A “dessaturação” das cores divide opiniões e levanta debates sobre realismo nas telas

Quem acompanha filmes e séries há anos provavelmente já percebeu uma mudança visual nas produções recentes. Cenas gravadas durante o dia parecem mais escuras, enquanto as cores vibrantes que marcaram diferentes épocas do cinema surgem com menos frequência. 

O fenômeno, cada vez mais discutido entre espectadores e especialistas, está ligado a uma tendência conhecida como dessaturação das cores, que privilegia tons neutros e discretos em detrimento de paletas mais intensas.

Segundo a jornalista Larissa Barros, a cinematografia contemporânea tem adotado uma estética baseada em cores menos saturadas. Dessa forma, tonalidades consideradas mais vivas ou “pop” acabam cedendo espaço para visuais mais sóbrios e realistas.

A evolução das cores no cinema

A importância da cor para a narrativa cinematográfica remonta aos primeiros avanços tecnológicos da indústria. Um dos marcos mais conhecidos ocorreu em 1939, com o lançamento de “O Mágico de Oz”. Embora não tenha sido o primeiro filme colorido da história, a produção transformou a percepção do público sobre o potencial das cores no cinema.

A famosa cena em que Dorothy chega ao mundo de Oz evidenciou as possibilidades do Technicolor, tecnologia que permitia uma reprodução mais intensa e realista das cores. O sistema utilizava três tiras de filme separadas: uma para registrar vermelho, uma para verde e outra para azul. Posteriormente, essas imagens eram combinadas na pós-produção, criando um resultado visual mais vivo.

Antes disso, o Technicolor já havia experimentado métodos baseados em apenas duas tiras, capturando vermelho e verde. No entanto, o processo apresentava limitações. Além disso, ambas técnicas de gravações exigiam iluminação extremamente forte, o que elevava a temperatura nos sets. Outro desafio estava no tamanho dos equipamentos. As câmeras utilizadas chegavam a pesar cerca de 227 quilos, dificultando as filmagens e aumentando os custos de produção.

Nos anos 50, o sistema Eastmancolor ganhou espaço na indústria cinematográfica. O método simplificava parte do processo e se tornou uma alternativa popular. Entretanto, na década seguinte, surgiram problemas relacionados à estabilidade das cores.

O Diabo Veste Prada 2 também seguiu uma tendência minimalista, em comparação ao primeiro, para acompanhar a evolução | Crédito: Reprodução
O Diabo Veste Prada 2 também seguiu uma tendência minimalista, em comparação ao primeiro, para acompanhar a evolução | Crédito: Reprodução

Atualmente, a tecnologia digital eliminou grande parte das dificuldades históricas na captura e reprodução das cores. Ainda assim, a impressão de que os filmes estão visualmente mais apagados continua presente para muitos espectadores.

O realismo contemporâneo explica a mudança?

Wicked foi alvo de críticas por falta de cor, mesmo que seja um musical de filme | Crédito: Reprodução
Wicked foi alvo de críticas por falta de cor, mesmo que seja um musical de filme | Crédito: Reprodução

Muitos profissionais da indústria defendem que a preferência por tons mais discretos está ligada à busca por realismo. A ideia é fazer com que o público enxergue os ambientes e personagens como parte de um mundo mais próximo da realidade.

Um exemplo recente surgiu em 2024 com “Wicked”, dirigido por Jon M. Chu. Ambientado justamente no universo mágico de Oz, conhecido historicamente pela riqueza visual das cores, o filme também adotou uma abordagem mais contida em determinados aspectos de sua fotografia.

Em entrevista ao “The Globe and Mail, o diretor afirmou que a intenção era tornar aquele universo mais tangível para o público. Segundo ele, a proposta era criar um ambiente que parecesse vivido:

Acho que o que queríamos era imergir as pessoas em Oz, torná-lo um lugar real. Porque se fosse um lugar falso, se fosse um sonho na mente de alguém, então os relacionamentos reais e os desafios que essas duas garotas enfrentam não pareceriam reais.

A estética minimalista também ganhou força na publicidade, no design de interiores e na arquitetura. Como resultado, muitas pessoas têm a sensação de que o mundo ao seu redor está se tornando visualmente mais uniforme.

Contudo, principalmente no cinema, as cores continuam desempenhando um papel importante na construção das histórias. Assim, podem ajudar a transmitir não só emoções e características dos personagens, mas também contribuem para a ambientação das cenas.

Portanto, a busca por realismo não significa necessariamente eliminar a cor das telas. Em muitos casos, trata-se apenas de uma nova forma de utilizá-la para criar experiências mais imersivas e convincentes.

Em La La Land, as cores vibrantes acompanham o desenvolvimento dos personagens | Crédito: Reprodução
Em La La Land, as cores vibrantes acompanham o desenvolvimento dos personagens | Crédito: Reprodução

Apesar da popularidade da dessaturação, diversas produções recentes apostaram em paletas vibrantes e alcançaram reconhecimento justamente por sua identidade visual. Enquanto parte dos cineastas aposta em tons discretos para aproximar a ficção da realidade, outros continuam utilizando cores intensas como elemento central da narrativa.  Entre os exemplos mais conhecidos estão “O Grande Hotel Budapeste” (2014), “La La Land” (2016) e “Barbie” (2023). 

Imagem de capa: Reprodução

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