Em resposta ao GeekPop News durante a 20ª CineBH, Sol Iglesias SSK, Rocío Barbenza e Sebastián González discutem criação, crise, tecnologia e resistência no audiovisual da região.
O que será do cinema latino-americano diante de um continente atravessado por crises econômicas, transformações políticas, dificuldades de financiamento e mudanças cada vez mais rápidas na maneira de produzir e consumir imagens? A pergunta, feita pelo GeekPop News durante a coletiva com realizadores das Mostras Competitivas Território e Horizonte da 20ª CineBH, encontrou respostas diferentes, mas conectadas por uma mesma percepção: pensar o futuro do audiovisual na região passa, antes de tudo, por encontrar maneiras de continuar criando no presente.
Sol Iglesias SSK, diretora e protagonista de Los Nadadores, Rocío Barbenza, diretora de Desierto Vértigo, e Sebastián González, codiretor de Si vas para Chile, partiram de experiências distintas para refletir sobre esse cenário. Nas respostas, apareceram temas como escassez de recursos, hegemonia das plataformas, colonialismo, inteligência artificial, redução de espaços de exibição e a necessidade de fortalecer redes entre artistas.
Mais do que tentar prever quais histórias o cinema latino-americano contará nos próximos anos, os realizadores colocaram outra questão sobre a mesa: quais estruturas, linguagens e relações precisarão ser reinventadas para que essas histórias continuem sendo feitas?
Imaginar também pode ser uma forma de resistência
Para Sol Iglesias SSK, pensar o futuro exige recuperar justamente aquilo que períodos de crise tendem a limitar: a capacidade de imaginar. A diretora de Los Nadadores defendeu a fantasia não apenas como gênero cinematográfico, mas como ferramenta para romper com uma visão da América Latina constantemente presa às próprias feridas.
Segundo a realizadora, existe uma tendência de observar o continente apenas pelo hiper-realismo de seus problemas, enquanto imaginar permite levantar o olhar e conceber outras possibilidades. Nesse sentido, fantasia e imaginação passam a ocupar também um lugar político dentro da criação artística.
Essa liberdade, porém, não estaria limitada às histórias contadas na tela. Sol estendeu a ideia aos próprios modelos de produção. Diante da escassez de recursos e de um ambiente fortemente atravessado pelas plataformas e por determinados discursos, a saída estaria em utilizar de maneira criativa as ferramentas disponíveis.
“Criar arte é uma forma de luta”, afirmou durante a coletiva, defendendo que a dificuldade material não deve significar a interrupção da produção artística.
A colocação ganha ainda mais significado quando observada a partir de Los Nadadores. Realizado quando Sol e integrantes de seu coletivo tinham cerca de 22 anos, o filme apresenta uma juventude diante de um cenário apocalíptico marcado por uma onda de calor extrema, apagões e deslocamentos. O apocalipse da ficção, nesse caso, também dialoga com uma geração tentando imaginar caminhos em meio a um presente instável.


Antes de imaginar o futuro, é preciso fazer o presente
Rocío Barbenza partiu de outro ponto da mesma discussão. Diretora de Desierto Vértigo, coprodução independente entre Argentina e Chile, ela destacou a dificuldade atual para conseguir financiamento, especialmente quando os projetos se afastam das narrativas e modelos de produção considerados hegemônicos.
Para Rocío, entretanto, esse cenário não diminui a necessidade de fazer cinema. Pelo contrário. A realizadora defendeu que a produção artística se torna ainda mais urgente justamente nos períodos de crise.
“Nós precisamos imaginar o futuro, mas também precisamos urgentemente fazer o presente”, resumiu.
Essa urgência também pode abrir espaço para uma transformação das linguagens. Em vez de reproduzir modelos consolidados, Rocío defendeu maior irreverência e filmes capazes de romper limites narrativos e produtivos. Para ela, momentos de dificuldade podem ser justamente aqueles em que os realizadores precisam deixar de pedir licença para existir.
A diretora também ampliou a discussão para dentro do próprio audiovisual latino-americano. Ao mencionar sua experiência como cineasta de Buenos Aires, questionou as relações entre centros culturais e periferias, os mecanismos de hegemonização existentes entre os próprios realizadores e a necessidade de criar espaços para outras formas de produzir, pensar territórios e construir narrativas.
Festivais como a CineBH aparecem, nesse contexto, como lugares importantes não apenas para a exibição dos filmes, mas para o encontro entre cinematografias que muitas vezes permanecem fora dos principais circuitos.
Comunidade diante de um mundo em transformação
Sebastián González levou a conversa para outra transformação que já começa a alterar profundamente o audiovisual: o avanço da inteligência artificial e seus possíveis impactos sobre o trabalho.
Para o codiretor de Si vas para Chile, a sociedade atravessa um momento histórico de mudanças aceleradas, no qual grandes investimentos tecnológicos podem modificar estruturas produtivas e relações de trabalho. Diante desse cenário, ele destacou a importância de artistas se reorganizarem coletivamente.
A reflexão também passou pela própria função de uma obra. Sebastián questionou qual seria o sentido de uma expressão artística incapaz de encontrar público, gerar discussão ou provocar algum tipo de encontro. O desafio, portanto, não termina quando o filme fica pronto.
Num ambiente em que fundos começam a diminuir e espaços de exibição se tornam mais escassos, construir redes passa a fazer parte da própria sobrevivência artística. O diretor citou como exemplo uma iniciativa surgida em Santiago, no Chile, aproximando profissionais de diferentes áreas, como escritores, músicos e cineastas, para criar formas de apoio mútuo.
Sua resposta terminou menos como uma previsão sobre tecnologia ou mercado e mais como uma defesa da capacidade humana de atravessar períodos difíceis. Mesmo diante de crises, González ressaltou que ainda existem possibilidades de conexão, inspiração e construção coletiva.
As três respostas apontam, portanto, para um futuro que dificilmente será definido apenas pelas telas. Para Sol Iglesias SSK, será preciso imaginar. Para Rocío Barbenza, agir no presente. Para Sebastián González, encontrar outras pessoas dispostas a construir coletivamente.
Talvez esteja justamente nessa combinação uma das respostas possíveis à pergunta lançada pela própria CineBH. O futuro do cinema latino-americano não parece surgir como algo pronto à espera dos realizadores. Ele precisará ser inventado enquanto acontece.
Esta matéria chegou até você de graça. Produzi-la, não.
O GeekPop News é um projeto de jornalismo cultural independente. Seu apoio ajuda a manter nosso trabalho e a construir os próximos anos do portal.
Apoie a partir de R$ 10 por mês. Clique aqui e faça sua doação!














