Entre mata, quadras, exposições e apresentações artísticas, espaço na região Norte de Belo Horizonte mantém uma relação histórica entre preservação ambiental, cultura popular e convivência

É possível entrar no Parque Municipal Fazenda Lagoa do Nado para uma caminhada e, no mesmo percurso, encontrar crianças brincando, uma partida de peteca, animais silvestres entre as árvores e uma apresentação artística acontecendo a poucos metros dali. Localizado entre os bairros Planalto e Itapoã, na região Norte de Belo Horizonte, o espaço reúne funções que ajudam a explicar por que chamá-lo apenas de parque parece pouco.

Em diferentes visitas realizadas ao longo de setembro, o GeekPop News acompanhou parte dessa rotina. Quadras ocupadas, famílias espalhadas pelas áreas verdes, atividades esportivas, exposições e apresentações convivem dentro de um espaço de aproximadamente 313 mil metros quadrados. A programação cultural não surge como um elemento isolado dessa experiência, mas como parte de uma relação com a comunidade que começou antes mesmo da inauguração oficial do parque, em 1994.

A própria existência da Lagoa do Nado como espaço público está ligada à mobilização popular. A área fazia parte da antiga Fazenda Engenho Córrego do Nado e, com o avanço da urbanização, passou a ser utilizada para recreação por crianças e jovens da região. Quando surgiu, no início da década de 1980, a possibilidade de implantação de um conjunto habitacional no terreno, moradores se mobilizaram pela preservação da área. A movimentação levou à criação da Associação Cultural Ecológica Lagoa do Nado e ajudou a construir o caminho que culminaria na inauguração do parque.

Um parque ocupado de muitas maneiras

Essa história ajuda a entender o que se encontra atualmente na Lagoa do Nado. Esporte, lazer, natureza e cultura não aparecem como experiências completamente separadas.

A infraestrutura inclui quadras de peteca e tênis, quadra poliesportiva, pista de skate, espaços para caminhada, além de equipamentos culturais. Nas visitas realizadas pelo GeekPop News, foi possível acompanhar a movimentação nas áreas esportivas, os espaços destinados às crianças e até atividades gratuitas realizadas em meio ao parque, como uma aula de pilates que nós vimos acontecer.

Ao redor de tudo isso permanece uma extensa área verde. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, pesquisadores da UFMG já identificaram cerca de 130 espécies de árvores no parque, das quais aproximadamente 75% são nativas. A fauna registrada inclui aves, répteis, anfíbios e mamíferos como mico-estrela, gambá, esquilo-caxinguelê e tatu.

É uma presença perceptível durante uma caminhada. Entre uma atividade e outra, animais silvestres aparecem pela vegetação enquanto famílias ocupam áreas de descanso e visitantes aproveitam as sombras das árvores.

Entre os espaços liberados estão playground, academia a céu aberto, quadra poliesportiva, pista de skate, Tenda do Bosquinho, Praça do Sol e o Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional.

Foto: Mário Guedes

Cultura popular também criou raízes na Lagoa do Nado

A presença da cultura no parque também possui raízes anteriores à estrutura que existe atualmente. Durante a mobilização pela preservação da área, a primeira Festa da Lagoa do Nado, realizada em 1983, já reunia cursos, oficinas, shows e debates como forma de aproximar a comunidade da defesa daquele espaço.

Décadas depois, essa relação permanece materializada no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado, CRCP.

Criado em 2014, o CRCP tem como proposta fomentar, registrar, promover e manter a discussão em torno da cultura popular e tradicional. O equipamento recebe oficinas, espetáculos, exposições e atividades de formação, além de estabelecer diálogo com agentes e representantes de diferentes manifestações culturais da cidade.

A programação de setembro de 2026 mostra a amplitude desse trabalho. Em um único mês, passaram pelo espaço atividades relacionadas à capoeira, música, literatura, teatro, carnaval, saberes sobre plantas medicinais e produções destinadas às infâncias. Há ainda encontros regulares de grupos e atividades como yoga, capoeira, ensaios musicais e oficinas.

Atrações para diversos gostos e realidades

Entre elas está o Sarau do Desjejum, coordenado por Ben-Hur de Oliveira. Realizado sempre no último domingo do mês, o encontro abre espaço para músicas autorais e MPB, leitura de poemas e intervenções teatrais. Na edição acompanhada pelo GeekPop News, artistas e visitantes também se reuniram em torno de um café da manhã antes e durante as apresentações.

