Apesar da direção competente de Steven Spielberg e de boas atuações em “Dia D”, o retorno ao universo dos extraterrestres entrega uma experiência agradável, mas longe de ser memorável

Poucos diretores possuem uma ligação tão forte com o tema extraterrestre quanto Steven Spielberg. Desde seus primeiros trabalhos ainda na adolescência até clássicos absolutos como Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. – O Extraterrestre, o cineasta ajudou a moldar o imaginário popular sobre vida alienígena no cinema. É impossível pensar no diretor sem lembrar da clássica cena do E.T esticando o dedinho ou até mesmo dele na caixinha da bicicleta com a lua no fundo.

Por isso, Dia D” (Disclosure Day) chega cercado por uma expectativa enorme. Não estamos falando apenas de mais um filme de ficção científica, mas do retorno de Spielberg a um tema que o acompanha há mais de sessenta anos. O resultado, porém, está muito distante da experiência épica que o marketing e a própria trajetória do diretor prometiam.

E chega a ser curioso que o lançamento aconteça justamente agora, em meio à repercussão de um suposto caso envolvendo extraterrestres que vem viralizando no Brasil. Enquanto muita gente debate possíveis evidências e teorias nas redes sociais, Spielberg retorna ao assunto que ajudou a popularizar no cinema. Infelizmente, desta vez, a realidade das discussões online acaba sendo mais intrigante do que a ficção apresentada nas telonas.

Um filme sobre alienígenas que parece não querer falar sobre alienígenas

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Crédito: Divulgação / Universal Pictures

A premissa do filme é boa. Daniel Kellner (Josh O’Connor) trabalha para a misteriosa Wardex, uma organização responsável por esconder do mundo evidências da existência de vida extraterrestre. Ao descobrir informações comprometedoras, ele decide expor a verdade e se torna alvo de uma enorme operação de perseguição.

Paralelamente, acompanhamos Margaret Fairchild (Emily Blunt), uma meteorologista que passa a desenvolver estranhas habilidades mentais ligadas aos fenômenos extraterrestres.O problema é que o filme raramente explora os aspectos mais fascinantes dessa premissa.

Em vez de mergulhar nos mistérios do contato alienígena, Spielberg e David Koepp constroem um thriller conspiratório que passa grande parte de suas mais de duas horas acompanhando personagens fugindo, sendo perseguidos ou tentando entregar informações secretas. Às vezes, os personagens tomam atitudes tão absurdas que chega a ser até idiota.

A sensação constante é de que existe um filme muito mais interessante escondido dentro daquele que estamos assistindo.

Direção competente, mas sem o encanto do Spielberg clássico

Spielberg continua sendo Spielberg. O cara é competente, isso não tem como negar. “Dia D” traz cenas de ação bem construídas e a narrativa é fluida, o que muitos diretores atuais simplesmente não conseguem alcançar.

Algumas perseguições são empolgantes e lembram o senso de aventura presente na franquia Indiana Jones. Há também momentos visualmente impressionantes que ganham força na experiência IMAX. Mas existe uma diferença enorme entre competência técnica e impacto emocional.

O que falta em “Dia D” é justamente aquilo que sempre diferenciou os melhores trabalhos do diretor, o encantamento. Falta o deslumbramento de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, a emoção de E.T. e aquele sentimento de estar diante de algo especial. Spielberg parece revisitar temas que explorou durante toda a vida, mas sem acrescentar nada de realmente novo a eles.

Um roteiro cheio de ideias conhecidas

O roteiro de David Koepp, baseado em uma história criada por Spielberg, é provavelmente o elo mais fraco da produção.

As teorias da conspiração apresentadas não trazem nada que o público já não tenha visto inúmeras vezes em filmes, séries e documentários sobre OVNIs.

A própria Wardex, organização secreta responsável por esconder a verdade, parece uma versão excessivamente séria de “MIB: Homens de Preto”. Algumas decisões narrativas também exigem uma boa dose de boa vontade do espectador. A lógica interna da trama em determinados momentos parece existir apenas para empurrar a história adiante.

E o pior, quando finalmente chegamos às respostas prometidas, elas soam surpreendentemente simples e pouco inspiradas para um cineasta que passou décadas refletindo sobre o tema.

