Seja pelo horror gótico de Edgar Allan Poe ao moderno de Stephen King, a literatura segue influenciando o cinema

A literatura de horror é um gênero que inspira cada vez mais o cinema, as séries e os jogos, muitas vezes ofuscando suas próprias origens literárias. No entanto, apesar desse fator, é essencial observar como suas bases se mantém as mesmas, ainda que em mídias variadas. Dentre essas bases, está o foco em despertar na audiência a emoção mais forte e antiga, que é o medo. E não é qualquer medo, mas a forma mais antiga de medo, que é o medo do desconhecido, segundo Lovecraft.

Por isso, um pequeno passeio pela história da literatura de horror se faz necessário. Desde aquilo que a originou, até os caminhos que percorreu ao longo dos séculos, sendo tão presente nos dias de hoje.

Ponto de partida

Antes de falar sobre a literatura como temos hoje em dia, é interessante compreender suas origens, bem como o que a fortaleceu. Retornando alguns séculos no passado, a literatura era protagonizada por heróis corajosos, com ênfase na valentia e audácia. E, mesmo que o medo estivesse presente em muitas obras, ele era ferramenta para manipulação e catequização.

Entretanto, com o avanço do tempo e de certos períodos históricos, o terror ganhou novos contornos e retornou ao seu devido lugar. Algo que, de certo modo, sofreu influência do período iluminista, onde o misticismo e a razão eram adversários e induziam fortes medos a população. E é nesse período em que surge, por exemplo, “O Castelo de Otranto” de Horace Walpole, tido como o primeiro livro de romance gótico.

Edgar Allan Poe e a literatura clássica

Edgar Allan Poe, icônico autor da literatura de horror
Edgar Allan Poe, visto como “pai” da literatura de horror | Crédito: Reprodução

Poe é visto por muitos como o “pai” da literatura de horror e esse título pode ser explicado pela excelência e características de suas obras. Ele, que inicialmente escrevia sátiras, trilhou para o caminho dos contos quando notou a demanda e foi um enorme acerto, devido as suas obras.

Dentre seus elementos mais marcantes, está a presença do horror gótico, que se caracteriza por uma atmosfera melancólica, situada em cenários sombrios. Por vezes, esse sombrio está ligado ao sobrenatural, mistérios e locais em ruínas. Além disso, um de seus elementos centrais é o foco no protagonista, que costuma ser narrador ou o ponto de vista que acompanhamos. Aliado a isso, os contos de Poe costumam envolver a degradação psicológica dos protagonistas, algo que nos aproxima deles e aumenta nosso temor também.

Por essas e outras que o autor segue sendo inspiração para tantos autores do terror, como por exemplo Lovecraft e seu horror cósmico. Alguns de seus contos essenciais, para conhecer seu estilo são “O Gato Preto”, “O Barril de Amontillado” e “O Poço e o Pêndulo”.

HP Lovecraft, horror cósmico e Cthulhu

HP Lovecraft, autor de O Chamado de Cthulhu
Crédito: Reprodução

E, por falar em Lovecraft, é impossível falar de terror sem mencionar o autor estadunidense. Além de ser uma grande influência para o autor, Poe também era alguém que Lovecraft nutria bastante afeição. Esse vínculo ajuda a compreender o estilo do escritor, que também aborda a psique de suas personagens, mas vai além.

O terror lovecraftiano, como ficou conhecido, se caracteriza pelo horror cósmico e tendo ênfase no medo do desconhecido e os horrores que isso gera. Aliado a isso está a perspectiva de insignificância humana diante desses horrores, que ganha força no terror psicológico e degradação da mente perante isso.

Um outro aspecto de muitas das suas narrativas, é o conhecimento associado a curiosidade. Por vezes, essa curiosidade leva seus personagens a encontrarem respostas para seu desejo curioso, porém essas descobertas sempre levam a um cenário de insanidade e paranoia. Boas obras para começar a ler o autor são “Dagon “, seu conto de estreia, “A Cor que Caiu do Espaço” e o célebre “O Chamado de Cthulhu”.

