O universo pop e geek sempre contou com a presença das mulheres, que agora assumem cada vez mais um lugar de protagonismo, autonomia e fortalecem o empreendedorismo feminino
Reportagem realizada por Lidia Lindsipe e Raísa Souza
O empreendedorismo feminino ganha cada vez mais força no Brasil. No universo geek, esse movimento encontra um terreno fértil. Mulheres transformam paixão por animes, séries e cultura pop em fonte de renda, autonomia e identidade profissional.
Esse processo não acontece por acaso. Ele surge da combinação entre criatividade, necessidade e oportunidade. Muitas dessas empreendedoras começam cedo, aprendem sozinhas e constroem seus próprios caminhos dentro de um mercado que ainda enfrenta desigualdades.
Nesse cenário, o empreendedorismo feminino vai além da geração de renda. Ele também representa independência, amadurecimento e espaço de pertencimento. Ao criar seus próprios negócios, essas mulheres ocupam um lugar ativo dentro da cultura geek, não apenas como consumidoras, mas como protagonistas.
As presença das mulheres no mundo geek
O universo nerd sempre contou com a presença feminina. No entanto, a participação e protagonismo das mulheres dentro desses espaços segue em um movimento crescente.
De acordo com a pesquisa Geek Power 2024, desenvolvida pela Go Gamers em parceria com a Omelete Company, as mulheres são maioria no mundo geek. Segundo a pesquisa, que aconteceu entre 31 de outubro e 13 de novembro de 2024, com 7.281 participantes, o público femino corresponde a 57% do universo. Na edição de 2019 da mesma pesquisa, as mulheres representavam apenas 37% dos entrevistados.
Para além de Hermione Granger,Nezuko Kamado, Ellie Williams e Alice Abernathy, as mulheres também ocupam um espaço de protagonistas na vida real, através do empreendedorismo feminino geek. É nesse ambiente que muitas encontram liberdade financeira e o prazer de trabalhar com o que as faz feliz.
De acordo com Rayane Nogueira, Professora de Empreendedorismo da IBS América/Sebrae, em entrevista ao GeekPop News, o empreendedorismo geek abre uma porta muito potente porque “É parte de algo que muitas mulheres já conquistaram que é o repertório e a paixão sobre esse universo. Quando uma mulher transforma isso em negócio, podendo ser com conteúdo, produtos (bijus, camisetas, canecas), eventos ou serviços, ela deixa de ser só consumidora e passa a ocupar um espaço de geração de renda.” Para ela, é algo que vai além da renda, “é sobre autonomia e empoderamento feminino.”.
Como o empreendedorismo feminino geek muda a realidade de muitas mulheres
O empreendedorismo feminino é o movimento de criação, gestão e administração de empresas por mulheres. Este movimento engloba desde pequenas empresas até grandes negócios e é através deles que o público feminino se organiza não apenas como donas dos negócios, mas também nos cargos de liderança.
Além disso, a cultura geek é um fenômeno que se expande dos quadrinhos, séries, filmes, livros e animes e se faz presente no consumo. Isso demanda lojas e serviços que tenham produtos temáticos e itens personalizados. Assim, a cultura fomenta a necessidade desse tipo de empreendedorismo.
Rayane comentou sobre, além de tudo, esse tipo de empreendedorismo criar uma ideia de pertencimento e representatividade dentro do universo nerd:
“O universo geek ainda é um espaço onde muitas mulheres cresceram se sentindo deslocadas ou precisando provar que pertencem a ele. Quando elas começam a empreender nesse meio, acontece uma virada de chave, elas deixam de pedir espaço e passam a criar espaço. Uma mulher que empreende nesse nicho abre caminho para outras garotas se enxergarem ali também.”
Os principais desafios enfrentados nesse mercado
Apesar do crescimento do setor, o caminho não é simples. Muitas empreendedoras, ainda assim, enfrentam inseguranças, falta de apoio e pressão constante para se provar no mercado.
Maria Menezes, criadora da Kaori Shop, relembra que começou muito jovem. Durante a pandemia, ela decidiu transformar o tempo livre em uma oportunidade.