Emily Blunt salva boa parte da experiência

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Crédito: Divulgação / Universal Pictures

Se existe alguém que realmente brilha em “Dia D” essa pessoa é Emily Blunt. Sua Margaret é disparadamente a personagem mais interessante do filme. As cenas envolvendo suas habilidades psíquicas e sua conexão com os fenômenos extraterrestres possuem energia, humor e mistério suficientes para sustentar uma produção inteira. Sempre que ela está em cena, o filme parece ganhar vida.

Josh O’Connor também entrega um trabalho bom como protagonista, mas seu personagem nunca recebe profundidade suficiente para se tornar memorável. Parece que seu personagem sempre toma decisões ruins.

Colman Domingo entrega presença e carisma mesmo com pouco desenvolvimento. Já Colin Firth interpreta um antagonista genérico, preso a diálogos expositivos e frases de efeito que raramente convencem. Seu Noah parece mais um arquétipo de vilão corporativo do que uma ameaça genuína.

Visualmente bonito, emocionalmente vazio

É fato que “Dia D” é um blockbuster bem produzido. Os efeitos visuais funcionam, a fotografia impressiona e a experiência em IMAX ajuda a ampliar a escala dos momentos mais grandiosos. Spielberg continua demonstrando um domínio técnico invejável, conduzindo as cenas com a segurança de quem ajudou a definir o conceito de blockbuster moderno.

Mas o espetáculo visual nunca compensa a falta de impacto dramático. O filme parece preparar o terreno para algo extraordinário, mas raramente entrega uma recompensa à altura da expectativa que constrói. Falta aquele senso de maravilhamento que sempre foi uma das marcas registradas do diretor.

Quando os créditos começam a subir, a sensação não é de ter assistido ao novo grande filme de ficção científica de Spielberg.

É a sensação de ter assistido a uma versão menos inspirada de ideias que ele próprio executou muito melhor décadas atrás. Embora seja tecnicamente impecável e conte com alguns momentos visualmente impressionantes, “Dia D”nunca encontra a emoção ou a originalidade necessárias para se tornar algo verdadeiramente memorável. O resultado é um bom filme, mas não um filme que deixará marcas.

Vale a pena assistir “Dia D” ?

Dia D foto 3
Crédito: Divulgação / Universal Pictures

Sim, especialmente para fãs de Spielberg e de ficção científica. Mas é importante controlar as expectativas.

“Dia D” marca o retorno de Spielberg ao universo dos extraterrestres, um tema que acompanha o cineasta desde o início de sua carreira e que rendeu alguns dos maiores clássicos do gênero. Embora a experiência em IMAX ajude a valorizar algumas sequências de ação e amplifique os momentos de maior espetáculo visual, nem mesmo a tela gigante consegue transformar o filme na experiência épica que ele claramente deseja ser.

Com uma trama de conspiração pouco inspirada e ideias que parecem recicladas de obras muito melhores do próprio diretor, Dia D acaba ficando distante da grandiosidade, do fascínio e da emoção que fizeram filmes como Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. – O Extraterrestre entrarem para a história.

Isso não significa que o filme seja ruim. Pelo contrário, trata-se de uma produção competente, bem realizada e ocasionalmente divertida. O problema é que ela carrega o nome de Spielberg e revisita uma das maiores obsessões criativas de sua trajetória. Diante disso, ser apenas “bom” acaba parecendo pouco.

Ao final, fica a sensação de uma enorme oportunidade desperdiçada. Um filme agradável de assistir, mas que dificilmente deixará marcas. E, no caso de “Dia D”, talvez o “D” fique mesmo para decepção.

“Dia D” estréia dia 10 de junho nos cinemas.

Crédito da capa: Divulgação / Universal Pictures

Dia D (Disclosure Day) (Estados Unidos, 2026, 2h 25min) – Ficção científica/Fantasia
Direção: Steven Spielberg
Roteiro:  David Koepp, baseado em uma história de Steven Spielberg
Elenco Principal: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth
Produtor: Kristie Macosko Krieger, Steven Spielberg
Produção: Amblin Entertainment
Fotografia:  Patrick Capone, Janusz Kaminski
Música: John Williams
Classificação: 12 anos
Distribuição: Universal Pictures

Dia D poster
Crédito: Divulgação / Universal Pictures

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