Outros autores de horror cósmico:

Aos amantes de horror cósmico, vale algumas menções para esse subgênero cada vez mais em ascensão. Dentre eles, Algernon Blackwood se destaca por suas narrativas longas, como “O Wendigo” e “O homem que as árvores amavam”. Neles, o foco está no contato do homem com forças desconhecidas, tanto na natureza quanto na bruxaria medieval e uma narrativa envolvente.

Lorde Dunsany, que também influenciou a obra de Lovecraft, se aventurou em muitos gêneros. No terror, “A Dreamer’s Tales”, “The Book of Wonder” e “The Two Bottles of Relish” são alguns dos destaques. Nas obras, o autor explora o macabro e sombrio num cenário onírico, sombrio e misterioso, tendo a fantasia como base.

E por último, Arthur Machen, que é visto como “rei” do folk horror ou terror folclórico. Em suas obras como “O grande deus Pã” e “O Povo Branco”, o autor desenvolve narrativas de horror que evocam o misticismo do horror. Algo que inclui bruxaria, seres da floresta e o terror que vem da curiosidade.

Bram Stoker e o Drácula

Bram Stoker, autor do célebre "Dráculo"
Bram Stoker, autor do célebre “Drácula” | Crédito: Reprodução

O autor de um dos personagens mais conhecidos da cultura do horror em geral não podia estar de fora. A existência de seu Drácula, no entanto, não surgiu do nada e o autor recorreu de anos de pesquisa sobre folclore europeu e suas histórias. Dentre suas inspirações, está o líder militar Vlad III Drácula (ou Drăculea em romeno) ou Vlad o Empalador, que ganhou o título devido a sua brutalidade.

Em sua obra mais célebre, o autor utiliza de uma escrita marcada por cartas e diários, que demonstram o ponto de vista de seus personagens. Além disso, é perceptível, na obra, a preocupação de Stoker com a ambientação e o clima descritos, algo que contribui para o suspense.

Ainda que seja uma obra difícil de ser lida, devido ao aspecto quase teatral, Drácula é uma obra muito marcante. E muito disso é pela presença de inúmeras convenções sobre vampiros que vemos até os dias atuais.  Outras obras de Bram Stoker, que valem destaque, são “The Primrose Path”, “O Castelo da Serpente” e “A Joia das Sete Estrelas”.

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Stephen King: terror contemporâneo

Stephen King, grande autor da literatura de horror
Crédito: Divulgação

Stephen King é um dos autores com mais obras publicadas e adaptadas do cinema e das séries. Algo que fica claro pela contemporaneidade de suas obras, que unem terror a diversos temas, como abuso, traumas, insanidade, luto e muito mais. E esse ponto torna imprevisível o caminho que o escritor tomará em suas abordagens e personagens.

Para contar suas histórias, King costuma utilizar de uma variedade interessante de antagonistas, que enriquecem suas narrativas ao passo que desenvolvem seus protagonistas. Por isso, vemos desde criaturas macabras e locais assombrosos até pessoas a beira da loucura e “ambientes vivos” em seus livros.

Um outro detalhe marcante das obras de Stephen é a riqueza de detalhes que o escritor dá aos ambientes, personagens e clima dos cenários. Algo que serve para nos imergir na narrativa e nos aproximar dos personagens. Dentre suas obras mais marcantes, temos “It – A coisa”, “O Iluminado”, “Cemitério Maldito” e “Carrie”.

Vale adicionar que o filho do autor, Joe Hill, também seguiu a literatura de horror. Dentre os estilos que ele abordou, estão o mistério, o terror sobrenatural e o thriller. Algumas das obras que valem destaque dele são “A Estrada da Noite”, “O Pacto” e “NOS4A2”.