A ocupação do espaço também passa por iniciativas comunitárias e solidárias. Entre elas está o Bazar Solidário Pets Perdidos no Planalto, que acontece na Lagoa do Nado e comercializa produtos para ajudar a financiar tratamentos de animais atendidos pelo projeto. A proposta é resumida pelo próprio grupo em uma frase: “Cada compra paga um tratamento.” O bazar acrescenta outra camada à diversidade de atividades encontradas no parque, aproximando a circulação de visitantes de uma ação voltada à proteção animal.

Outro exemplo dessa ocupação é o projeto Todas as Vozes, que realizam encontros que reúnem músicos e artistas para apresentar suas canções e, ao mesmo tempo, compartilhar com o público as histórias, vivências e inspirações por trás das composições. A proposta aproxima música e palavra e transforma a apresentação também em espaço de conversa entre artistas e público.

Outro projeto público que ocupa o parque frequentemente é o Nujazz no Parque, encontro entre DJs, músicos e grupos que propõe trocas em torno do jazz contemporâneo. A passagem de uma atividade para outra ajuda a revelar uma característica do espaço: não existe apenas uma maneira de frequentá-lo.

Foto: Mário Guedes

Memória encontra espaço no presente

A programação cultural também permite olhar para a história da própria cidade. Entre as exposições apresentadas em setembro está “O Jogo da Liberdade: a capoeira em Belo Horizonte, anos 60, 70 e 80”, com curadoria de Josemeire Alves e dos Mestres 90, Boca e Pelota.

Instalada no Casarão, a mostra recupera histórias de mestres e capoeiristas que construíram parte da trajetória da manifestação cultural na capital mineira, abordando a capoeira também a partir das ideias de resistência, pertencimento e liberdade.

Outras obras e exposições ampliam esse contato entre arte, memória e espaço público. É o caso de “Jardim de Cabeças”, com esculturas de Mestre Thibau, e “Oguns kabecilês, Enxadigma”, de Babilak Bah.

Nesse contexto, o visitante não precisa necessariamente sair de casa decidido a consumir cultura. Ela pode aparecer durante o percurso. A pessoa que chegou para praticar esporte pode encontrar uma exposição. Quem levou as crianças para brincar pode ouvir uma apresentação. Quem foi apenas caminhar pode descobrir parte da história cultural de Belo Horizonte.

Foto: Mário Guedes

A lagoa que hoje não está mais lá após rompimento de barragem

Apesar do nome, quem visita o Parque Lagoa do Nado atualmente encontra uma ausência importante na paisagem. A lagoa que dá nome ao espaço foi esvaziada após o rompimento de sua barragem, em 13 de novembro de 2024. Depois de fortes chuvas, a estrutura entrou em colapso e mais de 60 milhões de litros de água deixaram o reservatório, atingindo também o Córrego do Nado e áreas de vegetação do parque.

O impacto ambiental foi significativo. Mais de 600 animais foram resgatados após o rompimento, entre eles 459 peixes e 154 cágados e tartarugas. Parte dos sobreviventes precisou ser transferida, com peixes encaminhados ao Parque Ecológico da Pampulha e cágados e tartarugas destinados a estruturas do Ibama. A fiscalização ambiental também registrou danos à vegetação, com árvores e palmeiras derrubadas e áreas atingidas pelo material carregado durante o colapso.

Quase dois anos depois, a ausência da lagoa ainda faz parte da experiência de visitar o parque. A Prefeitura mantém áreas interditadas e informa que trabalha na recuperação e reconstrução do reservatório. Assim, falar atualmente sobre a natureza da Lagoa do Nado também significa falar sobre um ecossistema que passou por uma ruptura recente e ainda está em processo de recuperação. Não há prazo para retomada das obras da lagoa.

Um espaço construído pela convivência e para a comunidade local

Talvez essa seja uma das características mais interessantes da Lagoa do Nado. Sua história não separa com facilidade natureza, cultura e comunidade.

O parque que existe atualmente nasceu justamente de moradores que passaram a ocupar uma antiga fazenda como espaço de lazer e, posteriormente, se mobilizaram para impedir que aquela área desaparecesse. Antes mesmo da inauguração, manifestações culturais já faziam parte desse movimento.

Mais de três décadas depois da abertura oficial, essa multiplicidade continua visível.

Enquanto alguém joga peteca, outra pessoa acompanha uma apresentação. Crianças ocupam os brinquedos enquanto, no Casarão, uma exposição recupera a memória da capoeira belo-horizontina. Artistas encontram público, famílias encontram áreas de convivência e a fauna continua aparecendo entre a vegetação.

A Lagoa do Nado consegue, assim, preservar algo que vai além de sua extensa área verde. O parque funciona como um território de encontro, onde cultura, esporte, memória, infância e natureza fazem parte da mesma experiência urbana.

CRCP Lagoa do Nado

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Foto de capa: Mário Guedes