o olhar, Esther é o coração pulsante da narrativa. Vivida por Leïla Bekhti, ela surge como uma figura intensa, obstinada e, muitas vezes, excessiva. Vinda do Marrocos, determinada a oferecer uma vida digna aos filhos na França, Esther não aceita limites, nem médicos, nem diagnósticos, nem a realidade. Bekhti entrega uma atuação firme, contida quando precisa, explosiva quando inevitável, e é impossível não se deixar atravessar por essa mulher que insiste em ver potencial onde o mundo só enxerga limitação.

Parte técnica impressiona e nos aprisiona
Visualmente, o filme é um acerto contínuo. O trabalho do diretor de fotografia Guillaume Schiffman é elegante e preciso, recriando épocas com uma riqueza de detalhes que nunca soa artificial. Figurinos, objetos, carros e ambientações não estão ali apenas como cenário, eles ajudam a construir a passagem do tempo e a evolução emocional dos personagens.
E há ainda um elemento que atravessa tudo isso com delicadeza, a música. A presença de Sylvie Vartan não é apenas uma referência, mas uma extensão afetiva da história. Sua participação, interpretando a si mesma, adiciona uma camada de autenticidade que fortalece o vínculo entre Roland, Esther e o imaginário cultural francês. A trilha sonora, por consequência, se torna uma ponte emocional que conecta passado e presente com naturalidade.
Vale a pena assistir? Quebrando o protocolo, já quero adiantar, sim, vale e muito!
Acho interessante conhecer a história de pessoas assim, que não são exatamente famosas. É a vida de uma pessoa como a de várias por ai, e inevitavelmente nós nos identificamos com alguma parte dela. Roland passou por vários problemas, traumas, decepções, tragédias, mas todas elas passiveis de acontecer com qualquer pessoa.
Acho que por isso esse filme tem um jeito curioso de nos atingir e nos marcar. Admito que fiquei vidrado na tela por vários momentos, algo que achei que não seria possível em se tratando de um filme tão simples. Mas a narrativa, a fotografia, a música, tudo isso junto transforma esse longa em uma obra muito gostosa de assistir, mesmo que na maior parte do tempo acompanhamos a tristeza de um homem que perdeu tanto, sofreu tanto. Mas ele teve uma mãe que o amou até o fim e deu tudo que podia, da maneira dela, para que ele pudesse ser feliz, e no fim essa é a história de várias mães, não é mesmo?
No fim das contas, Era Uma Vez Minha Mãe chega em um momento simbólico, próximo ao Dia das Mães, mas não se limita a ser um filme confortável para a data. Pelo contrário, ele provoca. Ele questiona até onde vai o amor, e quando esse amor começa a ferir. Porque, se por um lado a mensagem parece simples, nenhuma mãe desiste de um filho, por outro, o filme deixa no ar uma inquietação mais profunda, será que todo amor que insiste também liberta?
Foto de capa: Foto: California Filmes
FICHA TÉCNICA
Direção e Roteiro | Ken Scott
Produção | Sidonie Dumas, Sophie Tepper
Casting | Marie-France Michel, Michaël Laguens
Fotografia | Guillaume Schiffman
Montagem | Yvann Thibaudeau
Direção de Arte | Riton Dupire-Clément
Figurino | Anne Schotte
Caracterização | Jane Milon, Aude Cogrel
Música | Nicolas Errèra
Som | Claude La Haye
Título original | Ma mère, Dieu et Sylvie Vartan
Gênero | drama, comédia, biografia
Duração | 102 minutos
País e ano de produção | França, Canadá, 2025
Distribuição | California Filmes

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