André Vianco e o terror nacional

André Vianco
Crédito: Divulgação

Em solo brasileiro também temos nomes que merecem destaque na literatura de horror, sendo André Vianco um deles. O autor, que já possui quase trinta anos de carreira, traz muitos cenários nacionais e une fantasia e terror.

Dentre suas características mais marcantes, estão a criação de mundos sobrenaturais e um cenário próprio de vampiros. Em seus livros, o autor mergulha seus leitores em cenários de suspense e em um ritmo ágil. Algo que cativa a leitura e facilita ainda mais a humanização que o escritor traz para suas criaturas.

Algumas das obras essenciais para conhecer o autor são “Os Sete”, seu primeiro livro e grande referência. Além desse, temos obras como “O Bosque do Silêncio”, “O Vampiro Rei” e “Sementes no Gelo”.

Raphael Montes, brasilidade e terror

Raphael Montes | Crédito: Divulgação/Bienal do Livro
Raphael Montes | Crédito: Divulgação/Bienal do Livro

Um outro destaque nacional e que vem ganhando cada vez mais destaque é Raphael Montes. O autor, conhecido pela criação da série “Bom dia, Verônica“, costuma mergulhar no thriller de suspense, bem como no horror mais clássico. Em suas obras, temos cenários nacionais como palco dos mistérios que suas contam. Algo que nos aproxima de sua obra, mas que não seria suficiente para nos envolver, se não fosse pelo excelente domínio de construção de tensão.

Além do uso de cenários nacionais, por vezes cariocas, o autor explora aspectos de moralidade e perversidade humana. Algo muito presente, por exemplo, nos livros “O Vilarejo” e “Dias Perfeitos”, sendo o primeiro sobre um mal sobrenatural e o segundo sobre o lado humano do horror. Sendo fortemente influenciado por grandes autores como Jorge Amado e Machado de Assis, Montes tem em contar uma boa história a sua maior missão como escritor.

Além dos elementos já citados, uma outra marca do autor são as reviravoltas, surpresas tensão de suas obras. Algo que gera ainda mais interesse pelos livros do escritor. Dentre obras necessárias para conhecer mais do autor, temos “Suicidas”, que foi seu primeiro romance, “Uma Família Feliz” e os já citados “O Vilarejo” e “Dias Perfeitos”.

Outros nomes do horror nacional:

Uma autora que merece destaque, é Ana Paula Maia. Em suas obras, vemos uma harmônica e interessante união de elementos que compõem ótimas obras. Algo bastante comum em suas obras, é o desenvolvimento do horror em conjunto a outros temas.

Um exemplo disso é em “Assim na terra como embaixo da terra”, onde o horror se encontra no cenário prisional. E, a partir disso, a autora extrai o terror de sua narrativa ao passo em que levanta discussões sobre punição e abandono. Um outro ótimo exemplar que carrega essa característica é “Enterre seus mortos”.

O culto amarelo LH Vaz
Crédito: Divulgação / LH Vaz

E uma menção valiosa de literatura nacional é LH Vaz, autor mineiro em ascensão responsável pela obra O Culto Amarelo. Em suas obras, o autor caminha por mais de um estilo de literatura de horror, apostando no contexto histórico como base de suas narrativas.

Dentre seus temas, temos o horror cósmico, presente em “O Culto Amarelo” que se une a personagens cativantes numa obra de investigação. Além disso, o autor também abordar o “terror clássico”, algo bem presente em “A Bruxa de Ouro Preto”. Aliado a isso, temos narrativas envolventes e uma leitura fácil, que une temáticas lovecraftianas ao carisma mineiro.


Portanto, ao navegar por tantas obras e autores, é fascinante notar como o horror mudou ao longo do tempo, exceto por sua ideia central: gerar medo.

Crédito da capa: Divulgação

Estagiário sob supervisão de Thiago Satiro.

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