Nova regra da Academia criou uma segunda porta de entrada para Melhor Filme Internacional; entenda como “Feito Pipa” e “Vicentina Pede Desculpas” poderiam chegar à mesma categoria

O Brasil já tinha escolhido seu representante para o Oscar 2027 quando uma mudança nas regras da premiação abriu uma possibilidade inédita. Pela primeira vez, o país poderia ter dois filmes brasileiros na disputa por uma indicação a Melhor Filme Internacional.

A produção escolhida oficialmente pela Academia Brasileira de Cinema foi “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton. O longa venceu a seleção nacional em setembro e passou a representar o Brasil no caminho tradicional até a premiação.

Ao mesmo tempo, “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, concorria ao Platform Award do Festival Internacional de Cinema de Toronto. Caso vencesse a competição, o filme poderia conquistar elegibilidade direta ao Oscar, mesmo sem ter sido escolhido pela comissão brasileira.

A possibilidade chamou atenção porque, até então, a seleção oficial de cada país era o principal caminho para um filme chegar à categoria. Para 2027, porém, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas criou uma segunda rota.

O que mudou nas regras do Oscar?

A partir da 99ª edição do Oscar, um filme em língua não inglesa pode chegar à disputa por Melhor Filme Internacional de duas maneiras. A primeira continua sendo a tradicional: cada país ou região participante escolhe oficialmente uma produção para representar sua cinematografia. Apenas um filme pode ser enviado dessa maneira por cada país.

A segunda possibilidade surgiu com a mudança aprovada pela Academia para o Oscar 2027. Um filme também pode ser submetido à categoria caso conquiste um prêmio específico em um dos festivais internacionais reconhecidos pela organização. A lista reúne seis festivais:

  • Festival Internacional de Cinema de Berlim, com o Urso de Ouro;
  • Festival Internacional de Cinema de Busan, com o Busan Award;
  • Festival de Cannes, com a Palma de Ouro;
  • Festival de Sundance, com o World Cinema Grand Jury Prize;
  • Festival Internacional de Cinema de Toronto, com o Platform Award;
  • Festival Internacional de Cinema de Veneza, com o Leão de Ouro.

Na prática, a mudança permite que um filme consiga uma rota própria até a categoria sem ocupar a única vaga reservada à seleção oficial de seu país.

É aí que entra “Vicentina Pede Desculpas”

Vicentina Pede Desculpas | Crédito: Divulgação
Vicentina Pede Desculpas | Crédito: Divulgação

Foi justamente essa nova regra que colocou “Vicentina Pede Desculpas” no radar do Oscar 2027.

O longa de Gabriel Martins integrou a competição Platform do Festival de Toronto, uma mostra dedicada a produções internacionais. O vencedor do Platform Award receberia não apenas o prêmio do festival, mas também uma via direta de elegibilidade para Melhor Filme Internacional no Oscar.

Isso criava um cenário diferente para o Brasil. Enquanto “Feito Pipa” seguiria pelo caminho da escolha nacional, “Vicentina Pede Desculpas” poderia chegar à mesma categoria por meio do resultado de Toronto. Assim, os dois filmes poderiam avançar simultaneamente para as etapas de avaliação da Academia.

Mas o Brasil não pode escolher dois filmes?

Não pelo processo tradicional.

A nova regra não permite que a Academia Brasileira de Cinema envie dois filmes como representantes oficiais do país. A seleção nacional continua limitada a uma produção. O que mudou foi a possibilidade de um segundo filme conquistar elegibilidade por conta própria, desde que cumpra uma das condições estabelecidas pela Academia.

Por isso, o caso brasileiro não representaria duas escolhas da comissão nacional. Seriam dois filmes chegando ao processo por caminhos diferentes. Essa distinção é importante porque elegibilidade não significa indicação.

Mesmo depois de conquistar uma dessas portas de entrada, o filme ainda precisa passar pelas etapas de votação da Academia até chegar à lista final de indicados.

O que aconteceu com “Vicentina Pede Desculpas”?

A possibilidade brasileira acabou não se concretizando.

“Vicentina Pede Desculpas” não venceu o Platform Award do Festival de Toronto. O prêmio ficou com “Angh”, dirigido pela cineasta indiana Theja Rio. Com isso, o longa brasileiro perdeu a rota alternativa de elegibilidade criada para o Oscar 2027.

O resultado significa que “Feito Pipa” permanece como o representante oficial do Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional. Ainda assim, a trajetória de “Vicentina Pede Desculpas” não terminou. O filme segue no circuito internacional e participa da competição principal do Festival de San Sebastián, na Espanha.

E “Feito Pipa”?

Yuri Gomes em "Feito Pipa", filme que representará o Brasil no Oscar
Yuri Gomes em “Feito Pipa”, filme que representará o Brasil no Oscar | Créditos: Jamille Queiroz

“Feito Pipa”, de Allan Deberton, foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema entre 15 filmes inscritos. A produção chegou à fase final da seleção ao lado de “100 Dias”, “A Fabulosa Máquina do Tempo”, “A Natureza das Coisas Invisíveis”, “Nosso Segredo” e “Vicentina Pede Desculpas”.

O longa acompanha Gugu, um menino que vive com a avó no Ceará. Quando a saúde dela piora, ele tenta evitar uma possível separação e a necessidade de morar com o pai, Batista, interpretado por Lázaro Ramos.

A escolha brasileira, no entanto, ainda não garante uma indicação ao Oscar. O filme precisa passar pelo processo de avaliação da Academia até a definição dos indicados. A lista final será anunciada em 21 de janeiro de 2027.

Uma mudança que pode alterar a corrida internacional

A nova regra não foi criada especificamente para o Brasil. Ela vale para todos os países e modifica a forma como produções em língua não inglesa podem chegar à categoria.

Na prática, a Academia passou a reconhecer determinados resultados em grandes festivais como uma segunda porta de entrada para a disputa. Foi essa alteração que criou, por alguns dias, um cenário inédito para o cinema brasileiro: “Feito Pipa” pelo caminho oficial e “Vicentina Pede Desculpas” por uma premiação internacional.

Embora o resultado de Toronto tenha encerrado essa possibilidade para os dois filmes em 2027, a mudança permanece válida para a edição do Oscar. Com isso, outros países também poderão ter mais de um longa elegível à categoria por caminhos diferentes.

O Oscar 2027 acontece em 14 de março, em Los Angeles. Até lá, “Feito Pipa” segue como o filme brasileiro oficialmente submetido à disputa por Melhor Filme Internacional.

Créditos da capa: Jamille Queiroz