“Eu tinha 14 anos e comecei pintando tecidos. Depois, com o tempo, passei a personalizar camisas e as pessoas começaram a encomendar”, explica.
O negócio cresceu gradualmente, mas o processo exigiu adaptação constante. “Muitos testes deram errado, fui aprendendo aos poucos e isso mudou minha realidade financeira, além da forma como eu via o meu trabalho”, afirma.
Além dos desafios técnicos, existem também barreiras emocionais. Maria conta, por exemplo, que teve dificuldades ao se expor como modelo da própria marca. “Eu tinha vergonha de aparecer. Era insegurança mesmo e, hoje, estou me adaptando, mas foi um processo”, diz.
O ambiente geek, por outro lado, também oferece apoio. A presença de outras mulheres, segundo ela, faz diferença. “Nos eventos, encontro muitas mulheres que apoiam, o que traz mais conforto e segurança”, completa.

A artista independente Cat, da loja Deartcass, compartilha uma trajetória semelhante. Desde a adolescência, ela frequentava eventos geek, mas não encontrava produtos que representassem seus interesses. Essa ausência, por isso, virou motivação.
“Eu sempre gostei de desenhar. Quando um amigo sugeriu que eu participasse do Artist’s Alley, eu achei que não era boa o suficiente, mas levei essa ideia comigo mesmo assim”, conta.
Determinada, ela passou um ano inteiro se preparando. “Planejei minha loja, criei produtos e, no ano seguinte, voltei ao evento como artista. Foi ali que percebi, então, que queria isso para a minha vida”, relembra.
Os obstáculos, ainda assim, apareceram. A falta de apoio foi um dos principais. “Muita gente disse que não ia dar certo. Empreender já é difícil e, como artista, é ainda mais desafiador”, afirma.
A rotina também exige dedicação constante. Ela explica que pensa no trabalho o tempo todo, com ideias, fornecedores e eventos ocupando sua mente, ou seja, não existe uma pausa completa.
Mesmo com as dificuldades, ela destaca o lado positivo. “Trabalhar com o que eu amo faz tudo valer a pena”, conclui.

Dicas para mulheres que estão começando no empreendedorismo feminino geek
Empreender no mundo geek pode parecer desafiador, mas pode trazer vantagens e ser uma ferramenta de representatividade e liberdade financeira para muitas mulheres. Por isso, é importante compreender sobre esse universo antes de começar um negócio.
Para Rayane, três passos são essenciais antes de começar: é preciso não romantizar o processo, aprender a se comunicar desde o início e respeitar seu ritmo e sua realidade. Afinal de contas, o contexto é um fator importante, mas não limitante. Para ela:
“Empreender dá liberdade, mas também dá muito trabalho e exige constância. Você pode ter um produto incrível, mas se ninguém entende, não vende. E não se deve comparar com quem já começou com estrutura e apoio. Principalmente para mulheres e ainda mais para mães, o desafio não é falta de capacidade, muitas vezes é excesso de tarefas.”
Para Maria, a principal dica é se jogar na criatividade. “Não só nos produtos mas principalmente nas divulgações deles. Tenham ideias e não tenham vergonha delas. Se joguem nas suas ideias e puxem o máximo de pessoas que possam te apoiar e te ajudar nas suas ideias mirabolantes! Os clientes amam quando você coloca sua alma no seu trabalho”, comenta.
Outro fator importante é ter a coragem de começar. Para Cat, “Não importa como ou se não tem dinheiro para investir. Eu comecei pedindo de presente de natal para a minha família para poder mandar fazer adesivos e prints numa gráfica local e fazer encomendas de arte digitais. Mesmo que você comece online ou indo em feirinhas, mas dê o primeiro passo!”
Além disso, a artista também destaca a importância da divulgação. “Principalmente, lembre-se de ser notada. Se divulgue, fale com amigos e mostre o seu trabalho na internet ou por aí mesmo, e lembre de sempre fazer aquilo que você gosta de verdade, só assim que vai dar certo!”, comenta.
Foto de capa: Freepik
Estagiárias sob supervisão de Mário Guedes
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