De todos os monstros clássicos, a Múmia sempre foi a mais “esquecida”. Enquanto Drácula, Frankenstein e o Lobisomem seguem sendo revisitados à exaustão, ela costuma ficar presa às próprias limitações, quase sempre reduzida ao Egito, a uma maldição antiga e a um vilão pouco desenvolvido.

Mas “Maldição da Múmia” (Lee Cronin’s The Mummy) chega justamente para quebrar esse ciclo. E faz isso sem pedir permissão. Sob o comando de Lee Cronin, o filme abandona qualquer compromisso com a versão clássica e mergulha em algo muito mais íntimo, físico e perturbador. Aqui, a múmia não é só um monstro, é algo mais sobrenatural, mais infernal.

No elenco estão Jack Reynor, Laia Costa, May Calamawy, Natalie Grace e Veronica Falcón. A produção reúne nomes de peso como James Wan e Jason Blum, reforçando a expectativa para um filme que promete tensão constante e atmosfera inquietante. Além disso, Cronin descreveu o projeto como uma experiência intensa, misturando horror sobrenatural e suspense psicológico, em uma narrativa que vai além do susto fácil para explorar trauma, culpa e forças antigas que não deveriam ser despertadas.

Uma nova abordagem: menos aventura, mais pesadelo

A Maldição da Múmia foto 1
Crédito: Warner Bros. Pictures

Quem espera algo próximo de “A Múmia” já digo que vai se decepcionar e talvez ficar com o estômago embrulhado também.

“Maldição da Múmia” começa até flertando com o familiar, com sua ambientação inicial no Egito, mas rapidamente se afasta disso para construir um terror doméstico, centrado em trauma, perda e no medo do que retorna. A premissa do filme é simples e eficiente: Katie (Natalie Grace), filha de um jornalista, desaparece no deserto e reaparece oito anos depois. O problema? Aquela não é mais a mesma criança.

E é nesse ponto que o filme realmente começa. Cronin não está interessado em explicar tudo ou desenvolver profundamente sua mitologia. Ele quer explorar o impacto emocional dessa volta, o desconforto, a estranheza, o luto que nunca foi embora.

Terror corporal e conflito de tons

Maldição da Múmia capa 2
Crédito: Divulgação Warner Bros. Pictures.

Se tem uma coisa que define “Maldição da Múmia”, é o seu compromisso com o grotesco. Lee Cronin abraça o terror corporal sem freio: pele, dentes e movimentos antinaturais são explorados com um nível de detalhe que incomoda de verdade. Em muitos momentos, o filme quer mais te fazer desviar o olhar do que te assustar, e consegue. A criatura aqui está muito mais próxima do horror de “A Morte do Demônio” do que de qualquer múmia clássica, com uma influência clara do filme no comportamento contorcido e quase demoníaco de Katie. O problema é a repetição: algumas cenas insistem tanto na mesma ideia que perdem impacto.

Esse excesso também conversa com o maior conflito do filme: o tom. Ora ele é pesado e sufocante, ora flerta com um humor estranho que quebra a tensão. Essa oscilação nem sempre funciona, especialmente quando a história mergulha no luto dos pais, vividos por Jack Reynor e Laia Costa, que entregam momentos genuinamente perturbadores.

Atuações, ritmo e uma experiência que marca

O equilíbrio vem principalmente do elenco. Natalie Grace é o grande destaque, com uma atuação física inquietante que transita entre o trágico e o aterrorizante com facilidade. Ao redor dela, o drama familiar se sustenta bem, enquanto May Calamawy funciona como ponto de estabilidade em meio ao caos.

Ainda assim, o filme sofre com o ritmo. Com mais de duas horas, se alonga além do necessário e perde força em alguns trechos. O ato final, mais voltado ao espetáculo, funciona, mas destoa do terror mais contido construído até ali.

Mesmo com esses problemas, “Maldição da Múmia” acerta ao reinventar o monstro. Cronin não tenta recriar o clássico, ele desconstrói tudo e entrega algo mais sujo, desconfortável e ousado. Não é um filme para todos: é mais nojento do que assustador e mais perturbador do que épico.

Vale a pena assistir “Maldição da Múmia”

Maldição da múmia foto 4
Crédito: Warner Bros/Divulgação

Vale sim. Temos um filme pesado que quer te chocar de várias formas. Seja no terror corporal, nas possessões ou até mesmo no gore. Não é um filme para todos, ainda mais para aquelas pessoas que possuem um estômago mais fraco. Em certos momentos, parecia que eu estava realmente vendo um filme do universo de “Invocação do Mal”. A expectativa era de que a qualquer momento os Warren iriam aparecer, ainda mais com o avanço do filme, e tudo ficando cada vez pior.

“Maldição da Múmia” funciona muito mais como um cruzamento entre o clima investigativo de “Invocação do Mal” e o terror de possessão de “O Exorcista” do que como qualquer releitura clássica de múmias. O Egito está ali, sim, mas quase como tempero (sabor Egito), um pano de fundo simbólico que dá sabor à maldição, não o prato principal. No lugar de um faraó ressuscitado ou de uma criatura enfaixada tradicional, o filme aposta em algo muito mais abstrato e perturbador: uma presença demoníaca que se manifesta através do corpo, da mente e da deterioração humana. No fim das contas, estamos diante de uma história muito mais sobre possessão, maldição e corrupção do que sobre arqueologia ou mitologia egípcia, e isso muda completamente o jogo.

“Maldição da Múmia” está em cartaz nos cinemas.

Crédito da capa: Warner Bros/Divulgação

Demolidor: Maldição da Múmia (Lee Cronin’s The Mummy EUA, 2026, 2h 13min)
Direção: Lee Cronin
Roteiro: Lee Cronin
Elenco Principal: Jack Reynor, Laia Costa, May Calamawy, Natalie Grace
Produtor: James Wan, Jason Blum, João Keville
Produção: New Line Cinema, Monstro Atômico, Blumhouse
Fotografia: 
Música: 
Classificação: 18 anos
Distribuição: Warner Bros Pictures.

Poster Maldição da Mumia
Crédito: Warner Bros/Divulgação