Você se lembra a última vez que começou a assistir uma série nova sem sentir aquela preguiça de dar play em algo com várias temporadas? A ideia de começar a acompanhar uma história nova sem saber se será bom ou se dará tempo para terminar depois está se tornando cada vez mais incompatível com a correria do dia a dia.

Cada vez mais, vemos termos como “série do almoço” sendo popularizados para se referir a aqueles programas com episódios curtos e fáceis de pausar que assistimos em um momento oportuno durante a rotina. Tentar encaixar o entretenimento nos momentos possíveis durante a semana está causando mudanças nos hábitos de consumo de parte do público.

Além da correria do dia a dia, o boom das redes sociais nos últimos 15 anos também interferem diretamente na forma como nós assistimos televisão. De acordo com um levantamento da Global Web Index (GWI), empresa dedicada a pesquisa de audiência, 8 em cada 10 pessoas possuem o hábito de usar redes sociais enquanto assistem TV.

A ideia de que o seu público alvo está fazendo outras coisas enquanto assiste às séries interfere diretamente na forma como os roteiros são produzidos. Segundo uma publicação da revista N+1 em 2024, a Netflix passou a pedir que roteiristas produzam diálogos explicativos e simplifiquem tramas para que pessoas usando a TV como “segunda tela” possam acompanhar.

“The Office” e “How I Met Your Mother”, duas “séries de almoço” queridinhas do público (Créditos: Reprodução/Netflix e Prime Video EUA)

Padrão de consumo não é a única explicação por trás das “séries curtas”

Quando pensamos na ideia de “atender a demanda”, é fácil deduzir que todas as séries atualmente possuem temporadas menores e episódios curtos apenas para atender a esse novo padrão de consumo. Mas, será que apenas isso explica essa tendência sendo formada na última década? A resposta é não.

Além disso, outros fatores também contribuíram para praticamente extinguir a criação de séries novas com mais de 20 episódios e múltiplas temporadas. A chegada dos streamings mudou a dinâmica de Hollywood, o que também desaguou em outras indústrias.

A competição entre os tantos streamings que brigam entre si por nossa atenção aumentou a necessidade de lotar o catálogo. A lógica é “atirar para todos os lados” e tentar garantir novos sucessos. Com isso, estúdios produzem mais e, obviamente, arcam com custos maiores.

Custo de produção também gera crise

E cada produção está cada vez mais cara! Por exemplo, a quarta temporada de “Stranger Things“, que conta com nove episódios, custou cerca de 270 milhões de dólares à Netflix. Já a primeira temporada de “Ruptura“, também com apenas nove episódios, precisou de um investimento de US$ 200 milhões por parte da Apple.

Esse custo elevado de produção também explica a quantidade de episódios diminuir. E enquanto as temporadas ficam cada vez menores, o tempo de espera para o público pelos lançamentos está maior! Os fãs de “Stranger Things” tiveram que esperar três anos entre a quarta e a última temporada da série, assim como no caso de “Ruptura”.

Esses são dois exemplos de séries com milhões de fãs. Mas, o que acontece quando o investimento milionário não se converte em um lucro estrondoso logo de cara? Cancelamentos! De acordo com um levantamento da revista People, 71 séries foram canceladas em 2025 nos streamings e canais de TVs em Hollywood.

Alto valor reduziu “paciência” dos estúdios e culminou em estafa para o público

Com o custo milionário para lançar uma série, os estúdios seguem a lógica de que tempo é dinheiro. Não atingiu um público tremendo logo na primeira temporada? Cancela a próxima e parte para o próximo possível sucesso. Isso se junta aos hábitos de consumo e gera uma estafa em que, ao mesmo tempo que nunca tivemos tantas séries à disposição, está cada vez mais difícil depositar nosso tempo para acompanhar uma produção.

Afinal, quem quer começar a assistir algo novo e correr o risco do programa ser cancelado “no meio da história”? Se grandes sucessos como “Breaking Bad“, “The Office” e “How I Met Your Mother” estivessem em produção hoje em dia, elas sequer teriam passado da primeira temporada…

Imagem de capa: Reprodução/drobotdean – Magnific.com

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